Reforma financeira do Vaticano: a indecência está de volta

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02 Março 2015

Ao longo dos séculos, a política de corte no Vaticano, às vezes, teve um sério lado desagradável. Se alguém queria saber se esse aspecto da sua cultura foi morto na era Francisco ou simplesmente tinha adormecido, o fim de fevereiro de 2015 proporcionou uma resposta bastante clara. Em uma palavra, a indecência está de volta.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 28-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O foco desta vez é o cardeal George Pell, da Austrália, o reparador escolhido pelo papa para as finanças vaticanas. Francisco indicou Pell há um ano para terminar um ciclo de escândalos e de corrupção na gestão do dinheiro, e, neste ano, desde que ele assumiu a recém-criada Secretaria para a Economia, ele se tornou um para-raios de primeira ordem.

Na quinta-feira, a revista italiana L'Espresso publicou recibos vazados do novo departamento de Pell, buscando mostrar que ele já acumulou mais de meio milhão de dólares em despesas durante os seus primeiros seis meses de existência, incluindo uma nota de mais de 3.000 dólares na Gammarelli, uma famosa alfaiataria clerical de Roma.

Seguiu-se um rumor de que Francisco tinha criticado Pell sobre essas despesas, algo que a Secretaria para a Economia chamou de "completamente falso" e "completa ficção" em um comunicado no sábado. De fato, afirmou a declaração, as despesas do novo departamento estão realmente abaixo do orçamento definido quando foi estabelecido em março passado.

Em uma conclusão desafiante, a declaração também afirmou que Pell nem sequer possui uma Cappa Magna, uma fina vestimenta eclesiástica de seda com uma longa capa, que se tornou um símbolo dos gostos da velha escola litúrgica e que algumas pessoas acreditavam que era o item que Pell comprou daquela alfaiataria.

L'Espresso também revelou as atas de uma reunião de setembro passado, em que alguns veteranos cardeais vaticanos se opuseram a vários aspectos da liderança de Pell, com um deles se referindo amargamente ao que está acontecendo como uma forma de "sovietização", no sentido de um controle totalitário.

Na sexta-feira, o Vaticano publicou a sua própria declaração, denunciando tais vazamentos como "ilegais", chamando as críticas contra Pell de "indignas e mesquinhas", e defendendo o seu desempenho, dizendo que ele está procedendo com "continuidade e eficácia".

O espetáculo lembra assustadoramente o escândalo do "Vatileaks" de 2012, quando uma onda de documentos supostamente confidenciais do Vaticano apareceram na imprensa italiana. Muitos acreditam que o caos revelado por aquelas divulgações influenciou a decisão do Papa Bento XVI de renunciar.

No pano de fundo do Vatileaks 2.0 de hoje, há um clima surpreendentemente polarizado de opiniões no Vaticano sobre Pell.

De um lado, estão os seus fãs, com destaque para os católicos pesos-pesados de língua inglesa e alemã, comprometidos com as noções de transparência, responsabilização e boas práticas de negócios que o prelado australiano pretende representar.

Os críticos, incluindo algumas autoridades vaticanas de longa data, respondem que Pell se cercou de pessoas próximas e de um poder centralizado nas suas próprias mãos, embora tenha marcado pontos em termos de relações públicas ao tentar fazer todos os demais parecerem malvados.

Pode ser difícil obter uma leitura objetiva sobre a situação, em parte porque a reação a Pell é complicada devido a três fatores:

  • Teológica e politicamente, Pell é um forte conservador. Algumas pessoas sentem uma compulsão ideológica a defendê-lo, e outros, a se opor a ele, e nenhuma dessas duas coisas tem qualquer coisa a ver com o seu desempenho no seu cargo atual. Para um administrador financeiro, a linha divisória que importa supostamente não deve correr entre esquerda e direita, mas entre o "vermelho" e o "azul" dos balanços.
  • Há uma tensão de longa data entre a maioria italiana do Vaticano e todo o resto. É difícil dizer, às vezes, se as reações a Pell são realmente contra ele ou se ele se tornou um símbolo para divisões culturais mais profundas.
  • Pell é uma personalidade difícil de se cobrar e às vezes combativa. Em um mundo ideal, o fato de as pessoas gostarem dele pessoalmente não daria uma ideia da sua avaliação de quão bem ele está fazendo o seu trabalho – mas, infelizmente, no Vaticano, assim como no resto da criação, o mundo real está muitas vezes longe de ser o ideal.

