Bento XVI responsabiliza ''grupelhos homossexuais'' pela crise dos abusos sexuais

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26 Abril 2019

O ex-Papa Bento XVI tornou-se o mais recente líder da Igreja a culpar os padres gays pela crise dos abusos sexuais do clero, um mito que continua sendo discutido, apesar da clara evidência de que a homossexualidade não é uma causa da crise.

O comentário é de Robert Shine, publicado em Bondings 2.0, 25-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma longa e confusa carta publicada no dia 11 de abril, Bento XVI jogou a culpa pelos abusos clericais de crianças e os subsequentes encobrimentos sobre a “Revolução de 1968” que levou à “liberdade sexual total, que não mais concedia normas” e à rejeição de Deus por parte da sociedade.

Recusando-se a comentar a sua própria suposta cumplicidade na crise como uma das maiores autoridades da Igreja durante quase três décadas, Bento, pelo contrário, atacou os padres gays como uma causa dos abusos. A Reuters relatou:

“Bento XVI escreveu que, depois do Concílio Vaticano II, houve um ‘colapso cada vez maior’ dos métodos tradicionais de formação sacerdotal que coincidiram com a dissolução do conceito cristão de moral. ‘Em vários seminários, criaram-se grupelhos homossexuais, que agiam mais ou menos abertamente e mudaram significativamente o clima nos seminários’, escreve ele, acrescentando que a situação melhorou agora.”

Teólogos e observadores denunciaram fortemente a carta de Bento XVI. Brian Flanagan, da Marymount University, descreveu-a como “embaraçosa”, enquanto Julie Rubio, da Universidade de Santa Clara, disse que a carta era “profundamente falha” e “chocante” em suas alegações.

Michael Sean Winters, do National Catholic Reporter, concluiu sua crítica assim: “Não havia ninguém que amasse [Bento XVI] o suficiente para salvá-lo do embaraço que isso causará”.

Jamie Manson, editora de livros e colunista do National Catholic Reporter, criticou Bento pela sua retórica papal, mas disse que, na realidade, a carta ajudou a esclarecer “precisamente como a Igreja institucional entrou na atual confusão psicossexual”.

Manson escreveu:

“Embora alguns comentaristas, como Michael Sean Winters, do NCR, especularam que a idade de Bento XVI e a saúde em declínio possam ter contribuído com a sua sombria disposição nessa carta, as suspeitas de Bento sobre o mundo sempre foram uma característica da sua teologia. (...) Bento XVI, como vocês devem se lembrar, cunhou a expressão digna de arrepio ‘intrinsecamente desordenado’ para descrever essencialmente qualquer tipo de ato sexual que não seja o intercurso na posição ‘papai e mamãe’ entre um homem e uma mulher que estejam ligados em matrimônio. E, assim, durante seus 32 anos no poder, primeiro como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981-2005) e depois como papa (2005-2013), ele reforçou constantemente uma teologia moral que tratava quase todos os atos e desejos sexuais como vergonhosos e antinaturais aos olhos de Deus.”

Manson detalhou a história de Bento, atuando à época como cardeal Joseph Ratzinger, que supervisionou a Congregação para a Doutrina da Fé e censurou teólogos e agentes de pastoral que repensassem a sexualidade. Mas agora, explicou ela, Bento inadvertidamente está certo:

“Quando eu estive em Roma para a cúpula sobre os abusos sexuais em fevereiro, ouvindo os bispos durante quatro dias seguidos, um aspecto que me surpreendeu foi essa sensação geral de que, se a hierarquia podia cooperar com as melhores práticas, políticas e procedimentos, ela poderia de algum modo administrar o problema. Não havia absolutamente nenhuma sensação de que a crise dos abusos sexuais tinha algo a ver com o magistério limitado da Igreja e baseado em tabus sobre a moral sexual. Não havia nenhuma sensação de uma necessidade de repensar os ensinamentos sobre sexo; nenhuma necessidade de enfrentar o autoritarismo da hierarquia e a compreensão de seu próprio poder como algo fora de discussão ou reprovação. De uma estranha maneira, Bento está certo ao trazer a sexualidade para a conversa sobre o que causou a crise dos abusos sexuais. O que ele não vê é que a moral sexual rígida e baseada na vergonha que ele impôs durante décadas só exacerbou o problema. O que ele realmente nos mostra nesse texto é como o seu mundo é pequeno e protegido, e como isso limitou profundamente a sua compreensão teológica dos modos pelos quais Deus está vivo nos amores, anseios e sofrimentos de todo o povo de Deus. É uma pena que ele nunca tenha nos dado a chance de explicar isso a ele.”

Outros defensores LGBTQ sopesaram a carta de Bento XVI. Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, disse ao Gay City News que a carta de Bento “absolutamente não lida com a realidade”, acrescentando:

“Essas são acusações que podem ser feitas sem provas que as sustentem (...) São apenas cortinas de fumaça que ele lança para usar os homens gays no sacerdócio como bodes expiatórios – mas sem nenhuma evidência. Bento é altamente responsável por isso.”

Michael Meenan, um sobrevivente de abuso sexual do clero, defendeu os padres gays e vinculou as causas da igualdade LGBT e da justiça dos sobreviventes como complementares. Meenan continuou dizendo que a presença de padres gays saudáveis, na realidade, poderia beneficiar a Igreja:

“Um menino ou uma menina poder ser muito sortudo ao ter um homem ou uma mulher gays ensinando-os, porque eles têm a vantagem de ter um modelo positivo, seja a criança gay ou hetero, e independente da sua sexualidade. O fato de termos padres gays nas nossas escolas é o segredo mais mal guardado que a Igreja Católica já tentou guardar.”

Aaron Bianco, que renunciou ao cargo de associado pastoral depois que grupos de direita o assediaram e o ameaçaram, disse estar “chocado” com a carta do ex-papa. Alegações sobre um “grupelho homossexual” apenas ajudam esses grupos de direita em vez de “culpabilizar a Igreja por ordenar e manter homens que eles sabem que são pedófilos”.

A questão dos padres gays e dos abusos sexuais clericais ainda é discutida nos círculos de direita, e a tentativa de criar bodes expiatórios e de depreciação dos bons padres continua. Tendo escrito anteriormente sobre essa tática, Andrew Sullivan ataca essa criação de bodes expiatórios, chamando isso recentemente de “perverso, malvado e errado” em um evento de Boston.

Talvez fosse de se esperar que Bento perpetuaria ainda mais essas atitudes “perversas, malvadas e erradas” subjacentes aos ataques contra os padres gays. Contudo, isso é trágico, porque as palavras irresponsáveis do ex-pontífice causam danos reais. Uma carta de desculpas seria uma boa ideia, mas, dada essa epístola mais recente, provavelmente seja melhor que ele simplesmente fique em silêncio.

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