''A culpa é nossa quando a direita vence. A esquerda decepcionou as esperanças.'' Entrevista com Rossana Rossanda

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01 Novembro 2018

“Em julho, eu decidi voltar para a Itália, tomada pela necessidade de entender. De Paris, onde eu vivia há 12 anos, acompanhava Salvini na TV e sentia vergonha por aquilo que eu via. ‘Também é minha culpa, culpa da nossa parte’, eu repetia. Eu havia passado a minha vida fazendo política e reputava a minha distância como um abandono do campo. Meu marido faleceu há três anos, eu não tinha mais ninguém na França. Aqui em Roma, os companheiros de uma vida inteira já não estão mais, Lucio Magri, Luigi Pintor, Valentino Parlato estão todos mortos, e eu também já estou muito velha.”

A reportagem é de Concetto Vecchio, publicada em La Repubblica, 31-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Rossana Rossanda, 94 anos, jornalista, escritora, partigiana, “a garota do século passado”, como ela intitulou a sua famosa autobiografia, folheia na sala de estar da sua casa os primeiros números da coleção do Il Manifesto, o jornal fundado por ela em 1969. “Quero reler as minhas crônicas das lutas operárias da época. Os trabalhadores lutaram pelos seus direitos e venceram.”

Eis a entrevista.

Que Itália a senhora encontrou?

Um país irreconhecível, sem uma espinha dorsal. Me dá medo ver o que ela está se tornando.

Tem mais medo de Salvini [vice-primeiro-ministro da Itália e ministro de Interior] ou Di Maio [vice-primeiro-ministro da Itália e ministro do Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Políticas Sociais]?

Salvini, porque sabe o que quer, Di Maio está sempre ali rindo.

O que lhe assusta em Salvini?

A prepotência. Eu estudei a fundo o decreto sobre a segurança. Não entendo como Mattarella pôde assiná-lo.

A senhora acha que ele é racista?

É. O migrante é visto apenas como um criminoso em potencial.

Que poder é esse no governo?

É a tendência racista do populismo. Di Maio e Salvini são ambos populistas, mas de uma maneira diferente, porque, no governo, prevalecem sobretudo as ideias do leghista [Salvini é membro do partido Liga Norte]. Não consigo levar a sério os Cinco Estrelas.

Eles receberam 32% [dos votos]. Como a senhora pode dizer que eles não devem ser levados a sério?

Talvez seja um modo equivocado de falar. Quero dizer: não consigo entendê-los. Eles me dizem que muitos da esquerda votaram neles, mas os Cinco Estrelas não têm nada de esquerda.

Muitos ex-extraparlamentares votaram no Movimento Cinco Estrelas. Como a senhora explica isso? Com uma proposta de radicalidade que a esquerda reformista não oferecia mais?

Parece-me evidente. Eles buscaram uma mudança vingativa depois que suas esperanças foram desapontadas.

O que isso nos diz sobre a esquerda italiana?

Milhões de pessoas votavam na esquerda porque, no seu DNA, havia a defesa dos mais fracos. Ninguém mais pensa nisso.

Essa mutação ocorreu quando?

Eu diria que iniciou com a mudança do nome de Occhetto. Mudar de nome significa mudar a própria identidade. Desde então, três ou quatro mudaram de nome e, a cada vez, se afastaram um pouco da sua base. Veltroni chegou a dizer que nunca havia sido comunista. 

(Nota de IHU On-Line: Acchille Occhetto foi o último Secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI) (1988 - 1991) e, também, o arquiteto do fim do PCI, em 1991, quando os membros do partido, reunidos no congresso de Bolonha, decidiram abandonar o termo 'comunista', passando o partido a se chamar Partido Democrático de Esquerda (Partito Democratico della Sinistra, PDS)

A senhora ainda é comunista?

Eu, sim.

Em quem votaria hoje?

Não sei. Pegue os candidatos secretários do Partido Democrático: Zingaretti, Minniti, Martina, Boccia, Richetti. Eu não os distingo. Dizem-me que Delrio é bom. Eu não duvido. Mas qual é a sua visão de mundo? Quando eu era jovem, em Milão, conhecia bem a esquerda da Democracia Cristã, a de Marcora e Granelli: as suas vozes se distinguiam claramente das de outras correntes. Pegue o democrata-cristão Fiorentino Sullo, as suas batalhas contra a especulação imobiliária são lembradas até hoje.

Está surpresa que os operários votem na Liga?

Essa é outra história, mais velha. Isso já acontecia há 15 anos. Carteirinha da CGIL [Confederação Geral Italiana do Trabalho] e voto na Liga.

Por que isso aconteceu?

A Liga fornecia explicações simples. “Se você perder o emprego, quem o levou embora embora foi o imigrante, e, antes dele, o sulista, o terun. Não é culpa sua. Não é culpa do sistema”. Ao mesmo tempo, ofereceu-se um inimigo e uma consolação.

Está preocupada com o spread?

Em si, não me parece uma indicação de ruína. Parece-me mais grave fazer uma manobra que não trará nenhum crescimento, não trará trabalho.

É favorável à renda de cidadania?

Em princípio, sim. É justo apoiar os pobres, mas, depois, o que restará? É preciso criar trabalho. E aqui estou de acordo com aquele provérbio chinês que diz: dê um peixe a um homem e você o alimentará por um dia, ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida.

Como a senhora se posicionará nas eleições europeias?

Vou dar um voto pró-Europa, contra os perigos fascistas que vejo por aí. Eu me lembro bem do fascismo, por isso me dá medo.

Mas que estradas restam à esquerda, estrangulada entre populismo e austeridade?

Àqueles que dizem que não há alternativas, eu digo: olhem para Sanchez e para o Podemos na Espanha ou para o pequeno Portugal: façam como eles.

Está impressionada com a simplificação do debate político?

Estou impressionada com a vulgaridade. No outro dia, vi na TV um programa em que todos repetiram: “Não estou nem aí”. Se eu falasse assim, meu pai me dava pelo menos um tapa.

Arrepende-se de não ter tido filhos?

Sim. Agora, eu me sentiria menos sozinha e, acima de tudo, teria a percepção de ter transmitido algo de mim.

Por que não os teve?

Eu tinha muito a fazer.

Como foram os seus dois casamentos?

Grandes amores. Ambos eram muito simpáticos. Sempre havia entre nós a vontade de estar juntos. Não há nada mais bonito, não acha?

Como olha para o futuro?

Sei que não tenho muito mais futuro e, no fundo, isso não me desagrada. Tive uma vida muito feliz, conheci pessoas interessantes.

As figuras mais importantes?

Meu sogro, meu mestre Antonio Banfi, Sartre.

Como era Sartre?

Um caso raro de francês disponível, aberto. Vinha a Roma todos os anos, amava a Itália, era curioso. De Beauvoir era mais rígida.

Qual foi o último livro que a senhora leu?

Le assaggiatrici [As degustadoras], de Rosella Postorino, interessante. Gostaria de ler Scurati, sobre Mussolini.

Não está nas redes sociais?

Eu as detesto. Quero passar para o outro mundo sem ter dado um único euro a Zuckerberg.

Na balança da sua vida, prevalecem mais as razões ou os erros?

Tentei fazer com que as razões prevalecessem, mas tive grandes erros. Afinal, quem pode negar que não os teve?

Qual é o maior erro?

Não vou lhe dizer. Eu o digo com dificuldade até para mim mesma.

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