Por que a resistência anti-Pell está crescendo agora?

Por um lado, Pell claramente não se sentiu intimidado pela resistência de menor intensidade. Na segunda-feira, a Secretaria para a Economia divulgou um conjunto de procedimentos para fechar os livros de 2014, o que, dentre outras coisas, requer que cada chefe de departamento no Vaticano, pela primeira vez, assine uma declaração juridicamente vinculante de que os seus relatórios estão completos e corretos.

Os procedimentos também estipulam que ativos externos de um departamento vaticano devem ser certificadas pelos bancos ou por outras instituições financeiras que detêm esses ativos, uma clássica expressão de "confie, mas verifique".

O Papa Francisco também voltou, na sexta-feira, de um retiro quaresmal anual de uma semana, e em breve espera-se que ele emita um novo marco jurídico para o departamento de Pell e para outros órgãos de supervisão financeira que ele criou.

O efeito será ou conter Pell, como os seus críticos esperam, ou soltar-lhe as rédeas.

Embora a briga possa continuar por mais algum tempo, um momento decisivo está se aproximando. Em meados do ano, a Secretaria para a Economia vai lançar o seu balanço financeiro consolidado pela primeira vez, referente ao ano fiscal de 2014 do Vaticano.

Se essa declaração sair de um modo abrangente e preciso, a maioria das objeções apresentadas contra Pell provavelmente vão desaparecer, parecendo uvas verdes. Se a percepção, no entanto, for a de que ele produziu o mesmo tipo de relatório vago e pouco confiável como no passado, então nenhuma quantidade de comunicados suavizadores vai salvá-lo.

Enquanto isso, a rixa certamente deixou um ponto claro: a capacidade do Vaticano para a maldade pode aumentar ou diminuir, mas nunca vai embora.

Papa eleva o "Elliot Ness" católico em torno da questão dos abusos sexuais

Esta pode ser uma maneira incomum de anunciar a nomeação de um novo arcebispo católico, mas aqui vai: o cardeal Sean P. O'Malley, de Boston, tem uma nova companhia como o rosto da reforma de alto nível da hierarquia sobre os escândalos de abuso sexual de crianças na Igreja.

Na sexta-feira, o Papa Francisco nomeou Charles Scicluna como o novo arcebispo de Malta, tornando-o chefe da Igreja naquela pequena, mas abrangentemente católica ilha-nação do Mediterrâneo. Scicluna estava atuando como administrador da Igreja maltesa desde outubro, cobrindo o lugar do arcebispo Paul Cremona, que está doente.

Embora fisicamente pequeno em estatura, Scicluna tem um currículo descomunal como consumado advogado canônico, uma autoridade vaticana sob o ex-cardeal Joseph Ratzinger e mais tarde Papa Bento XVI, e como jurista e professor.

Ele é mais conhecido como o "Elliot Ness da Igreja Católica" [1] por causa da sua acusação contra o falecido mexicano padre Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, que foi condenado a uma vida de oração e penitência pelo Papa Bento XVI em 2006, depois de uma investigação vaticana liderada por Scicluna.

Acusações de abuso sexual e de má conduta vieram à tona contra Maciel nos últimos anos de João Paulo II, mas o clérigo mexicano foi considerado como invulnerável por causa dos seus "bolsos fundos" e da sua ampla rede de aliados vaticanos. Quando Scicluna assumiu o caso no seu papel de promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, isso foi visto como uma indicação de que as rodas começavam a girar.

Depois de derrubar Maciel, Scicluna emergiu indiscutivelmente como o defensor mais forte na Igreja de uma abordagem de "tolerância zero" em relação aos abusos.

Reconhecidamente, Scicluna se opôs àquilo que ele chamou de omertà, ou sigilo de estilo mafioso, em alguns setores da cultura clerical. Ele pediu publicamente a responsabilização dos bispos que lidaram de forma inadequada com as denúncias de abuso e também insistiu que os sobreviventes dos abusos tinham que ser envolvidos tanto no enquadramento quanto na avaliação da resposta da Igreja.

Do ponto de vista de alguns sobreviventes e grupos de defesa, o histórico de Scicluna não é perfeito. Ele lançou dúvidas, por exemplo, sobre pedidos de ressarcimento financeiro por parte da Igreja, insistindo que a responsabilidade está ligada ao infrator individual e não à instituição.

