Barth e o ‘totalmente outro’

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08 Dezembro 2018

"Totalmente outro": a expressão, referindo-se a Deus, também se tornou famosa fora da corporação dos teólogos. Deve-se admitir que, em parte, essa popularidade também está ligada a uma certa banalização: afinal, que Deus seja "diferente" (dos seres humanos, dos animais, do mundo), todos dizem isso. Na segunda versão de seu comentário sobre a Epístola aos Romanos (1922), no entanto, Karl Barth queria dizer algo mais específico e agressivo: Deus e a fé cristã não podem ser considerados o sinete ideológico da ordem ideológica e política burguesa.

Nem mesmo daquela socialista, é claro: do ponto de vista de Barth, no entanto, esta última é um perigo secundário, dada a história e a crônica das igrejas.

O comentário é de Fulvio Ferrario, teólogo italiano evangélico e decano da Faculdade de Teologia Valdense de Roma, publicado por Riforma, 05-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini

O teólogo, que morreu em 10 de dezembro há cinquenta anos, muitas vezes lembra que seu livro nasceu da necessidade de pregar todos os domingos: a teologia universitária não oferecia, em sua opinião, os instrumentos apropriados para a prática pastoral. A Bíblia era dissecada com os métodos da crítica histórica, mas no final o pregador não sabia o que dizer e geralmente se safava colocando uma "atualização" inventada na hora.

Aquela de Barth é, em vez disso, uma leitura bíblica que se reporta mais diretamente à dos reformadores, mas também dos pais da antiga igreja. Os filólogos por profissão não deixam de ressaltar certa desenvoltura do intérprete, mais ou menos explicitamente acusado de amadorismo: a república de teólogos, aliás, ainda hoje está cheia de figuras que, com ou sem razão (em cada caso e, por razões óbvias, fora do prazo), acreditam que devem explicar a Karl Barth os elementos da crítica bíblica; e também aqueles engajados no ministério pastoral não podem deixar de se perguntar se o livro de Barth realmente ajuda uma pregação incisiva e eficaz. Quanto a mim, eu não o recomendaria para aqueles que preparam uma pregação sobre o texto de Paulo, ou pelo menos não como uma primeira leitura.

Permanece o fato de que esse livro, e mais ainda os desenvolvimentos do pensamento barthiano, mudam a história, não apenas da teologia.

Aquele Deus "totalmente outro", tão teológico e nada moderno, se revela, vejam só, politicamente mais incisivo do que todos os discursos sobre a correta autonomia das realidades terrenas. Deus é "laico" precisamente porque é Deus. Aliás: só Deus é laico. A Declaração Teológica de Barmen (1934) não era contra o nazismo, era para uma igreja digna desse nome: precisamente por este motivo, constitui o documento teológico politicamente mais explosivo do século XX.

Barth, no entanto, não se interrompe ali. Na fase madura de sua vida, ele "re-trata" suas afirmações juvenis.

A referência implícita e ambiciosa, Retractationes, é o título de uma obra de Agostinho.

Não se trata de abjurar as teses do passado, mas de aprofundá-las numa perspectiva surpreendente.

Barth havia negado que, a partir do ser humano, se pudesse chegar a Deus. Agora afirma que, a partir de Deus, e precisamente de sua revelação em Cristo, o ser humano do século XX, aquele de Verdun, Auschwitz e de Hiroshima, pode aceitar a si mesmo e viver a vida como uma dádiva.

Pelo fato de Deus ser humano, afirma Barth, nós também podemos tentar sê-lo. Deus é tão outro, tão diferente de nós, que pode ele ser, em Cristo, humano. Os homens e mulheres, religiosos e laicos, cristãos ou não, não sabem o que significa humanidade: só Deus, em Jesus, pode lhes dar a resposta.

Somente Deus, somente Cristo, somente: na Escritura são as palavras da Reforma, Barth é o teólogo protestante mais amado pelos católicos porque oferece uma ideia credível do que pode significar ser protestante. No nosso tempo, além das lições de crítica bíblica, ele deve ouvir (é mais provável, no entanto, que no céu ouça Mozart, assim pelo menos ele pensava quando estava neste mundo), mesmo aquelas do pluralismo religioso. Em parte, é pedantismo daqueles que, nem se dão ao trabalho de ler Barth; em parte, trata-se de observações sacrossantas: se a igreja deve sempre a ser reformada, o que dizer dos teólogos, incluindo os mais famosos.

Justamente, Deus é outro, até mesmo em relação a Karl Barth: e provavelmente também o teólogo concordaria.

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