Munus Sanctificandi: Ministros nas comunidades indígenas e o direito de acesso à Eucaristia. Artigo de Walter Kasper

Fonte: Religión Digital

06 Agosto 2019

“Se sem participação na Eucaristia falta algo essencial no ser igreja e se sem comer na mesa eucarística a comunidade fraterna e a unidade da Igreja se fragilizam, desmoronam e correm o risco de se dissolver, a questão é: as comunidades cristãs, como podem ser Igreja em sentido pleno da palavra, se não participam regularmente na celebração eucarística? Sem a Eucaristia, não lhes falta algo, não falta a elas o centro, não carecem do essencial do ser Igreja? Como é possível lhes negar, então, o direito à Eucaristia?”, questiona o cardeal Walter Kasper, em artigo a propósito do Sínodo para a Amazônia, publicado por Religión Digital, 01-08-2019. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

É uma alegria para mim ser convidado para contribuir com o Sínodo para a Amazônia. Contudo, preciso dizer que nunca fui a esta região. Portanto, seria presunção de minha parte fazer propostas concretas para a pastoral deste território. Só posso oferecer uma humilde contribuição como teólogo europeu, mas acredito que não sou “eurocêntrico”. Neste sentido, gostaria de explicar minha tese integrando-a em um contexto teológico mais amplo.

Começarei destacando o elo entre a celebração da Eucaristia, a santificação da vida e o cosmos. Na sequência, explicarei como a Eucaristia, centro e cume da estrutura sacramental da Igreja, requer um direito à Eucaristia. Na terceira parte, gostaria de esclarecer o que significa o direito à Eucaristia e, ao final, concluirei com três breves respostas à pergunta inicial concreta sobre os ministros de cultura indígena.

 

I. A Eucaristia Dominical: santificação do cosmos e da vida

Para entender o que significa o munus sanctificandi, precisamos integrá-lo no marco da teologia bíblica fundamental: Deus é santo e a santidade é seu atributo fundamental. A santidade é, por assim dizer, a expressão de seu ser Deus e uma expressão de sua superioridade frente a todo o mundo que é criado, o que é muito importante tanto para a Bíblia como para os povos indígenas: Deus não é uma realidade distante, é onipresente. Assim, o cosmos e a natureza em sua beleza e harmonia reluzem e refletem a santidade de Deus e são algo sagrado, que demanda respeito.

Neste sentido, é possível dizer que o munus sanctificandi é parte da ordem cósmica e do ser humano e, portanto, o momento de celebração do sábado não é apenas um preceito positivo, mas corresponde à própria ordem da criação (Gn 2,3). Com a santificação do sétimo dia, Deus deu uma ordem e um ritmo ao tempo que está inscrito na própria realidade [1] e, portanto, se tornou um direito humano, baseado em sua própria natureza [2]. A esta altura surge minha primeira pergunta: como não podemos conceder este direito de criaturas aos povos da Amazônia?

No Novo Testamento, o dia do sábado foi substituído pelo primeiro dia, o domingo, o dia da ressurreição do Senhor, que é o começo da nova criatura e, portanto, o cumprimento do dia do sábado (Mt 28,1; Mc 16.2; Lc 24.1; Jo 20.1). Nos domingos, abençoamos o pão e o vinho, os frutos da terra e do trabalho do homem, para que estas realidades naturais e culturais se transformem e se convertam no corpo e o sangue de Cristo, e indiretamente também se transfiguram todas as criaturas incluídas nesta transfiguração. Na celebração e transformação eucarística começa a transfiguração escatológica de todo o cosmos. Começa também a transformação do trabalho do homem e sua cultura, porque o pão e o vinho não são somente natura, são também frutos da cultura humana.

Este é, em minha opinião, um aspecto não irrelevante para povos como os da Amazônia que estão intimamente ligados a seu habitat e a sua cultura e, ao mesmo tempo, têm um sentimento pelo sagrado da natureza e do cosmos. Para eles, a Eucaristia tem uma relevância e uma dimensão que lamentavelmente, muitas vezes, perdemos em nossa cultura urbana moderna. Portanto, surge minha segunda pergunta: como não podemos reconhecer (texto original: conceder) este simbolismo eucarístico aos povos que o compreendem melhor que nós e que necessitam dele para sua vida diária geralmente dura? Como podemos lhes negar a celebração da Eucaristia com formas e canções apropriadas a sua cultura?