Dito isto, no entanto, poucos duvidam de que Scicluna está entre os reformadores mais agressivos dos escândalos de abuso nos níveis mais altos da Igreja.

Na verdade, a responsabilidade de Scicluna será de pastor da Igreja local em Malta, onde ele vai enfrentar uma gama muito maior de desafios do que apenas o abuso sexual.

Por exemplo, Scicluna foi destaque recentemente ao se inserir pessoalmente em um debate nacional sobre a caça de aves da primavera, como rolas e codornizes. Os amantes da natureza em Malta denunciam que a caça desses pássaros durante a época de acasalamento é insustentável, e Scicluna, com efeito, disse que concorda, embora também dissera que a Igreja vai ficar de fora de uma campanha por um referendo sobre a questão.

No entanto, a nomeação de Scicluna, inevitavelmente, será tomada como um voto de confiança do Papa Francisco a uma das vozes mais ardentes de reforma da Igreja sobre os escândalos de abuso. É provável que o agora arcebispo Scicluna será demandado ainda mais para atuar em comissões e conselhos sobre o assunto, para dar palestras e conferências, e para aparecer na mídia.

O fato de que ele pode fazer tudo isso com fluência em inglês e italiano, é claro, não é uma pequena vantagem.

O Papa Francisco não é ingênuo e, presumivelmente, estava ciente de que ele simplesmente entregou a Scicluna um megafone maior. Temos que assumir, como com O'Malley, que Francisco quer que Scicluna use esse megafone.

Tiros pré-sinodais de sinalização

Dois acontecimentos dessa semana sugerem que escaramuças em vista da segunda rodada do Sínodo dos bispos sobre a família, marcada para os dias 4 a 25 de outubro, em Roma, já estão acontecendo.

Em primeiro lugar, acusações e contra-acusações circularam em torno da entrega de um livro para os bispos na primeira rodada do Sínodo de outubro passado – um livro sobre o debate se os divorciados católicos civilmente recasados devem poder receber a comunhão.

Intitulado Remaining in the Truth of Christ [Permanecendo na verdade de Cristo] e publicado pela editora Ignatius Press nos Estados Unidos, o livro apresenta artigos de cinco cardeais conservadores, que argumentam contra uma proposta de abrandar a proibição da Comunhão, levantada pelo cardeal alemão Walter Kasper.

A Ignatius Press enviou cópias do livro para todos os participantes, na crença de que fizessem parte das suas deliberações. Recentemente, o padre jesuíta Joseph Fessio, da Ignatius Press, denunciou que alguém dentro do Sínodo retirou o livro das caixas de correio dos participantes, presumivelmente em um esforço para evitar que ele tivesse um impacto maior.

Lombardi, o porta-voz vaticano, negou essa acusação esta semana, dizendo que um participante afirmava, na verdade, que tinha recebido duas cópias.

Tudo isso faz parte de uma percepção mais ampla nos círculos católicos conservadores de que houve um esforço explícito por parte das autoridades sinodais de "distribuir as cartas" em favor de pontos de vista liberais em outubro passado.

Eles acusam, por exemplo, que as nomeações para a comissão de redação do documento final do Sínodo foram enviesadas em favor dos progressistas, e que uma decisão de dar à mídia somente uma visão geral da discussão a cada dia, em vez dos discursos individuais dos participantes, se destinava a minimizar as vozes dissidentes.

Além do próprio Papa Francisco, o vilão dessa reconstrução é geralmente o cardeal italiano Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos bispos.

Nesse contexto, a fermentação em torno dos livros representa um tiro de sinalização em vista do próximo Sínodo. A mensagem é: "Não tentem qualquer desonestidade desta vez, porque estamos de olho".

Em segundo lugar, os bispos alemães recentemente realizaram uma reunião plenária na cidade de Hildesheim, e, às margens do encontro, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, presidente da Conferência Episcopal Alemã, falou à imprensa na terça-feira.

Marx aproveitou uma pergunta sobre o próximo Sínodo e pareceu sugerir que os bispos alemães podem pressionar sobre a questão dos divorciados em segunda união, independentemente do que ele decidir.

"Nós não somos uma filial de Roma", Marx teria dito.

