“No Vaticano há uma guerra civil subterrânea”. Entrevista com Marco Politi

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22 Setembro 2018

O vaticanista Marco Politi assinala que, pela primeira vez, há a conjugação de uma oposição teológica conservadora e de ambientes políticos conservadores. “Os detratores do Papa usam os escândalos da pedofilia para enfraquecê-lo”.

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 21-09-2018. A tradução é de André Langer.

Após as denúncias do ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, sobre o ex-arcebispo de Washington e pedindo a renúncia do Papa Francisco, e as centenas de abusos contra menores e adultos por parte de membros da Igreja que vieram à tona nos últimos anos no Chile, Estados Unidos, Irlanda, Austrália, Holanda, Índia, entre outros, a credibilidade da Igreja católica está passando por um momento muito crítico. Aonde irá parar se as coisas não mudarem? As denúncias de abusos sexuais terminaram ou ainda há muito a se descobrir? O que pode ser feito para frear este fenômeno que presumivelmente chamusca todos os países católicos do mundo?

Na entrevista o jornalista vaticanista e escritor Marco Politi respondeu a estas perguntas destacando que “esta explosão de revelações de abusos é praticamente uma espécie de 11 de setembro para a Igreja católica”.

Atualmente, comentarista do jornal Il Fatto Quotidiano e professor da Universidade Uninettuno, Marco Politi ocupa-se da informação religiosa há mais de 40 anos. Foi correspondente de dois importantes jornais italianos, Il Messaggero e La Repubblica, e fez inúmeras viagens com João Paulo II e Bento XVI. É autor de vários livros, entre eles Sua Santidade sobre João Paulo II e Francisco entre os lobos, ambos publicados em várias línguas, inclusive em espanhol.

Eis a entrevista.

Todos esses abusos referem-se em geral a tempos passados, não?

Isso depende das medidas que os episcopados nacionais tomaram. Por exemplo, no relatório que surgiu na Pensilvânia é possível ver que a maior parte dos abusos ocorreu antes de 2002, momento em que os bispos americanos intervieram. Também é interessante o relatório que acabou de sair na Alemanha. É a primeira vez que um episcopado nacional confia a investigação a três instituições independentes, que não fazem parte da Igreja, que descobriram, entre outras coisas, que algumas dioceses destruíram ou ocultaram documentos referentes a esses casos. A situação geral neste sentido está em movimento. As medidas reformadoras promovidas pelo pontificado de Francisco para impor a “tolerância zero” contra os abusos, enfrentam, por um lado, um grande número de crimes deste tipo ainda ocultados e, por outro lado, com a sensibilidade diferente dos episcopados nacionais para revelá-los. Por exemplo, a conferência episcopal italiana, apenas agora, com o novo presidente nomeado por Francisco em 2017, o cardeal Gualtiero Bassetti, criou uma comissão para enfrentar o problema.

Houve denúncias na Itália?

Sim, na Itália houve denúncias, mas não existe um órgão central que se ocupe em ajudar as vítimas. Na Alemanha, ao contrário, em cada diocese existe um organismo especial que ouve as vítimas. Nesses centros existem equipes religiosas e leigas que tentam ajudá-las. Há um bispo designado que é responsável por controlar em nível nacional o andamento das coisas e existe a vontade declarada da Igreja alemã de investigar o passado.

Tudo o que veio à luz até agora é definitivo ou ainda há muito a descobrir?

Ainda há muito a descobrir, porque há países em que nem a justiça civil nem a Igreja se mobilizaram para descobrir esses crimes. E os abusados, crianças ou adultos, têm muitas vezes dificuldades para denunciar esses abusos. Este é o caso, por exemplo, das freiras de Kerala, na Índia, adultas, mas abusadas por um bispo local (Nota de IHU On-Line: o bispo foi suspenso das suas funções pelo Papa Francisco e no dia de ontem, 21-09-2018, foi preso). Para serem ouvidas, tiveram que fazer um sit in junto à polícia. Ou o caso da Itália, onde nunca se criou uma comissão de inquérito sobre esses casos, nem pelo governo nem pela conferência episcopal. Houve uma única diocese – entre mais de 200 –, a de Bressanone-Bolzano (no norte do país), que em 2010 criou uma comissão para investigar e ouvir as vítimas. E em um ano vieram à tona 14 casos. Se pensarmos que é uma diocese pequena e houve 14 casos, pode-se presumir que na Itália pode haver cerca de três mil casos ocultados.

