Papa corre o risco de marcar um raro ''gol contra duplo'' em caso de bispo argentino

Revista ihu on-line

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Mais Lidos

  • Irmã Dulce, símbolo de um Brasil que está se esquecendo dos pobres. Artigo de Juan Arias

    LER MAIS
  • Aos 15 anos da morte do filósofo francês Jacques Derrida, o último subversivo

    LER MAIS
  • “A ética do cuidado é um contrapeso ao neoliberalismo”. Entrevista com Helen Kohlen

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

07 Janeiro 2019

De muitas maneiras, 2018 foi um ano difícil para o Papa Francisco, com a explosão de novos escândalos de abuso clerical em várias partes do mundo e à luz das notícias de que um bispo argentino que trabalha no Vaticano por convite pessoal de Francisco foi acusado de abuso sexual, mas 2019 não parece estar começando de um modo mais fácil.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 06-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De fato, o caso do bispo Gustavo Zanchetta ameaça se tornar um raro “gol contra duplo” para o pontífice, criando feridas autoinfligidas em duas frentes de reforma criticamente importantes: a crise dos abusos e a promessa do Vaticano de uma maior transparência financeira e prestação de contas.

A saga de Zanchetta começou em julho de 2013, quando Francisco o nomeou bispo de Orán, na região norte da Argentina. Três anos depois, Zanchetta deixou a diocese, citando problemas de saúde que não lhe permitiam prestar cuidados pastorais adequados a um território geograficamente disperso.

Francisco aceitou a renúncia de Zanchetta apenas três dias depois de ela ter sido oferecida em agosto de 2017, sugerindo a muitos observadores que havia pressa em tirá-lo de Orán. Houve boatos sobre alguns problemas sérios entre Zanchetta e seu clero, mas isso estava muito longe de explicar o que deu errado.

Durante 18 meses depois de deixar a diocese, Zanchetta foi basicamente um homem sem país, voando abaixo do radar, sem nenhum papel ou atribuição claros. Então, em dezembro de 2017, o Vaticano anunciou que Francisco havia nomeado seu colega argentino para um novo papel de “assessor” na Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), o departamento que supervisiona a maior parte dos ativos financeiros do Vaticano.

Como a APSA nunca havia tido um assessor antes, na época não estava claro exatamente o que Zanchetta faria – e, francamente, isso continua sendo um pouco incerto hoje. Os italianos presumiram que a nomeação era aquilo que se conhecia coloquialmente como um “parcheggio”, ou “estacionamento”, até que surgiu uma ideia melhor do que fazer com Zanchetta.

Recentemente, a mídia local na Argentina informou que três padres haviam apresentado acusações de abuso de poder, abuso econômico e abuso sexual no seminário de Orán contra Zanchetta junto ao núncio, ou embaixador do Vaticano, no país.

O novo porta-voz do Vaticano, Alessandro Gisotti, divulgou um comunicado na sexta-feira, 4 de janeiro, dizendo que as acusações só surgiram nos últimos meses, deixando claro que Francisco não sabia sobre elas quando nomeou Zanchetta para seu cargo no Vaticano.

Gisotti também disse que Zanchetta, de 54 anos, não desempenhará nenhuma função vaticana enquanto a investigação estiver em andamento.

É por isso que a “bagunça” de Zanchetta poderia criar a percepção de dois “gols contra” do pontífice.

Primeiro, o ano de 2019 dá forma a um tempo decisivo para Francisco em relação aos escândalos de abuso clerical. Ele está saindo de um ano que apresentou uma enorme crise no Chile, o relatório do Grande Júri da Pensilvânia, os escândalos em torno do ex-cardeal Theodore McCarrick e as acusações bombásticas de um ex-enviado papal nos Estados Unidos de que o próprio Francisco estava envolvido no encobrimento.

O papa também se prepara para uma importante reunião entre os dias 21 a 24 de fevereiro sobre a crise dos abusos, com os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, que os aliados do papa defenderam como uma oportunidade para Francisco retomar a iniciativa.

Se esse encontro se desenrolar sob a nuvem de percepções de que Francisco forneceu cobertura vaticana para um colega argentino que fugia de denúncias de abuso, conscientemente ou não, isso poderia minar seus esforços para virar a página.

Em vez de exaltar as virtudes de quaisquer iniciativas que os bispos discutam, a novíssima equipe de comunicação do papa poderia passar todo o seu tempo tentando apagar incêndios relacionados com o caso Zanchetta.

O caso Zanchetta também levanta questões sobre a seriedade das reformas financeiras do papa, em um momento em que a maioria dos observadores já havia concluído que Francisco, para todos os efeitos, havia desistido.

Embora a atenção pública, quando se trata das finanças vaticanas, geralmente se concentre no Instituto para as Obras de Religião, o chamado “banco vaticano”, os entendidos no assunto sabem que ele sempre foi um grande obstáculo. A operação de limpeza no banco começou com o Papa Emérito Bento XVI, e, em todo o caso, relativamente pouco dos cerca de 6 bilhões de dólares em ativos controlados pelo banco pertence ao Vaticano.

A maioria pertence a ordens religiosas, especialmente de freiras, que precisam transferir dinheiro facilmente pelo mundo, junto com dioceses e outras organizações católicas.

Em vez disso, a APSA é o verdadeiro colosso financeiro do Vaticano, controlando tanto o seu portfólio de ações e títulos, quanto suas extensas propriedades imobiliárias – somando tudo isso, o total de ativos administrados pela APSA é estimado em 16 a 18 bilhões de dólares, e provavelmente esse valor seja superior, dada a subvalorização crônica das propriedades ao longo dos anos (como o Vaticano não pretende vender a maioria de suas propriedades, elas não são avaliadas pelo valor real de mercado).

Os entendidos no assunto, portanto, sabem há muito tempo que a ação real em termos de reforma financeira tem que ser na APSA, e até agora tem havido pouca indicação de uma mudança fundamental. Com certeza, o fato de o papa nomear um “assessor” para a APSA, principalmente para tirá-lo da “água quente” em sua pátria, realmente não é uma instigante declaração de compromisso com a mudança.

Tanto em relação aos abusos clericais quanto à reforma financeira, portanto, Francisco já está abrindo 2019, sem dúvida, com uma derrota de 2 a zero, marcando duas vezes para o outro time (e no mesmo jogo, ainda por cima). A boa notícia para o pontífice é que ainda é cedo, e o ano que se inicia oferecerá muitas chances de virar o jogo.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Papa corre o risco de marcar um raro ''gol contra duplo'' em caso de bispo argentino - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV