A "Suma ecológica". Para continuar o compromisso estabelecido pela "Laudato si'". Oito teses

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07 Novembro 2018

A encíclica Laudato Si’ deve continuar a ser lida e estudada, mesmo depois de mais de dois anos de sua publicação. Trata-se de um documento muito amplo, muito rico de reflexões e provocações para o compromisso. Ele reúne, resume e desenvolve ulteriormente muitas contribuições do anterior magistério dos papas - especialmente de Bento XVI - e das conferências episcopais, de outras autoridades cristãs - como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I – e religiosas, e também as contribuições de muitas ciências diversas. A partir dele, pode-se falar de ciências naturais e sociais, de política internacional, nacional e local, de economia e de ética, de educação e de pastoral, de teologia e de espiritualidade, de filosofia e história das ideias, de ecumenismo e de diálogo interreligioso ... portanto justamente no curso do Simpósio, a encíclica foi definida como uma verdadeira "Suma ecológica".

O artigo é de Federico Lombardi, publicada por L'Osservatore Romano, 6/7-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Trata-se também de um documento que envolve numerosas categorias diferentes. O próprio Simpósio foi uma demonstração disso com a ampla participação de 700 pessoas que não só ouviram, mas também discutiram e contribuíram ativamente nos grupos de trabalho: acadêmicos e professores, políticos e administradores, sacerdotes e religiosos, pesquisadores e estudantes, operadores pastorais e sociais, empresários e funcionários de várias instituições. Ler e discutir juntos a Laudato Si’ pode colocar em caminho um povo, tornando-o responsável e protagonista da mudança para o bem comum, que é exatamente o que o Papa Francisco deseja.

Não há dúvida que a Laudato Si’ seja o documento que mais do que todos, nos últimos anos, foi capaz de colocar em marcha um amplo processo de reflexão e diálogo participativo. Um diálogo que supera as barreiras que normalmente separam entre si disciplinas científicas, nações, línguas, classes sociais, religiões. Os problemas que são abordados e perguntas que surgem são urgentes e cruciais, são questões de vida e morte para a humanidade. Mais de uma vez o Papa Francisco literalmente diz que tendências "suicidas" estão em ato. Os apelos da comunidade científica repetem-se cada vez mais frequentes e preocupados com os "limites físicos" do planeta, que estão perigosamente próximos ou já ultrapassados. As situações dramáticas e injustas vivenciadas por populações pobres e frágeis, como resultado de crises ambientais em um número crescente de áreas do globo impõem-se cada vez mais à atenção internacional, das pequenas ilhas do Pacífico, às zonas subsaarianas em via de desertificação e ao desmatamento de Amazônia. O "grito da terra" une-se ao "clamor dos pobres" e é urgente responder.

A universidade é, por natureza, o lugar adequado de diálogo interdisciplinar na pesquisa e o lugar da formação das pessoas aptas a enfrentar de modo competente os desafios concretos materiais, culturais e espirituais da sociedade em que vivemos. Não há, portanto, lugar melhor para reunir os impulsos de um documento que não pode ser aprofundado e colocado em prática se não com uma perspectiva interdisciplinar. Os problemas de que trata devem ser formulados e estudados com a ajuda das ciências físicas, biológicas, médicas, sociais e econômicos, que são cultivadas justamente nas universidades.

Os apelos à responsabilidade e a proposta das motivações ideais nos impelem à ação, mas o cuidado da casa comum requer um conhecimento prático sobre a natureza e o estado dos diversos componentes da casa, da saúde deles e dos habitantes. Um conhecimento científico, não puramente sumário, deve fornecer dados claros e precisos, em base aos quais seja possível proceder a um diálogo sério entre competentes e à elaboração de estratégias de ação, que devem então ser verificáveis em sua eficácia. Mesmo esse conhecimento é uma parte essencial, aliás, é um pré-requisito para o exercício da responsabilidade pela casa comum. O índice quantitativo que nas últimas décadas dominou o cenário nas reflexões e discussões sobre o bem-estar e o desenvolvimento econômico foi aquele do Produto Interno Bruto. O dogma da necessidade e do mito da possibilidade de um "crescimento" material indefinido, ligados a esse modo muito limitado e parcial de calcular o bem-estar humano, provocam os graves erros de perspectiva que decorrem daquele "paradigma tecnocrático" que a Laudato Si’ critica radicalmente como a causa dos males cada vez mais graves da casa comum. Por isso, é necessário esforçar-se para elaborar as fórmulas de novos índices, que sejam de ajuda eficaz no estudo dos processos de evolução do estado de saúde da casa comum e direcionem para a necessária mudança do "paradigma" do desenvolvimento. Estudiosos comprometidos em nível internacional e nas organizações internacionais, que ampliaram o olhar do campo econômico àquele social, já elaboraram novos índices importantes, como o Índice de Progresso Social (Social Progress Index) e, mais recentemente, um Índice de pobreza. Durante o Simpósio foi proposto um novo índice Laudato Si’, baseado em um complexo modelo conceitual de ecologia integral humanista, que integra o cálculo de numerosas variáveis, tentando refletir o mais fielmente possível as considerações e a visão global oferecidas pela encíclica.