Esta pergunta se torna ainda mais urgente e significativa se olhamos para a tradição imediatamente pós-bíblica e pós-apostólica. Já na Carta aos Hebreus, temos uma primeira indicação para a assembleia dominical (10, 25), que é reforçada pelo filósofo e mártir Justino (+165), em sua primeira Apologia, onde diz: “Nos domingos, temos um pacto. Porque é o primeiro dia, em que Deus através da transfiguração das trevas e a matéria primordial criou o cosmo, e porque Jesus Cristo, nosso salvador, neste dia, ressuscitou da morte” (1, 67).

Inácio de Antioquia (+115/117), na Carta aos Magnésios, escreve: “Sendo assim, se os que haviam caminhado em práticas antigas alcançaram uma nova esperança, já sem observar os sábados, mas, moldando suas vidas segundo o dia do Senhor, no qual nossa vida brotou por meio dEle e por meio de sua morte que alguns negam [...], como poderemos viver longe dEle [?]” (9, 1s). Caso se leve em consideração que para Inácio o cristão vive segundo o domingo, o domingo não é um dia como qualquer outro, o domingo molda e forma toda a vida cristã. A esta altura podemos acrescentar a famosa frase dos mártires de Abitina (+180). Eles responderam ao juiz pagão: “Não podemos ficar sem a ceia do Senhor”. E uma das mártires confessou: “Sim, fui à assembleia e celebrei a ceia do Senhor com meus irmãos, porque sou cristã” [3].

Destes testemunhos, surgiu o mandamento de acordo com o qual os fiéis devem participar da Missa todos os domingos e dias de festa [4]. Este mandamento é formalmente apenas um mandamento eclesial, mas se o Catecismo da Igreja Católica afirma que obriga sob pecado grave [5], declara então que se trata de um mandamento do qual depende a salvação e a vida eterna da pessoa. Tal mandamento, sob a ameaça da perda da vida eterna, não apenas pode ser um mandamento da Igreja, como também necessita de fundamento no mandamento divino. Sendo assim, faço-me uma terceira pergunta: como fazer toda uma igreja local, como a da Amazônia, ser uma igreja na tradição apostólica, sem a regular celebração eucarística dominical?

 

II. A Eucaristia na economia da salvação

Tomemos o incipit da Bíblia, porque a Bíblia é a alma de toda a teologia (OT 16). Notamos: a Bíblia não é a norma da qual se extraem as conclusões, nem o fundamento sobre o qual se constrói uma arquitetura especulativa. Ao contrário, a Bíblia é a alma, ou seja, a fonte inspiradora que dá o alento e impulso à vida cristã e é a fonte inspiradora e vivificante nas diferentes situações culturais, como já demonstrado pelos diferentes relatos bíblicos da última ceia de Jesus, que apresentam traços de inculturação.

Comecemos pela última ceia de Jesus e a véspera de sua morte (Mt 26, 26-29 par; 1Co 11, 23-25). Esta ceia deriva da tradição da Páscoa judaica em memória do Êxodo e da libertação de Israel da casa de escravidão no Egito (Ex 20, 2; Dt 5, 6). Se os textos no livro do Êxodo forem lidos cuidadosamente, é possível ver que não se trata somente de uma libertação política. Nas disputas de Moisés com o faraó, evidencia-se que Moisés pediu ao faraó a liberdade para adorar a seu Deus (Ex 4, 22; 5, 1; 7, 16.26 e. a.) que havia se revelado a ele, no deserto, na sarça ardente (Ex 3). Em termos modernos, é possível dizer que se trata da demanda pela liberdade de culto, que é fundamento da liberdade política.

O Êxodo começou com a ceia do cordeiro pascal, que depois, por ordem de Deus por meio de Moisés, terá que ser celebrada todos os anos pelo Povo de Israel como ceia Pascal judaica. Esta celebração da Páscoa se junta ao rito de circuncisão e a observância do dia de sábado se tornou uma vinculação constitutiva da solidariedade do Povo de Israel e permaneceu até hoje em dia, especialmente na diáspora.

