Xenofobia, Racismo e Nacionalismo Populista no contexto das Migrações Globais e Refugiados

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20 Setembro 2018

"A mensagem de amor, unidade e diversidade, de cura e salvação, de hospitalidade e solidariedade com todos os que necessitam é mais urgente do que nunca". 

A saudação é do Rev. Dr Olav Fykse Tveit, Secretário Geral da CMI, proferido durante a Conferência Mundial sobre Xenofobia, Racismo e Nacionalismo Populista no contexto das Migrações Globais e Refugiados, que ocorre de 18 a 20 de setembro, em Roma. 

O texto é publicado por Conselho Mundial das Igrejas - CMI, 18-09-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o discurso. 

Vossa Eminência Cardeal Peter Turkson e Vossa Eminência Cardeal Kurt Koch,

Prezados participantes, caros amigos,

Estamos aqui reunidos por um motivo muito importante, uma tarefa desafiadora, um chamado de Deus que vem a nós por meio de muitos imigrantes hoje. Muitos estão excluídos do futuro da segurança e da esperança que todos os seres compartilham. Juntos, estamos tratando do medo do outro, das expressões desse medo, do uso e abuso político do medo e do cinismo do lucro diante do medo dos refugiados e imigrantes.

Sentir medo e ansiedade é humano. É uma resposta natural para nos proteger e proteger a quem amamos. Porém, o medo pode ser usado para dividir e polarizar, bem como para criar ainda mais medo. Estamos aqui porque as igrejas são chamadas a confrontar juntas as forças destrutivas do medo, da xenofobia, do racismo e do nacionalismo populista exclusivo. São os três elementos do muro que nos divide enquanto seres humanos, expressando identidades fechadas e negligenciando o direito e a dignidade do outro: “nós” contra “eles”, “nossa segurança” contra sua vulnerabilidade, “nossa riqueza” contra seu direito à vida e à subsistência. Todos esses sentimentos estão profundamente enraizados no medo.

Nossa prioridade clara é abordar a questão do medo. Ainda lembro quando descobri sobre a situação dos refugiados no mundo atual. Foi lendo notícias de crianças refugiadas da Hungria nos anos 50, que estavam fugindo na tentativa de encontrar um novo lar. As palavras medo e fuga me impactaram profundamente - e impactam até hoje, espero.

Entre os mais vulneráveis hoje estão os refugiados do mundo inteiro, que fogem dos conflitos e da violência tentando encontrar um novo lar, um lugar seguro. Muitos chegam a perder a vida nesse percurso: por exemplo, no Mar Mediterrâneo, não muito distante daqui. Essas realidades cruéis de falta de humanidade precisam ser abordadas em conjunto por todos os que puderem. Precisamos fazer isso também para nos proteger de perdermos a humanidade.

De muitas formas, significa trabalhar para além das fronteiras. Vemos muitos bons exemplos concretos desse trabalho, como o Mediterranean Hope na Itália, na França e na Bélgica - e outros lugares do mundo. Estamos aqui para aprender uns com os outros como podemos fazer a diferença. Acreditamos que enquanto seres humanos podemos fazer muito melhor do que o que vemos hoje.

“O que teme não é perfeito em amor”, diz a Bíblia (1 João 4:18). É uma afirmação forte e corajosa - e é verdadeira. É outra experiência humana básica. Deve ser a mensagem da Igreja: “Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (1 João 4:16). Então deixe a Igreja ser Igreja. Permita que defendamos o próximo no amor e na justiça, por relações fortes de apoio mútuo, por unidade na diversidade da humanidade. Permita que sejamos embaixadores do amor de Cristo a serviço da cura e da reconciliação deste mundo, cindido não apenas pelo medo, mas pela ganância egoísta e o ódio. Permita que alimentemos a esperança para que haja um futuro comum sem medo do outro.

O amor de Cristo é muito mais do que emoções. Ele promove a renovação das relações entre Deus e o mundo e entre todos nós, partidos pelas consequências do pecado que prejudica a vida. O discipulado cristão que se move pelo amor vem com a responsabilidade pelo outro e responsabilização pela família, pelas outras pessoas, por todas as criaturas de Deus. Cristo provocou seus discípulos a estender o âmbito da responsabilidade e da responsabilização para além de qualquer fronteira - bem como fronteiras inimigas.

O amor de Cristo inclui a obrigação de afirmar a vida e a subsistência das pessoas e não criar desastres de violência e guerra que forçam as pessoas a fugirem e emigrarem. O amor de Cristo requer não sucumbir ao racismo, mas resistir à exclusão com base no medo, o medo que impulsiona a xenofobia e o nacionalismo exclusivista.

