Os departamentos de teologia católica têm futuro? Uma resposta a Massimo Faggioli

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05 Abril 2018

“Precisamos nos perguntar: quem agora quer ir para a pós-graduação e obter um doutorado em teologia? A ‘teologia acadêmica católica’ não é uma realidade autoevidente. Parece-me algo que só teve um lugar viável em faculdades e universidades por cerca de 30 anos, aproximadamente a primeira geração pós-conciliar.”

A opinião é do teólogo estadunidense Michael Hollerich, professor da University of St. Thomas, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em Commonweal, 27-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em uma coluna online publicada no início deste mês, Massimo Faggioli discutiu os dilemas diante daquilo que ele chama de “teologia acadêmica católica”. Ele expressou o desejo de ver um “compromisso eclesial” mais forte por parte dos praticantes de tal teologia, tanto para o bem-estar do campo quanto da própria Igreja.

O artigo acerta o alvo por várias razões. Primeiro, Massimo é um bom amigo meu e ex-colega na University of St. Thomas em Saint Paul. Às vezes parecia que eu estava lendo sobre a minha vizinhança imediata, o que não é nenhuma surpresa, dada a sua história na mesma instituição. Os leitores podem se interessar em saber que a missão central do nosso departamento na universidade é compor o corpo docente de um requisito de três cursos de Teologia para o nosso corpo discente de graduação de cerca de 5.500 alunos.

O restante dos 16 cursos de quatro créditos de Artes Liberais no núcleo consiste em duas aulas de Filosofia, duas de Inglês, três de Idiomas, três de Matemática e Ciências, e uma de História, Ciências Sociais e Belas Artes. Muitos estudantes completam partes desse núcleo antes de entrar na St. Thomas, embora a Teologia e a Filosofia sejam imunes a esses atalhos. O requisito de três disciplinas de Teologia sustenta um grande departamento de cerca de 25 professores em tempo integral e talvez muitos outros adjuntos.

Nossa posição na universidade vai mudar, no entanto, devido às reduções propostas no currículo básico, que reduziria significativamente a nossa participação. Por trás das reduções propostas, estão fatores familiares, como a pressão de órgãos externos de credenciamento para expandir as principais ofertas, as ansiedades estudantis (e parentais) em torno do emprego e a expansão da St. Thomas de uma pequena faculdade para uma universidade com vários programas profissionais.

Enquanto o meu departamento olha para um Armagedom curricular, encontramo-nos em uma ilha, por assim dizer, junto com o nosso aliado mais próximo, um departamento de Filosofia similarmente ameaçado, cujo perfil conservador não nos torna parceiros fáceis.

Outras partes da universidade respeitam nossa posição acadêmica relativamente elevada, mas geralmente nos olham com incompreensão ou desinteresse. O que não é surpreendente em uma universidade que não pode ou não quer contratar com base na identidade católica (um vice-pró-reitor acadêmico anterior costumava dizer com orgulho que não sabia o número de católicos no nosso corpo docente).

Antes de chegar à importante observação de Massimo sobre o compromisso eclesial e a teologia acadêmica, quero acrescentar um pouco mais de contexto. A teologia acadêmica católica está passando por um severo teste de estresse, e não apenas na minha universidade. O estresse vem de duas direções.

Do lado institucional/orçamentário/curricular, o nosso domínio do currículo de graduação é, em sua maioria, circunstancial e histórico, a continuação de uma abordagem programática que surgiu depois do Concílio, quando escolas como a nossa ainda podiam agir como se fôssemos uma parte segura do arquipélago educacional da Igreja Católica. O solo cultural e social das ilhas nesse arquipélago tem estado em erosão há muito tempo. Hoje em dia, ele está desaparecendo mais rápido do que o delta da Louisiana.

Quando isso acontece, escolas como a minha se deparam com a necessidade de crescer ou de ir embora – o que significa que temos que nos voltar cada vez mais para metas educacionais vo-tech pragmáticas, já que não temos o prestígio cultural da Notre Dame ou da Georgetown para vivermos da elite endinheirada capaz de nos sustentar. Isso leva a políticas de contratação que secularizam ainda mais a instituição.

O outro lado do teste de estresse vem do caráter daqueles que estão apenas começando suas carreiras acadêmicas ou ainda estão pensando na pós-graduação. Eles não têm a nossa experiência de crescer como católicos, nem compartilham o nosso conjunto de preocupações sobre a liberdade e a integridade acadêmicas. Eles são muito mais propensos a ficarem ansiosos com questões de identidade – o que significa ser “católico” em vez de outra coisa. Em uma situação de liberdade de mercado, as pessoas escolhem o específico, não o genérico. Do ponto de vista da geração mais jovem, podemos parecer e soar como um protestantismo histórico genérico, moribundo e irrelevante, desaparecendo rumo ao nada.