Nesta tradição do Povo da Primeira Aliança, Jesus celebrou sua última ceia com os Doze, a quem escolheu como representantes das doze tribos de Israel no Povo escatológico do Novo Testamento. Naquele momento, estabeleceu a nova tradição: “Façam isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1Co 11, 24s). Assim como a ceia pascal judaica torna presente o Êxodo e a libertação do Egito, também a Ceia Pascal neotestamentária torna realidade o Êxodo e a libertação do pecado e da morte. Constitui-se o começo da nova vida no Reino de Deus (Lc 22.16 par.). Portanto, a ceia eucarística não é um acessório, mas, ao contrário, é constitutiva do Povo neotestamentário de Deus, para sua sobrevivência e solidariedade.

O momento constitutivo também é destacado pelo evangelho de João no discurso de Jesus após a multiplicação dos pães. Primeiro Jesus disse: “Eu sou o pão da vida” (6:35. 48.51), e depois: “eu dou o pão para a vida do mundo (Jo 6.47). “Se alguém come deste pão viverá para sempre” (6.59). “Se não comem a carne do Filho do Homem e não bebem o seu sangue, não há vida em vocês” (6:53). “Aquele que come minha carne e bebe meu sangue, permanece em mim e eu nele” (6:56).

São palavras fortes, categóricas e inequívocas. Se não comemos o pão eucarístico, não participamos de Cristo e não temos vida eterna. Sem a ceia eucarística, um cristão não pode sobreviver. A participação eucarística é uma questão de vida ou morte para os cristãos. Portanto, há uma intimação do Senhor aos Doze: “Deem-lhes vocês algo para comer” (Mt 14,16). Esta intimação também vale para os sucessores dos apóstolos!

Para o apóstolo Paulo, a Eucaristia não é apenas alimento individual, mas é alimento eclesial que edifica a Igreja. Paulo sabe que graças ao nosso batismo, tornamo-nos membros do corpo de Cristo de uma vez para sempre (Rm 6,3-11). No entanto, o batismo é apenas o princípio e o fundamento da nova vida em Cristo. Esta deve crescer e amadurecer. Sem o viático da Eucaristia, o Povo de Deus se cansa em seu caminho, se fragiliza, se vai e corre o perigo de morrer de fome e sede.

Portanto, a participação no corpo de Cristo deve se fortalecer mediante a participação na mesma mesa. “O cálice de benção que nós abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? E como há um único pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo, pois participamos todos do mesmo pão” (1Co 10.16s).

A teologia dos Padres da Igreja tomou as palavras de Paulo para expressar o caráter de comunhão eucarística. Santo Agostinho define a Eucaristiasacramentum unitatis et vinculum caritati” [6]. Inclusive, afirma que na Eucaristia a Igreja celebra o que é: “vosso mistério está no altar” [7]. Tomás e Boaventura resumem esta tradição e dizem que a Eucaristia é um sinal e instrumento da unidade da Igreja [8]. Ferramenta, porque a Igreja celebra a Eucaristia. Sinal, porque a Igreja vive da Eucaristia.

O ensinamento do Concílio Vaticano II é claro: a participação na Eucaristia é a fonte e o ápice de toda vida cristã (LG 11). É símbolo dessa unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação (LG 26). É o centro e o cume de toda a vida da comunidade cristã (CD 30). A Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja. É a fonte e o cume de toda a evangelização (PO 5). O Papa João Paulo II e o Papa Bento fizeram ecoaram a famosa frase de Henri de Lubac: “A Eucaristia constrói a igreja e a Igreja faz a Eucaristia” (26) [9].

Dizer que a Eucaristia é central e ápice significa dizer que é o centro e o cume de toda a ordem dos sacramentos que acompanham a vida, do início ao fim. O batismo ao nascer, a confirmação na adolescência, o sacramento da penitência quando a vida cristã é ferida, e na hora da doença grave e a morte, a unção dos enfermos. Os sacramentos centrados na Eucaristia acompanham e santificam toda a vida humana, em seus momentos cruciais, e não fazem isso apenas por meio das palavras, mas também por meio dos símbolos que os povos indígenas compreendem melhor que nós que vivemos em uma civilização mais ou menos secularizada.

