Sociedade Teológica Católica dos EUA questiona ação dos bispos contra teóloga

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14 Abril 2011

Os diretores da Sociedade Teológica Católica da América - CTSA uniram-se em uma mensagem que questiona os bispos da Igreja Católica dos Estados Unidos devido à sua crítica a um livro escrito por uma ex-presidente da CTSA.

A reportagem é do sítio Catholic Culture, 11-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em março, a Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA - USCCB publicou uma advertência sobre o livro Quest for the Living God, da Ir. Elizabeth Johnson. Os bispos consideravam que livro, que é usado em muitas salas de aula de faculdades católicas, "contém imprecisões, ambiguidades e erros que incidem sobre a fé da Igreja Católica como encontrada na Sagrada Escritura e como é autenticamente ensinada pelo magistério universal da Igreja".

Em uma resposta crítica, os diretores da CTSA acusam que os bispos não seguiram seus próprios procedimentos para revisar o livro, entenderam equivocadamente os argumentos de Johnson e lançaram uma sombra sobre o trabalho dos teólogos católicos.

Eis a declaração.

Resposta do Corpo de Diretores da Sociedade Teológica Católica da América à Declaração sobre "Quest for the Living God: Mapping Frontiers in the Theology of God", da Ir. Elizabeth A. Johnson, emitida pela Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, no dia 24 de março de 2011

Nós, autoridades e diretores da Sociedade Teológica Católica da América abaixo-assinados, gostaríamos de comentar a declaração da Comissão de Doutrina da USCCB, que foi publicada no dia 31 de março de 2011. Nossa intenção aqui é manifestar nossas sérias preocupações referentes a três questões: 1) o fato de que, nessa matéria, os bispos não seguiram os procedimentos previstos em seu próprio documento, Doctrinal Responsibilities; 2) uma leitura equivocada do trabalho da professora Johnson na declaração; 3) as implicações problemáticas que a declaração apresenta para o exercício da nossa vocação como teólogos.

Não é nossa intenção aqui para comentar em detalhes a declaração da Comissão de Doutrina ou o livro da professora Johnson, uma vez que considerações responsáveis merecem maior tempo e reflexão. No entanto, sentimos a urgência de responder, já que seu livro tem recebido uma recepção tão ampla e favorável de tantos leigos católicos formados, inclusive dos estudantes aos quais muitos de nós lecionam. Ao compartilhar essa preocupação pastoral, estamos conscientes das vocações complementares, mas distintas, do teólogo e do Magistério, e estamos abertos para uma conversação mais aprofundada com a Comissão de Doutrina referente à compreensão da nossa tarefa teológica.

1. Procedimentos

Em 1983, o documento Doctrinal Responsibilities foi aprovado por unanimidade tanto pela Sociedade Teológica Católica da América quanto pela Canon Law Society of America. Ele foi refinado posteriormente pela Comissão de Doutrina dos bispos e formalmente aprovada pela Conferência Nacional dos Bispos Católicos em 1989. Sob o título "Responsabilidades eclesiais" (que considera as responsabilidades e os direitos dos bispos e dos teólogos), afirma-se: "É inevitável que surjam mal-entendidos sobre o ensino do evangelho e as maneiras de expressá-lo. Nesses casos, a conversa informal deveria ser o primeiro passo para a resolução" (cf. Doctrinal Responsibilities: Approaches to Promoting Cooperation and Resolving Misunderstandings between Bishops and TheologiansWashington: United States Catholic Conference, 17 de junho de 1989, n. 4).

A resposta da professora Johnson à Comissão de Doutrina indica que nenhuma discussão com ela ocorreu antes que a declaração fosse publicada: "Eu teria ficado feliz em conversar para esclarecer os pontos críticos, mas nunca fui convidada a fazê-lo. Esse livro foi discutido e finalmente apreciado pela Comissão antes que eu soubesse que qualquer discussão havia ocorrido" [disponível aqui, na íntegra, em inglês].

