“Nacionalismo e xenofobia são a resposta mais fácil diante das desigualdades”. Entrevista com Thomas Piketty

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04 Julho 2016

Depois de vender em três anos 2,5 milhões de exemplares de seu livro O Capital no Século XXI, Thomas Piketty (Clichy, 1971) tem recusado os constantes convites que recebe para participar da vida política ativamente. Nesta entrevista, realizada no prédio frio e insosso da Escola de Economia de Paris, onde ele atua como diretor de Estudos, este especialista em desigualdades afirma a cinco jornalistas de veículos de comunicação europeus que a xenofobia e o nacionalismo rondam a Europa e estão na origem do Brexit. A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, François Hollande, segundo ele, deveriam se apoiar no Syriza, no PSOE e no Podemos, partido em que, como ela conta no início da conversa, votou a sua esposa, Julia Cagé, nascida em Metz (França), mas que tem dupla nacionalidade (francesa e espanhola).

A entrevista é de Carlos Yárnoz, publicada por El País, 03-07-2016.

Eis a entrevista.

O Brexit representaria a chegada da catástrofe sobre a qual o senhor fez um alerta durante a crise grega?

Faz tempo que a Europa vinha brincando com fogo, especialmente na zona do euro. A crise de 2008, a mais grave desde a II Guerra Mundial, foi mal gerida. Empenhamo-nos em diminuir o déficit rapidamente demais, e acabamos com a recuperação, com o crescimento.

A Inglaterra não sofreu diretamente por causa desse erro, já que está fora da zona do euro.

A Europa fracassou e criou inúmeras tensões. Paradoxalmente, a Inglaterra se saiu melhor da crise, mas as políticas antissociais de David Cameron reacenderam os ressentimentos das classes populares, o que levou a uma reação irracional baseada na xenofobia e no nacionalismo.

Como sair desse imbróglio?

Parece que ninguém tinha se preparado para o Brexit. Temos a sensação de que, passada uma semana, todo mundo ainda navega sem instrumentos. Apesar de tudo, é preciso reconstituir a esperança de poder construir algo novo a partir desse desastre. Um desastre para as gerações mais novas, que irão sofrerão por muito tempo as consequências de uma opção feita pelos mais velhos.

Como avalia a resposta dada pela União Europeia (UE) ao Brexit?

Foi totalmente insuficiente. E restam assuntos pendentes de grande importância. Os custos gerados pelo sigilo bancário suíço e, depois, pelos paraísos fiscais da Coroa britânica e a falta de transparência da City são consideráveis. Se isso não for tratado, o populismo crescerá ainda mais. Tenho medo de ver como falta coragem aos líderes europeus.

E como deveria a mudança na zona do euro?

Defendo um sistema bicameral: um Parlamento eleito diretamente pela população e outro que represente os Estados-nação, com parlamentares do Bundestag, da Assembleia francesa etc. O sistema atual não funciona, e nunca irá funcionar. No Parlamento que eu proponho, poderiam ocorrer alianças estratégicas, coalizões ideológicas...

São os líderes políticos, e não só britânicos, os responsáveis pelo Brexit?

Sim, sim. E não apenas os britânicos. A França não fez nada em favor dos países do sul porque, com taxas de juros a zero... melhor não mudar. Claro que a atitude da Alemanha foi deplorável e completamente irracional. Esmagando a atividade econômica do sul, os credores alemães não irão conseguir fazer com que seus empréstimos sejam pagos. Há uma vontade de punição que denota fartas doses de nacionalismo.

Por que o senhor se opõe à política de austeridade?

Porque ela não funciona. A Alemanha é um país que nunca pagou a sua dívida. Por isso, é paradoxal ver a Alemanha exigindo que a Grécia devolva até o último centavo de euro. A Europa foi construída com base na anistia das dívidas, para que as novas gerações não pagassem pelos erros de seus antepassados.

O que o senhor propõe em nível internacional?

O capitalismo precisa ser regulamentado. Precisamos de instituições democráticas fortes para conter a tendência à desigualdade, para controlar o poder dos mercados, do capital, a serviço do interesse de todos. É um equívoco acreditar que se pode chegar a isso de forma natural. Há uma espécie de fé exagerada na auto-regulamentação dos mercados. Em 1914, durante a primeira globalização, ocorreu uma sacralização do livre mercado e da propriedade privada, a qual acabou gerando fortes desigualdades, tensões sociais, aumento do nacionalismo e que contribuiu, de alguma maneira, para a eclosão da I Guerra Mundial.

Mais recentemente surgiu o dumping social, fiscal, financeiro...

Isso mesmo. E se não houver nenhuma resposta capaz de deter essas desigualdades, a resposta mais fácil são a xenofobia e o nacionalismo. É assim que aparecem dirigentes políticos como Donald Trump, Boris Johnson ou Marine Le Pen. São pessoas bastante privilegiadas financeira e socialmente cuja única estratégia consiste em dizer às classes populares brancas que seus inimigos são as classes populares mexicanas, negras. Com isso, elas desviam a atenção das desigualdades econômicas para dirigi-la às desigualdades de identidade, culturais, religiosas.

Se crescem os movimentos xenófobos, também se reforça uma esquerda radical, como o Syriza ou o Podemos...

Eu faço um apelo a Hollande a Merkel, no sentido de que se apoiem no Syriza, no Podemos, no PSOE... nesses partidos de esquerda mais ou menos radicais. Claro, Alexis Tsipras não é perfeito, Pablo Iglesias não é perfeito; tampouco os seus programas o são. Há imperfeições naquilo que dizem. Não têm experiência no poder. Mas são bem menos perigosos do que os nacionalistas poloneses, britânicos, húngaros...

O senhor acompanhou de perto as eleições na Espanha?

Sim, sim. A situação, agora, é quase ingovernável. Alimentou-se o medo em relação ao Podemos, humilhou-se o Syriza, humilhou-se a Grécia, exigindo que faça privatizações totalmente irracionais para vender as empresas estatais a custo de banana para os gregos ricos, aliados dos banqueiros alemães ou franceses. E isso foi feito para amedrontar os eleitores de países como a Espanha. O importante é que uma mudança na Espanha pode dar origem a uma mudança na zona do euro. França, Itália e Espanha reúnem 50% da população da zona do euro. A Alemanha, 27%. A posição da Espanha, a favor ou contra a austeridade, é capaz de desequilibrar a balança.

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