''Caros jovens, estudem teologia.'' Artigo de Christoph Theobald

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27 Junho 2014

A extrema complexidade da teologia como "ciência" corre o risco de ser um obstáculo intransponível para os estudantes que custam a se orientar na pluralidade das disciplinas exegéticas e históricas, teóricas e práticas. E o objeto próprio da própria teologia, a fé em Deus, corre o riso de se afastar à medida que se penetra no emaranhado dos textos, das correntes interpretativas e das teorias.

O desafio do ensino da teologia hoje é enfrentado com coragem pelo teólogo Christoph Theobald (jesuíta, professor de teologia fundamental e dogmática no Centro Sèvres de Paris e diretor da revista Recherches de Science Religieuse) no livro La lezione di teologia. Sfide dell’insegnamento nella postmodernità [A lição de teologia. Desafios do ensino na pós-modernidade], publicado pelas edições Dehoniane de Bolonha (48 páginas), e do qual antecipamos aqui um trecho.

Theobald tem diversas obras publicadas na Itália, incluindo Il cristianesimo come stile. Un modo di fare teologia nella postmodernità (Edb 2010), La recezione del Vaticano II (Edb, 2011) e La teologia di Bach. Musica e fede nella tradizione luterana (Edb, 2014).

No Cadernos Teologia Pública, uma publicação do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, podem ser lidas os seguintes textos de C. Theobald:

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 21-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Acontece-nos, entre professores, de nos lamentarmos pela falta de cultura dos nossos estudantes, pela falta de método de trabalho que deveria ter sido aprendido na escola superior, pelo seu escasso saber catequético.

No entanto, convivendo mais com as mulheres e os homens que vêm seguir os nossos cursos de formação, descobre-se que a sua abordagem à sociedade, à Igreja e à fé não possui efetivamente um sólido fundamento histórico, mas está aberta à pluralidade das culturas e das religiões; descobre-se que não têm muita familiaridade com os métodos clássicos das "ciências humanas", mas sabem usar muito bem a web, restituindo os conhecimentos sob a forma de uma gigantesca enciclopédia de fronteiras indistintas; descobre-se sobretudo que eles precisam de pontos de referência precisos para sustentar a sua identidade cristã, submetida a uma dura prova em uma sociedade em que o cristianismo já aparece como uma força dentre muitas outras.

Estando imersos nele, o pluralismo radical em matéria cultural e religiosa influi sobre a relação íntima que entretemos com a nossa própria identidade e, mais especificamente, com a nossa fé. Devemos reconhecer que esta última é, na maior parte das pessoas, enfraquecida na sua pretensão universalista e última; o que se manifesta muitas vezes com reflexos identitários, até mesmo intransigentes, em matéria de conservação dos sinais e símbolos mais visíveis da sua identidade.

O leque das modalidades de gestão da própria identidade cristã e da combinação desses diversos fatores, junto com muitos outros, é evidentemente muito amplo, mas se constitui a partir de uma nova relação com a verdade, compreendida mais em termos de autenticidade e de normatividade do que abordada a partir do ponto de vista da sua universalidade e transcendência.

A terminologia da modernidade ainda é adequada para indicar o desaparecimento do núcleo cultural que foi formado pelo cristianismo e o sustentou ao longo do segundo milênio?

Se formos mais sensíveis à permanência das grandes características e dos grandes valores da Europa moderna e menos preocupados com o invólucro mítico em que foram transmitidos, manteremos o termo, assinalando eventualmente a indubitável radicalização através do vocabulário da "ultramodernidade".

Se, ao invés, nos impressionamos com o fenômeno da globalização, da pluralidade das tradições já em interação e, sobretudo, da contestação e do desaparecimento daquele núcleo cultural que é o humanismo clássico da velha Europa em vantagem do "realismo" da vida cotidiana, então preferiremos falar de "pós-modernidade", tendo que proteger o termo, nesse caso, do mal-entendido de um cancelamento daqueles vetores fundamentais dos tempos modernos que são a autonomia, a liberdade e a criatividade.

A extrema complexidade da teologia como "ciência" corre o risco de ser um obstáculo intransponível para o estudante que custa a se orientar na pluralidade das disciplinas exegéticas e históricas, teóricas e práticas, cada uma com a sua própria forma e as suas exigências metodológicas específicas. Em algumas delas, a erudição desempenha um papel importante, requerendo aprendizagens suplementares: línguas antigas e modernas, ciências humanas, como a linguística ou a sociologia, história da filosofia.

O objeto próprio da teologia que é a fé em Deus parece se afastar cada vez mais do estudante, à medida que ele penetra no emaranhado dos textos, das correntes interpretativas, das teorias. Ele pensava em encontrar rapidamente alimento para a sua fé e se depara com a mesma falta de transparência e com a mesma diferenciação interna dos campos que encontra na sociedade contemporânea.

Daí o grande desafio de levá-lo logo a compreender a unidade interna da teologia, um desafio que é mais amplamente o de toda a nossa civilização pós-moderna, marcada pelos efeitos perversos de uma extrema diferenciação das esferas culturais ou campos da existência, ameaçada pela violência que daí deriva e dos embates com o desafio da unidade dos sujeitos, dos grupos e das sociedades.

Na medida em que esse enraizamento cristão hoje, considerado no passado pelo estudante como uma espécie de revestimento cultural, não é mais óbvio, é preciso ativar os vínculos entre teologia e experiência espiritual: os maiores autores do século XX souberam fazer isso, ultrapassando a secular cisão entre teologia científica e teologia espiritual. A reabilitação pós-moderna da noção de "experiência", o interesse pela narrativa e pelo conceito de "testemunha" vão nessa direção.

O próprio professor é acolhido acima de tudo como testemunha do Evangelho de Deus, antes de ser avaliado pelos estudantes sobre as suas outras competências. Isso é porque ele é chamado a mostrar os seus "détours" (Paul Ricoeur) através da filosofia e das ciências humanas, e a necessidade de um mínimo de erudição para alcançar o único objetivo que é o exercício e a inteligência da experiência da fé.

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