Estamos muito perturbados pelo fato de a Comissão de Doutrina não ter seguido os procedimentos aprovados pelo "Doctrinal Responsibilities" que defendem que uma conversa informal deve ser realizada como um primeiro passo. Apesar desse lapso processual, aplaudimos a vontade da professora Johnson de iniciar um diálogo com os bispos.

2. Interpretação equivocada

Acreditamos que a declaração é deficiente na forma como apresenta o trabalho da professora Johnson. A professora Johnson é acusada repetidamente por sustentar a posição de que Deus é "inconhecível", com base no fato de ela defender que as nossas palavras humanas não podem capturar completamente a realidade divina. Esse julgamento toma forma na declaração ao atribuir à professora Johnson a visão de que nenhuma de nossas palavras sobre Deus pode ser verdadeira (n. 8). A declaração conclui que, como a revelação divina de Deus é fundada em palavras verdadeiras, a professora Johnson apresenta uma compreensão de Deus que é incompatível com a tradição católica, "pois ela efetivamente exclui a possibilidade do conhecimento humano de Deus por meio da revelação divina e reduz todos os nomes e conceitos de Deus a construções humanas"(n. 20).

Esse é um surpreendente salto em termos de lógica, não justificada pela alegação modesta e bastante tradicionalmente católica da professora Johnson de que as nossas palavras humanas não podem capturar completamente a realidade divina. É difícil para nós imaginar que a professora Johnson, que escreveu de forma tão elegante e comovente sobre o mistério divino ao longo de sua carreira, não tenha uma intenção sincera ao dizer algo modestamente verdadeiro sobre Deus, baseada na revelação de Deus na Escritura e na Tradição.

3. A tarefa teológica

Finalmente, estamos preocupados pelo fato de que essa crítica ao trabalho da professora Johnson parece refletir um entendimento muito estreito da tarefa teológica. Os teólogos ao longo da história promulgaram as riquezas da tradição católica ao se aventurarem em novas formas de imaginar e expressar o mistério de Deus e a economia da salvação revelada na Escritura e na Tradição. Esse é um estilo católico de reflexão teológica que inúmeros teólogos católicos continuam praticando hoje. O ensino do Concílio Vaticano II, na sua Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes) é especialmente eloquente sobre essa responsabilidade:

Ela [a Igreja] aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização. (...) É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente. (n. 44)

Tais esforços, que os teólogos oferecem em serviço e por amor à Igreja, deveriam ser encorajados por todos na Igreja. Sugerir que um teólogo que se engaja na difícil tarefa de interpretar a revelação para os tempos e culturas atuais está negando a conhecibilidade da própria revelação – a Palavra de Deus –, que a reflexão teológica assume como sua fonte de autoridade, atinge-nos como uma incompreensão fundamental da vocação eclesial do teólogo.

Em conclusão, queremos afirmar que a professora Johnson é um membro muito estimado da nossa Sociedade. Ela é uma pessoa do mais alto caráter, uma respeitada teóloga e professora que exerce a sua vocação teológica como um serviço à Igreja.

Assinam:

Mary Ann Hinsdale, I.H.M., Ph.D.
Boston College
Chestnut Hill, MA
Presidente

John E. Thiel, Ph.D.
Fairfield University
Fairfield, CT
Presidente-Eleito

Susan A. Ross, Ph.D.
Loyola University
Chicago, IL
Vice-Presidente

M. Theresa Moser, R.S.C.J., Ph.D
University of San Francisco
San Francisco, CA
Secretária

Jozef D. Zalot, Ph.D
College of Mount St. Joseph
Cincinnati, OH
Tesoureiro

Bryan N. Massingale, S.T.D.
Marquette University
Milwaukee, WI
Ex-Presidente

Kristin E. Heyer, Ph.D.
Santa Clara University
Santa Clara, CA

Michael E. Lee, Ph.D.
Fordham University
Bronx, NY

Judith A. Merkle, S.N.D. de N.
Niagara University
Niagara, NY

Vincent J. Miller, Ph.D.
University of Dayton
Dayton, OH

 

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