Precisamos nos perguntar: quem agora quer ir para a pós-graduação e obter um doutorado em teologia? Não as pessoas com as mesmas ambições da minha geração, estudantes universitários nos anos 1960 que iam para as principais faculdades católicas e depois queriam fazer doutorado em instituições seculares ou escolas de Teologia não denominacionais em universidades como Yale, Chicago ou Duke.

A próxima geração de estudiosos, que frequentou a universidade nos anos 1980 e 1990, favoreceu os programas de doutorado católico, mas vinha das mesmas escolas “alimentadoras” da graduação. Parece-me que os candidatos ao doutorado hoje têm a mesma probabilidade de vir de lugares como o Hillsdale College ou o Steubenville, assim como da Notre Dame ou do Boston College.

E ficamos pensando onde esses entusiasmados doutorandos encontrarão empregos se as faculdades e universidades católicas continuarem reduzindo os requisitos básicos. E, se não são requeridos cursos de graduação para ensinar, por que precisamos desses programas de doutorado também? Eu posso dizer que não é porque a hierarquia está esperando ansiosamente pelos últimos frutos da nossa pesquisa.

Minha perspectiva sobre as pessoas mais jovens no setor teológico da academia pode estar moldada pela minha própria sub-disciplina de História Cristã Primitiva, que é um refúgio favorito para aqueles que procuram um recuo normativo ao fugir da queda livre doutrinal (é ou Patrística ou Tomismo, e os Padres estão mais perto da Bíblia).

É atraente recuperar fundamentalistas e evangélicos que podem estar substituindo uma Bíblia autorizada e desacreditada por uma Igreja e uma tradição autorizadas. Durante muito tempo, argumentei no meu próprio departamento que precisamos melhorar ao ver estudantes assim como potenciais recrutas, e não como objetos de condescendência. Há razões pelas quais nossos alunos de graduação optam por uma especialização no departamento de Estudos Católicos da St. Thomas – um programa interdisciplinar que envolve a “formação” de seus estudantes em um ambiente favorável, embora anódino – em vez no de Teologia, que pode lhes parecer como uma coleção de pensadores livres que estão apenas improvisando.

Então, este é o contexto: a nossa universidade está reduzindo a nossa participação em sua missão. E os nossos futuros colegas de profissão podem pensar que somos problemáticos. E nós provavelmente somos.

Por que isso? Porque a “teologia acadêmica católica” não é uma realidade autoevidente. Parece-me algo que só teve um lugar viável em faculdades e universidades por cerca de 30 anos, aproximadamente a primeira geração pós-conciliar. Durante aquele tempo, ela ainda era dominada pelo establishment clerical católico liberal. Lembro-me de participar do encontro da CTSA (Associação Teológica Católica dos Estados Unidos, na sigla em inglês) em Nova York em 1997, que caiu no 50º aniversário da CTSA. Em uma sessão plenária estavam: Richard McBrien, Richard McCormick e Charles Curran. Perfeito. O equivalente clerical liberal irlandês da Tammany Hall! Todos padres, é preciso lembrar.

Aqueles homens ainda falavam com autoridade para a hierarquia, mesmo quando deixavam os bispos irritados. Eles eram percebidos como jogadores, mesmo que fossem jogadores desleais, porque eram padres e estavam sujeitos, em última análise, ao comando e controle clerical. O mesmo não se aplica a nós, leigos, que são em sua maioria irrelevantes para o mundo fechado do clero celibatário. E, quanto mais a hierarquia de João Paulo II e de Bento XVI se comprometia para prejudicar a implementação do Concílio, mais parecíamos irritantes e irrelevantes – em parte porque é muito mais difícil de nos comandar e controlar.

Lembro-me da pouca consideração com que éramos vistos pelo ex-arcebispo John Nienstedt no último relatório estabelecido nas cômodas constatações do Instituto Napa do Pe. Robert Spitzer. Seu sucessor, o arcebispo Bernard Hebda, tem sido uma mudança refrescante e muito necessária na presença pastoral. Esforços construtivos estão em curso em ambos os lados para manter uma relação de apoio mútuo entre a universidade e a Cúria de St. Paul. Mas isso poderia mudar amanhã em uma Igreja onde o padrão é e sempre foi o comando e o controle. Enquanto isso, o pessoal e os programas da arquidiocese parecem ainda estar se movendo em um ritmo definido pelo antecessor de Hebda.

Quem estudou e escreveu teologia antes do Vaticano II e onde eles fizeram isso? Pelo que eu saiba, foi em grande parte o trabalho de membros de ordens religiosas em seus seminários e casas de estudo. A Universidade Católica dos Estados Unidos foi criada para ser algo diferente, estabelecida como universidade (o programa de graduação veio depois). Mas ela foi criada pelos bispos estadunidenses, e sua carta acadêmica é pontifícia. A teologia universitária alemã sempre foi uma espécie de aberração, assim como seus clones em Louvain e Nijmegen. Na Alemanha, eu suspeito que a teologia acadêmica católica vai durar apenas enquanto durar o Kirchensteuer [imposto religioso].