Na encíclica Laudato Si’ (2015), o Papa Francisco expressou esta dimensão integral e cosmológica: “Na Eucaristia a plenitude já se realizou, e é o centro vital do universo, o centro cheio de amor e vida inesgotável. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito, a Eucaristia é em si mesma um ato de amor cósmico” (236). Portanto, a Eucaristia tem sua relevância para o respeito e a preservação da integridade da criação.

Permitam-me terminar estas reflexões com outra pergunta. Se sem participação na Eucaristia falta algo essencial no ser igreja e se sem comer na mesa eucarística a comunidade fraterna e a unidade da Igreja se fragilizam, desmoronam e correm o risco de se dissolver, a questão é: as comunidades cristãs, como podem ser Igreja em sentido pleno da palavra, se não participam regularmente na celebração eucarística? Sem a Eucaristia, não lhes falta algo, não falta a elas o centro, não carecem do essencial do ser Igreja? Como é possível lhes negar, então, o direito à Eucaristia?

 

III. O que significa direito à Eucaristia?

Alguns acreditam que na economia da salvação não pode haver direito, porque tudo é graça. De alguma maneira isto está correto, mas tudo depende do que venha a significar o termo “direito”. É óbvio que não há direito no sentido de pretensão subjetiva, mas este não é o significado original do termo “direito”. “Direito” no sentido etimológico (em italiano diritto, em francês droit, em inglês, right, em alemão, richtig) significa o que é “reto” no sentido comum, o que é justo e equânime, ou melhor, conforme diz a liturgia, o que “vere dignum et iustum est”.

Nas religiões dos povos, tal justiça provém de uma ordem sagrada cósmica. A Bíblia, por outro lado, fala em hebreu de mispat, em grego de dike, ou seja, de uma ordem estabelecida por Deus na criação e na revelação histórica da salvação. Na teologia, falamos de um ius divinum [10]. No entanto, este ius divinum nunca o temos quimicamente puro, só o temo na linguagem humana.

“Na Sagrada Escritura, pois, manifesta-se, salva sempre a verdade e a santidade de Deus, a admirável “condescendência (synkatabasis) da sabedoria eterna” – conforme disse o Concílio Vaticano II – “para que conheçamos a inefável benignidade de Deus, e de quanta adaptação de palavras usou, tendo providência e cuidado com nossa natureza” (DV 13).

A condescendência final teve lugar na encarnação do Logos em Jesus Cristo (Jo 1,14). Mas, Jesus não nos deixou apenas palavras. Para não nos deixar como órfãos, deixou-nos outro Paráclito, o Espírito da Verdade, que sempre permanece conosco (Jo 16,8. 26; 15.26) para nos recordar tudo o que Jesus disse (Jo 14, 26). Este Espírito (como afirma o Concílio) está sempre em diálogo com a esposa de Cristo, que é a Igreja, para a introduzir em toda a verdade (Jo 16,13) (DV 8). O Espírito não é um Espírito de inovação, mas um Espírito que nos ajuda a descobrir a eterna novidade na nunca esgotada e jamais exaustiva riqueza do mistério divino revelado em Cristo.

Portanto, o “ius divinum” não é um código de normas, nem sequer uma coletânea da chamada “ipsissima vox” de Jesus, que os exegetas reconstruíram historicamente a partir dos quatro Evangelhos. Isso não cria um fundamentalismo bíblico, nem cria um fundamentalismo dogmático. A tradição não é como uma peça de arte antiga conservada em uma caixa de vidro para que não seja tocada. Não é uma lagoa estancada, mas, ao contrário, um manancial do qual brota água doce. É uma carta escrita não em tinta e em papel, não em tabuinhas de pedra, mas, sim, escrita pelo Espírito no coração dos fiéis, para que o Apóstolo possa dizer: a carta são vocês, e porque está escrita nos corações, a carta é lida e conhecida por todos os homens (2Co 3. 1-3).

Todos os fiéis receberam o Espírito no batismo e na confirmação. Todos constituem o Povo santo de Deus (1 Pd 2, 4-10; Ap 1.6; 5.9s) (LG 10). Todo o Povo de Deus, em razão do ‘sensus fidei’, goza da infalibilidade in credendo (LG 12: EG 119) e participa da função profética de Cristo (LG 13). Neste sentido, John Henry Newman pôde publicar sua famosa contribuição: “On consulting faithful in matters of faith” (Sobre a consulta aos fiéis em matéria doutrinal). Em seu tempo, não agradou a todos. No entanto, em algumas semanas será canonizado.

