Cobertura midiática de encontro LGBTQ no Vaticano oferece lição em perspectiva global

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08 Abril 2019

O catolicismo no século XXI é cada vez mais uma fé global, com mais de dois terços de seus 1,3 bilhão de membros vivendo fora do Ocidente. Como resultado, aprender a apreciar como os católicos em outras partes do mundo reagem às coisas é essencial para pensar inteligentemente sobre os assuntos da Igreja.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 07-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A sexta-feira passada trouxe um exemplo clássico, já que os ocidentais podem não apreciar muito os ressentimentos que as diferentes coberturas midiáticas da Igreja às vezes podem gerar.

Para a maior parte da imprensa ocidental, a grande história do Vaticano na sexta-feira foi um encontro entre o cardeal italiano Pietro Parolin, o principal assessor do papa, e cerca de 50 advogados e ativistas que representam a comunidade LGBTQ, que querem que o Vaticano condene a criminalização da homossexualidade em algumas partes do mundo.

O encontro ocorreu em meio a uma tempestade global relacionada à recente decisão de Brunei de implementar leis islâmicas que permitiriam a morte por apedrejamento para os crimes de adultério e homossexualidade. Uma breve declaração vaticana depois disse: “Parolin estendeu uma breve saudação aos presentes, repetindo a posição da Igreja Católica em defesa da dignidade de cada pessoa humana e contra toda forma de violência”.

Indubitavelmente, as questões subjacentes aqui são importantes, e certamente é relevante perguntar como uma das vozes da consciência mais importantes do mundo reagirá à provocação de Brunei – especialmente no momento em que o Papa Francisco está enfatizando o diálogo com o mundo islâmico.

Mesmo assim, relativamente pouco estava em jogo no encontro de sexta-feira, já que:

a) o Vaticano tem apoiado a descriminalização dos atos sexuais entre adultos conscientes desde 2008;

b) em nenhum outro lugar do mundo agora a Igreja Católica lidera a demanda por punições civis mais duras para a homossexualidade, e

c) há poucas razões para acreditar que o sultão de Brunei seja influenciado por qualquer coisa que o Vaticano faça ou deixe de fazer.

O que mais estava acontecendo no Vaticano na sexta-feira?

Bem, para começar, o jornal vaticano L’Osservatore Romano publicou um grande artigo em rememoração ao 25º aniversário do genocídio de Ruanda, aquela orgia de violência em 1994 que deixou cerca de 500.000 a um milhão de pessoas mortas em apenas 100 dias, a maioria Tutsis e Hutus moderados. Uma estimativa é que impressionantes 70% da população Tutsi de Ruanda foram abatidos somente naquele período.

Quase 60% da população de Ruanda é católica, portanto, tanto para o bem quanto para o mal, a Igreja estava intimamente envolvida no drama de 1994. Algumas igrejas se tornaram cenas de assassinatos em massa, e alguns clérigos Hutus ajudaram a levar as pessoas ao furor.

Em março de 2017, o Papa Francisco pediu desculpas por essa história ao presidente ruandês, Paul Kagame. Uma declaração vaticana, depois que os dois homens se reuniram, dizia: “Ele implorou novamente o perdão de Deus pelos pecados e falhas da Igreja e de seus membros, entre os quais padres, religiosos e religiosas que sucumbiram ao ódio e à violência, traindo sua própria missão evangélica”.

Ninguém hoje diria que os esforços de recuperação em Ruanda estão concluídos, de modo que as feridas dessa carnificina de um quarto de século atrás continuam abertas.

Também na sexta-feira, surgiram notícias de que membros da oposição se unirão a um retiro no Vaticano na próxima semana para as lideranças políticas do Sudão do Sul, aumentando a esperança de que um novo acordo de paz concreto possa surgir.

Espera-se a participação dos arquirrivais Salva Kiir, o presidente, e o líder rebelde e ex-vice-presidente Riek Machar assim como de Gabriel Changson, o chefe de uma das duas facções de oposição menores. Obviamente é incomum que o Vaticano promova um retiro quaresmal para a classe política de um país inteiro (imagine Donald Trump e Nancy Pelosi, por exemplo, participando juntos de alguns dias de oração), mas a Igreja é o maior grupo religioso no Sudão do Sul, e o próprio Kiir é católico.

Desde dezembro de 2013, acredita-se que cerca de 400 mil pessoas morreram na guerra civil, e quatro milhões foram deslocadas, o que é bastante surpreendente, já que toda a população nacional é de apenas 12,5 milhões. As perspectivas de uma paz tão esperada, portanto, são de grande interesse.

Também na sexta-feira, líderes católicos na Itália ouviram falar do cardeal Joseph Coutts, de Karachi, no Paquistão, que está na Itália para uma série de eventos em Veneza, Florença e Milão promovidos pela Ajuda à Igreja que Sofre, uma fundação papal que apoia os cristãos perseguidos em todo o mundo.

Em uma entrevista ao jornal oficial da Conferência Episcopal Italiana na sexta-feira, Coutts advertiu que há muitas “Asia Bibis” no Paquistão hoje, tanto cristãs quanto muçulmanas.

Bibi é a mãe católica analfabeta de quatro filhos do Punjab, que passou uma década no corredor da morte no Paquistão pelo suposto crime de blasfêmia antes de ser finalmente libertada no fim de janeiro. Na época, a decisão foi aclamada como um grande golpe para a liberdade religiosa, mas Coutts ressaltou que resolver o caso de uma pessoa que se tornou uma causa célebre internacional não significa que as forças subjacentes que levaram à sua provação tenham desaparecido.

No momento, segundo Coutts, há 25 outros cristãos em celas paquistanesas que enfrentam acusações de blasfêmia. No entanto, ele também sugeriu que o extremismo não deixa ninguém a salvo, observando que, entre 1987 e 2017, mais da metade dos 1.500 paquistaneses atingidos por acusações de blasfêmia eram muçulmanos, na verdade.

O Paquistão é uma nação fundamental tanto na Ásia quanto no mundo islâmico, de modo que o caminho que ele segue em relação à tolerância das minorias religiosas terá repercussões bem além das suas fronteiras.

Se você for um católico na África hoje, o lar da população católica que mais cresce no mundo de longe, ou na Ásia, você pode estar se perguntando por que o encontro LGBTQ atraiu uma atenção tão extraordinariamente maior do que o aniversário de Ruanda, os esforços do Vaticano para intermediar a paz no Sudão do Sul e a liberdade religiosa no Paquistão.

Para dizer a verdade, você provavelmente nem se perguntaria – você simplesmente concluiria que os ocidentais estão mais interessados em seus próprios assuntos do que naquilo que importa para o restante do mundo. Entender esse instinto e como ele pode gerar suspeitas e ressentimentos fará cada vez mais parte do preço de admissão à vida em uma Igreja global.

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