"Cada Conferência Episcopal é responsável pelo cuidado pastoral na sua área e deve proclamar o Evangelho à sua própria maneira", disse ele. "Nós não podemos esperar por um Sínodo para dizer como devemos formar o nosso cuidado pastoral nos campos do casamento e da família."

Marx foi um dos principais defensores da posição progressista durante o último Sínodo, cunhando uma frase que resumiu o pensamento da maioria dos defensores de Kasper: "Nem em todos os casos, nem em caso algum", no sentido de que os divorciados em segunda união não devem ser convidado a voltar para a Comunhão indiscriminadamente, mas que a opção deve existir caso a caso.

A entrevista de Marx foi tomada por alguns como uma espécie de ataque preventivo, uma advertência aos opositores da mudança de que uma posição muito rígida poderia encorajar algumas Igrejas locais a decidirem por conta própria.

Em todo caso, tomando em conjunto a briga sobre os livros e os comentários de Marx, uma coisa clara fica claro: quem quer que pense que o intervalo de um ano entre o Sínodo do ano passado e o deste ano pode ser suficiente para resolver as tensões que surgiram há um ano, com toda a probabilidade, irá se decepcionar.

Um papa que manteve a sua palavra

Falando do Papa Bento XVI, é surpreendente que o aniversário de dois anos da sua renúncia em fevereiro de 2013 chegou e foi embora no sábado sem gerar mais do que uma pequena onda de comentários.

Em parte, é claro, isso se deve ao fato de que o seu sucessor se tornou uma figura tão eletrizante e sensacional que tende a chamar mais a atenção. Francisco estava de volta à tona esta semana, atraindo repreensões públicas incomuns por coisas controversas que ele disse por parte de um arcebispo católico e do governo da segunda maior nação católica do mundo.

O arcebispo era o presidente da Igreja greco-católica na Ucrânia, inconformado pelo fato de Francisco ter desperdiçado várias oportunidades para citar o papel da Rússia no fomento da violência por lá.

O país era o México, irritado porque o pontífice, em um e-mail privado, referiu-se a uma possível "mexicanização" da violência das drogas na Argentina.

No entanto, a verdadeira razão pela qual o aniversário da renúncia de Bento XVI não é mais um tema polêmico, provavelmente, é que, na maioria das vezes, ele honrou a sua promessa de permanecer "escondido do mundo".

A partir do momento em que Bento XVI anunciou a sua intenção de deixar o cargo há dois anos para a eleição do seu sucessor um mês depois, houve uma especulação febril em torno do fato de que ter dois papas vivos seria desestabilizador para o catolicismo, talvez até uma receita para o cisma.

Bento XVI tentou acalmar esses medos ao fazer votos de ficar fora do caminho assim que a transição ocorresse, mas isso não impediu que muitos observadores especulassem que ele poderia tentar influenciar as coisas nos bastidores.

Esses temores, no entanto, nunca se materializaram.

Bento XVI raramente aparece em público, normalmente apenas sob convite explícito do Papa Francisco, e, quando o faz, evita fazer um espetáculo da sua presença. Ele raramente divulga quaisquer escritos desde a sua renúncia, e as únicas ocasiões em que ele respondeu aos jornalistas foram para desmentir as especulações de que a sua renúncia foi, de alguma forma, inválida.

Em outras palavras, o relativo silêncio em torno do aniversário, em certo sentido, é um tributo à honra de Bento XVI. Ele disse que faria todo o possível para evitar ser uma distração, e o fato de que ninguém parece distraído sugere que ele manteve a sua palavra.

Um novo livro sobre o Papa Francisco

Por fim, uma nota de autopromoção escancarada: o meu novo livro sobre o Papa Francisco, intitulado The Francis Miracle: Inside the Transformation of the Pope and the Church [O milagre de Francisco: por dentro da transformação do papa e da Igreja], publicado pela Time, será lançado nesta terça-feira.

Embora reconhecidamente já exista um excesso de literatura sobre Francisco, este é realmente o primeiro grande trabalho em inglês que é menos sobre o papa do que sobre o papado, o que significa que não se trata de uma biografia convencional, mas de uma avaliação do pontificado até hoje.

Nota:

1. Eliot Ness (1903-1957) foi um agente do Tesouro estadunidense, líder de uma equipe de agentes federais apelidada de "Os Intocáveis", notabilizada pela participação na prisão do gângster Al Capone, que morreria em 1947, e em diversos casos de investigação de crimes durante a Lei Seca.

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