Para conhecer e compreender a autotradição de Cristo, que é sua autocomunicação no Espírito à Igreja, é necessário ‘sentire ecclesiam’, viver a Igreja e viver na Igreja, que às vezes também pode ser um sofrer com a Igreja. Não há magistério sem compartilhar a fé vivida do Povo de Deus. A introdução do Espírito em toda a verdade se dá caminhando juntos na fé (Papa Francisco). Isto é o sentido de um sínodo. O termo grego synodos significa estar juntos no caminho, ser “synodoi” [11], ou seja, companheiros no caminho e escutar juntos o que o Espírito disse às igrejas (Ap 2,7. 11.17.29 e.a.).

 

IV. Três conclusões concretas

 

1. O direito canônico conhece os direitos individuais e comunitários, mas nunca fala explicitamente do direito à Eucaristia das comunidades. A Instrução da Congregação para o Culto Divino Redemptoris sacramentum (2004) insiste em que os fiéis desfrutem do direito a ter a celebração da Santa Missa tal como se estabelece nos livros litúrgicos e normas litúrgicas. Contudo, parece estranho falar do direito a celebrar uma Missa segundo o prescrito, por não falar do direito mais fundamental de acesso à Missa para todos.

Segundo tudo o que dissemos, existe tal direito não só subjetivo, não só por uma reivindicação individual, mas por um direito comunitário que deriva da essência da Eucaristia e de seu lugar na economia da salvação. Pode haver circunstâncias extraordinárias, como situações de perseguição, guerra, desastres naturais, acidentes graves, etc., que tornam impossível a celebração eucarística, mas se em circunstâncias normais as comunidades de uma região têm espaços e distâncias que permitem o acesso à Eucaristia apenas uma ou duas vezes ao ano, carecem de algo essencial para ser Igreja. Estas comunidades têm o direito de que o bispo faça tudo o que for possível, de sua parte, para mudar esta situação.

 

2. A razão principal desta situação é a escassez de sacerdotes e candidatos ao sacerdócio na Amazônia. Há muitas razões para esta escassez, mas a maior razão para os povos indígenas, conforme afirmam aqueles que têm experiência, é a vida no celibato, considerada pela Igreja como altamente adequada para o sacerdócio (LG 42; PO 16; OT 10) [12]. O celibato é sem dúvida um valor e uma riqueza da Igreja que é necessário defender e promover, mas há uma hierarquia de valores. O celibato não é o valor supremo, que tem prioridade sobre todos os valores de iure divino, como a estrutura sacramental da Igreja. O celibato é um carisma, um dom gratuito de Deus, que quer ser aceito e vivido em plena liberdade. Portanto, não é possível fazer da teologia do celibato, por mais louvável que seja, uma ideologia. A Igreja deve impetrar a Deus, mas não pode força-lo.

O celibato pode ajudar e facilitar o ministério pastoral, mas não deve nos levar a uma Igreja de visitas, em vez de uma igreja que permanece, acompanha, está presente e divide a vida cotidiana e serve para a santificar. Portanto, é preciso escutar o que o Espírito sugere às Igrejas, refletir e meditar a consciência se nesta situação é desejável, com o consentimento do Papa, ordenar para o sacerdócio homens de fé provada, que vivem a vida matrimonial e de família (chamados viri probati). Da mesma maneira, é necessário identificar que tipo de ministério oficial é possível conferir às mulheres, levando em consideração o importante papel que já desempenham nas Comunidades Eclesiais indígenas.

 

3. Os dons eucarísticos são “fruto da terra e do trabalho do homem”, ou seja, fruto da cultura que o Criador confiou ao homem (Gn 2,15). Sendo assim, a Eucaristia se entrelaça com toda a natureza, o cosmos e a cultura indígena. Portanto, pede-se com toda a legitimidade uma inculturação da celebração sacramental e, por conseguinte, também dos celebrantes que vivem nesse ambiente natural e na cultura indígena, ou seja, que ao menos estejam dispostos a mergulhar, entender, estimar e amar esta cultura.