Em quase 40 anos de ensino, eu trabalhei exclusivamente em faculdades e universidades vinculadas à Igreja. Meu diploma de graduação em Teologia pela Notre Dame (turma de 1969 – apenas a segunda turma de alunos de graduação com possibilidade de se especializarem em Teologia) foi seguido pelas pós-graduações em Harvard e Chicago em História do Cristianismo. Minha experiência especial é de pouco interesse para a maioria dos bispos hoje. Talvez nunca tenha sido de interesse. O fundador da St. Thomas, o arcebispo John Ireland, era um fervoroso defensor do ensino superior e um dos principais apoiadores da jovem Universidade Católica dos Estados Unidos, mas eu duvido que ele teria gostado de ter teólogos leigos. As mitras que ainda dominam na hierarquia estadunidense parecem preferir aspirantes clericais como o diácono casado local com seu clergyman e camisas clericais cinzentas.

Então, se a Igreja não quer aquilo que eu sei, e os estudantes não se matricularão nas minhas aulas como disciplinas eletivas livres, de modo que eu possa satisfazer os abutres do orçamento, então qual o meu lugar de pertença? Eu não tenho tanta certeza. Sou um historiador do cristianismo formado com múltiplas competências de ensino e pesquisa, alguém que, acima de tudo, ama o estudo por si mesmo. Mas eu também tenho um papel não oficial como guardião da consciência histórica de uma Igreja propensa à amnésia sobre assuntos sensíveis. Espero que a liberdade acadêmica acompanhe o meu trabalho como professor e estudioso.

A Igreja precisa de pessoas como eu, se ela souber qual é o seu melhor interesse. Mas eu preciso da Igreja? Sim, eu preciso, no duplo sentido de que eu vivo nela como membro praticante (veja o artigo recente de Paul Griffiths sobre o catolicismo como uma forma de vida, disponível aqui, em inglês), mas eu também preciso dela como um sujeito acadêmico: sem Igreja, nada de história da Igreja.

Mas eu expresso melhor a minha lealdade sendo fiel ao meu ofício acadêmico, e não por devoção à hierarquia da Igreja, que não entende o conceito de uma oposição leal. Eu acredito que não se pode estudar facilmente aquilo que não se gosta ou até se odeia. Especialmente no trabalho histórico, um certo tipo de caridade intelectual é necessário a fim de atravessar, mesmo que apenas em pensamento, a divisão no tempo e no espaço. Mas isso não pode se dar na forma de um sacrificium intellectus – aqui eu me lembro da consternação de George Orwell com a 13ª regra de Inácio de Loyola de pensar com a Igreja (“Para em tudo acertar, devemos estar sempre dispostos a que o branco, que eu vejo, acreditar que é negro, se a Igreja hierárquica assim o determina...”).

Então, qual é o futuro da teologia acadêmica católica? Boa pergunta. Eu concordo com Massimo que algum tipo de compromisso consciente com a Igreja é necessário para que sobrevivamos como membros de um departamento de Teologia (e não apenas de Estudos Religiosos), e isso por uma questão de princípio, e não apenas de ajuste pragmático. Mas “compromisso eclesial” soa como uma palavra escorregadia, e eu preferiria evitá-la. Porque a verdade é que a conta não fecha do outro lado da equação, o lado clerical-institucional, em relação a esse “compromisso eclesial”. Quanto tempo e energia eu quero investir em falar com pessoas que não estão interessadas em ouvir e que acham que não precisam ouvir porque têm o Espírito Santo? Eu sei que há uma resposta teológica para isso. Mas eu duvido que ela importe. Uma vez eu defendi o mandatum na impressão. Eu não faria isso hoje.

Se a teologia acadêmica católica tem futuro, pode ser com aqueles que se retiraram para locais mais seguros, um reduto de algum tipo, tendo decidido que a universidade contemporânea é uma causa perdida para a fé. Lá, eles podem continuar seu trabalho em comum com aqueles que compartilham suas pressuposições – e geralmente também com suas conclusões.

Podem-se encontrar doadores conservadores que vão colocar seu dinheiro em tais esforços, especialmente se apoiarem a ideologia do livre mercado. Para mim, esse é um caminho errado que levará ao encolhimento dos horizontes mentais. Um alerta é a idealização do passado, seja ele “o século XIII, o maior dos séculos” ou os anos 1950 nos Estados Unidos.

Mas mudar para uma comunidade intelectual fechada parece ser uma maneira ruim de honrar o universalismo do Evangelho e uma contradição da reivindicação da Igreja de ser o sacramento da unidade do gênero humano. Por trás do anseio por uma era de ouro perdida, está a relutância em admitir que o incômodo “secular” não está em algum espaço cultural lá fora, mas sim no próprio ar que respiramos. Mas eu admito que aqueles que discordam de mim provavelmente terão mais chances de preservar uma plataforma educacional para ensinar e escrever.

O nosso trabalho nunca dependeu do mercado, mas sempre de algum tipo de patronato. Resta saber de onde o futuro patronato virá – e o que esses patronos esperarão em troca.

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