Tal Índice, se conseguir um amplo consenso entre os estudiosos, pode ser proposto como base para o trabalho de um "Observatório", aliás, de uma rede de "Observadores" - instituídos junto a diferentes universidades - que o apliquem para estudar e avaliar de forma coordenada o desenvolvimento da situação da casa comum em diferentes regiões do mundo ou em diferentes países, e também o impacto de diversas atividades, de instituições e comunidades, à luz dos critérios e objetivos resultantes da encíclica. Trata-se, em síntese, de aceitar o grande desafio de encontrar "instrumentos de medição" cientificamente confiáveis para avaliar, e então reorientar de modo permanente o caminho da humanidade rumo a um desenvolvimento integral e uma ecologia integral.

A dificuldade de traduzir a "qualidade" de vida em termos "quantitativos" é grande, devido ao risco contínuo de subestimar os aspectos humanos e espirituais em relação aos materiais, mais facilmente mensuráveis; portanto, os índices devem ser submetidos à contínua revisão crítica. No entanto, o desafio vale ser enfrentado, apesar das limitações e dúvidas, para que os discursos sobre o cuidado da casa comum não permaneçam, no final, demasiado genéricos e abstratos.

O Simpósio foi realizado na Costa Rica e isso não foi uma coincidência. A Costa Rica é um país em que a sensibilidade ecológica é particularmente elevada, tanto por parte das autoridades e das pessoas de cultura quanto pela população. Há um certo orgulho nacional e um desejo de se apresentar como um líder nesse campo. O maravilhoso ambiente natural e a história do país, que há tempo rejeitou não só a guerra, mas também a própria existência de forças armadas nacionais, alimenta esses sentimentos positivos. Ao mesmo tempo, a participação notável dos políticos e economistas da Costa Rica nas apresentações e nos grupos de trabalho levou a evidenciar várias questões concretas no debate nacional sobre "conservação ou produção". Outras intervenções destacaram os desafios que a encíclica propõe no contexto específico da América Latina, caracterizado pelas maiores disparidades no desenvolvimento socioeconômico, pela maior taxa de urbanização, pela maior riqueza de biodiversidade, pelo maior pulmão do mundo: a Amazônia.

Se quisermos salvar a casa comum precisamos passar de um “paradigma tecnocrático" - isto é, de um sistema em que as energias da ciência e da tecnologia são colocadas ao serviço da economia segundo ideias orientadoras e interesses que nos levam à destruição - para um "novo paradigma", ou seja, um sistema diferente de vida, de ação e de valores que vise o desenvolvimento integral e sustentável das pessoas e da sociedade humana na casa comum. Certamente isso comporta uma ação incisiva e a longo prazo na política e na econômica, na legislação e na organização da sociedade, da qual é necessário falar e na qual os responsáveis de todos os níveis de governo e administração são chamados a agir.

Mas a perspectiva da Igreja e, portanto, do Papa, não é exclusivamente - e talvez nem mesmo principalmente - a de uma governança mundial eficiente e burocraticamente bem organizada, capaz de resolver problemas com uma multiplicação infinita e capilar de leis e regulamentos. A Laudato Si’, portanto, insiste muito na importância da educação para transformar atitudes e comportamentos de cada pessoa, sem os quais nenhuma regulamentação poderá ser eficaz. O grande número de educadores, pais, professores, responsáveis pastorais presentes no Simpósio levou naturalmente a ver e sentir a centralidade desse aspecto no apelo à ação do Papa. Alterar o "paradigma" significa necessariamente mudar o "estilo de vida" das pessoas, começando com a sua educação.

Evidentemente, não pode haver mudança no estilo de vida externo sem uma profunda mudança interna, do coração. A esse respeito, a encíclica pronuncia a palavra clássica e forte que os profetas usaram e que Jesus usou: "Converta-se". Se quisermos salvar a casa comum e a nós mesmos junto com ela, devemos nos converter! Mudar o coração e junto mudar a vida, mudar a nossa relação com as outras criaturas e as outras pessoas. Isso é suficiente? Para o Papa Francisco e para toda a tradição da Igreja não é suficiente se não colocarmos em ordem, mais fundamentalmente ainda, a nossa relação com Deus. Deus é antes de tudo o Criador. Dele recebemos a vida e todas as criaturas como um dom, diante do qual somos responsáveis e por ele somos chamados a cuidar da criação e a colaborar com ele na conservação e no progresso para o seu fim. As Escrituras nos ensinam a gratidão, a humildade e o louvor diante dele, ensinam-nos a contemplar a beleza da criação e a respeitar seu mistério. Jesus cura as relações arruinadas pelo pecado entre nós e Deus, entre nós e outras pessoas humanas, entre nós e as criaturas. Na celebração litúrgica, especialmente na Eucaristia, oferecendo "o fruto da terra e do trabalho do homem", junto com Jesus e em Jesus levamos de volta a Deus toda a criação reconciliada e olhamos com esperança para o cumprimento de todo o acontecimento do mundo e da história. Durante o Simpósio, várias apresentações ajudaram os presentes a alcançar um entendimento muito mais profundo dessa dimensão religiosa e espiritual da "conversão ecológica", que se traduz em contemplação, oração pessoal, celebração litúrgica comunitária e ascese cotidiana.

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