O objetivo deste evento é mostrar que juntos assumimos nossa responsabilidade sobre os outros como discípulos de Cristo. É ótimo que possamos fazer isso juntos, num evento conjunto entre o Conselho Mundial de Igrejas e a Igreja Católica Apostólica Romana. Nossa relação de “caminhar, orar e trabalhar juntos” foi fortemente afirmada na visita do Papa Francisco a Genebra em junho. Em décadas de diálogo ecumênico, construímos consenso em aspectos fundamentais de ordem e de fé. Nos envolvemos no diálogo inter-religioso e trabalhamos juntos pela formação de jovens líderes ecumênicos. Mais recentemente, começamos a cooperar ainda mais pela justiça climática e pelo cuidado com a criação. Abordamos as injustiças globais em conjunto. Agora, também damos um passo decisivo para desenvolver a solidez de nossa cooperação na assistência a imigrantes e refugiados. Vemos que juntos podemos contribuir para curar e reconciliar sociedades profundamente divididas na reação a estrangeiros e pessoas de fora, e aos pobres e marginalizados em meio ao grupo.

A CMI vê todo esse movimento rumo a maior unidade na perspectiva da jornada da fé, uma peregrinação de justiça e paz que busca sinais da presença de Deus no mundo. A peregrinação é um movimento impulsionado pelo amor de Cristo pelas pessoas e pela Terra. Este amor deu energia e ânimo aos cristãos para seguirem seu caminho na fé juntos, superar divisões históricas, apoiar os direitos humanos e procurar uns aos outros no amor.

A mensagem de amor, unidade e diversidade, de cura e salvação, de hospitalidade e solidariedade com todos os que necessitam é mais urgente do que nunca.

Precisamos ajudar milhões de imigrantes e refugiados a ter segurança e integrá-los aos novos lares.

Precisamos curar as sociedade que estão profundamente divididas pela xenofobia, pelo racismo e pelo ódio.

Precisamos garantir que as mulheres e crianças sejam protegidas sempre e em todos os lugares contra abusos e sejam tratadas com dignidade.

Precisamos nos tornar comunidades autênticas como igrejas, defendendo os direitos humanos e sendo responsáveis na nossa fé, principalmente aos mais vulneráveis e marginalizados.

Precisamos abordar e superar as consequências destrutivas das estruturas econômicas pecaminosas e da ganância e cuidar da nossa casa comum.

Acredito que o início das nossas reflexões sobre migração não é o fato de “o outro ser outro”, mas o sentido de pertencimento mútuo a um único corpo de Cristo e - num círculo mais amplo - uma única família humana. Os imigrantes e refugiados, como sujeitos de seu destino, nos incentivam a ser proativos na transformação das nossas sociedades para que sejam lugares seguros para uma diversidade de pessoas, lugares onde a esperança seja alimentada ao invés do medo. Não vamos permitir que as forças divisivas da xenofobia, do racismo e do populismo nacionalista prevaleçam. Estamos prontos para lutar pelas consequências de todas as pessoas que foram afetadas.

O contexto existencial da migração revela o significado mais profundo de comunidade e pertencimento mútuo, nos incentivando a nos posicionarmos a favor dos direitos do outro e compartilhar nossa humanidade comum em toda a sua diversidade. Os perigos que enfrentamos nos tornam mais conscientes da nossa humanidade compartilhada, e nossa solidariedade no papel de cristãos nos liberta para servir ao mundo criado por Deus. Isso é importante principalmente à luz da nova geração, cuja criatividade, abertura e alegria podem proporcionar ideias e energias renovadas para fazer nosso lar na Terra mais próximo do reino de Deus e da justiça de Deus.

Quando isso vai acontecer? Como sempre acontece: o amor encontrará a melhor maneira.

O amor nos conectará, enquanto Igreja e enquanto cristãos, uns aos outros e ao próximo do outro lado da rua e do outro lado do mundo. O amor nos libertará de valores distorcidos e do profundo preconceito. O amor verá através da falsidade do racismo e do tribalismo. O amor nos abrirá para aprender com as críticas dos outros e de nós mesmos. O amor acolherá nossos sonhos de liberdade e paz. O amor gerará novas visões, pensamento criativo e novas abordagens aos nossos maiores desafios. E o amor nos dará a coragem e a energia, o coração e a alma, para resgatar o progresso e a paz do grande perigo.

Companheiros na peregrinação de Deus por justiça e paz, vocês estão - nós estamos - construindo esse movimento ecumênico de amor, pautado no Espírito de Cristo, sempre ávido e alerta para peregrinar juntos na fé e na esperança de um mundo melhor.

Portanto, eu peço: por meio da solidariedade e da luta, quebrando barreiras e rompendo fronteiras, pelo trabalho e pelo acolhimento, vamos permitir que seja uma peregrinação conjunta rumo a uma nova esperança e um novo futuro como humanidade criada e amada pelo único Deus.

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