Aqui, não posso me aprofundar na teologia da inculturação (ver E.G. 115-118). Contudo, há a oportunidade de recordar que a inculturação não é só uma aculturação, ou seja, uma adaptação que introduz alguns elementos da cultura indígena na liturgia cristã. A inculturação vai além e é mais profunda. Implica uma penetração interior e uma transformação da cultura por dentro. Em certo sentido, podemos falar de uma transformação da cultura através de um processo Pascal.

À pergunta sobre como se deve realizar concretamente uma inculturação deste tipo, não se pode responder em abstrato. Na prática, as respostas concretas não podem ser deduzidas teoricamente dos princípios gerais, mas somente através da virtude da sabedoria e a prudência, iluminadas pelo amor [13]. Inclusive, Deus governa o mundo não como uma máquina que se encarrega mecanicamente, mas com sabedoria e providência. A prudência e a sabedoria são as virtudes fundamentais de qualquer governo, seja civil ou eclesiástico. Portanto, concluo com o desejo de que Deus abençoe com esta prudência e com esta sabedoria, juntas com o valor necessário à parresia bíblica, o sínodo iminente para o bem dos povos da Amazônia e talvez profético para a Igreja universal.

Como perguntei ontem, quero dizer algumas palavras sobre os ministérios da mulher, uma questão muito importante, que não é possível resolver com duas palavras. É claro, a promoção é hoje, como já sabia o Papa João XXIII, um dos temas mais urgentes. Não há dúvida disso.

Contudo, pergunto-me se podemos nos concentrar e inclusive entrar no ministério sacerdotal. Segundo a minha experiência, agora de trinta anos, parece contraproducente e bloqueia os passos que são imediatamente possíveis, ao passo que ao menos hoje, e pelo tempo que posso humanamente prever, um consenso sacerdotal e Episcopal na Igreja universal sobre a ordenação das mulheres me parece pouco realista e, de fato, nos levaria a um cisma, que já ocorreu na Comunidade Anglicana, e seria mais ou menos o final do diálogo frutífero com todas estas Igrejas orientais ortodoxas. Se o Papa Francisco decidisse, hoje, permitir a ordenação das mulheres, nas circunstâncias que hoje, infelizmente, são uma realidade, isto seria um suicídio papal.

Que passos são possíveis? Talvez o diaconato. Mas, mais importante seriam:

1. Estruturas sinodais em todos os níveis da Igreja que garantam a corresponsabilidade e o direito à consulta, mas também de decisões do Povo de Deus;

2. Há muitos ministérios de alto nível na igreja (também na Cúria Romana), que não precisam em absoluto da ordenação;

3. Hoje em dia, muitas mulheres já são doutoras e professoras e, de fato, já têm um magistério.

Notas

1. Cf. carta apostólica do Papa João Paulo II Dies Domini (1998) e o Catecismo da Igreja Católica, n. 2168-2195;

2. Tomás de Aquin, S. th II-II, q. 122 a. 4.;

3. Acta SS. Saturnini, Dativi et aliorum plurimorum martyrum in Africa 7, 9, 10: PI 8, 707.709-710, ct.;

4. Cic enlatar. 1247;

5. Catecismo n. 2181;

6. Agostinho, Em Jo 26,13.;

7. Agostinho, Sermões, 272.;

8. Tomás de Aquino, S. th III, q. 73 a. 6; Boaventura, Sent. IV d. 8 p. 2 a.q. 1.;

9. João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, 26; Bento XVI, Sacramentum caritatis, 14 (2007);

10. Cf. K. Rahner, Über den Begriff des “Jus divinum” mi katholischen Verständnis, in Schriften zur Thologie, Bd. 5, Einsiedeln 1962, 249.277; LthK 5 (1966) 697-699;

11. Ver Inácio de Antioquia, Ad Eph 9.1. Sobre o tema do Sínodo: o Papa Francisco com motivo do 50º aniversário do sínodo dos bispos, em: AAS 107 (2015) 1139; Constituição Apostólica sobre o Sínodo dos Bispos Episcopalis communio (2018);

12. Paulo VI, encíclica, Sacerdotalis caelibatus (1967).

13. Tomás de Aquino, S. Th. II/III q. 47 a. 1-3.

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