Por que aconteceram os abusos?

A questão dos abusos é um fato secular. Já no ano 300 d.C., houve um primeiro sínodo de bispos na Espanha em que foram condenados os abusos contra crianças. Isso significa que temos 17 séculos de abusos, e o Papa Francisco está certo quando diz que isso foi favorecido pelo clericalismo, ou seja, pelo poder clerical que quer esconder os crimes. Já em 2010, Bento XVI, em sua carta aos irlandeses, disse que isso acontecia porque os bispos não cumpriam seu dever e que tinham uma falsa ideia do prestígio da Igreja. Não podemos esquecer, no entanto, que dois terços dos abusos no mundo ocorrem no ambiente familiar. Mas o que é grave para a Igreja católica e que prejudica seu prestígio em todo o mundo é que a Igreja é uma organização que sempre fala de castidade, de pureza, na qual os sacerdotes deveriam ser celibatários e castos.

Quando você diz que este escândalo é, para a Igreja, como o 11 de setembro em Nova York, isto é, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo pelos famosos atentados, eu entendo que isso quer dizer de alguma forma que a Igreja está desmoronando... O que está sendo feito para melhorar essa situação?

O Papa Francisco, quando foi eleito em 2013, falou de “tolerância zero” em relação aos abusos e deu provas disso. Ele foi o primeiro papa a convocar um embaixador, isto é, o ex-núncio vaticano na República Dominicana, e o submeteu a um processo eclesiástico em 2013. Dom Jozef Wesolowski, após o processo canônico, deixou de ser bispo e sacerdote. Mas o Papa insistiu para que também fosse submetido a um processo penal segundo as leis vaticanas. Wesolowski morreu de um infarto antes do julgamento ser realizado. Mas esta foi a primeira vez que um Papa tomou essa decisão.

Bento XVI afastou centenas de sacerdotes, silenciosamente, por pederastia, mas não teve a coragem, por exemplo, de processar o mexicano Marcial Maciel, o fundador e líder dos Legionários de Cristo (soube-se que ele abusara de seminaristas e tinha filhos). Impôs-lhe apenas o isolamento e uma vida de oração. Francisco endureceu as penas em geral e também aquelas relacionadas à pornografia infantil. Há alguns meses, foi processado um diplomata da nunciatura em Washington, monsenhor Carlo Alberto Capella, e condenado pelo Vaticano a cinco anos de prisão por posse de material pornográfico infantil.

O que foi que não funcionou?

Era necessário intervir nas conferências episcopais do mundo inteiro de maneira enérgica, mas isso não foi feito. Francisco criou, no início, uma comissão para a proteção de menores e esta comissão propôs a criação de um tribunal para os bispos acobertadores. A assessoria de imprensa do Vaticano disse em 2015 que esse tribunal seria criado. Em vez disso, o projeto foi sabotado pelo cardeal Gerhard Müller, da Congregação para a Doutrina da Fé. Outros cardeais e membros do Vaticano também se opuseram. Em 2017, descobrimos que esse tribunal nunca foi criado. As duas vítimas que faziam parte da comissão para a proteção de menores, renunciaram aos seus cargos dizendo que a comissão não era capaz de mudar as coisas.

O Papa, por sua vez, sustenta que é melhor não ter um tribunal fixo, mas júris locais criados para cada situação. Mas, na realidade, se não se divulgar em todo o mundo um mecanismo claro, com um responsável inclusive ao nível das dioceses, o fiel não se sentirá ajudado a denunciar um bispo negligente. E esta é uma falha importante no papado de Francisco. O projeto deu em nada, porque muitos no Vaticano temiam que a criação de semelhante tribunal, onde os abusados contassem suas histórias, poderia se transformar em uma perigosa – e aberta – “caixa de Pandora” (onde se escondiam, segundo a mitologia grega, todos os males do mundo).

E o caso Viganò, que repercussão pode ter para o Papa?

O caso Viganò é muito perigoso, muito desestabilizador para o pontificado de Francisco, porque, pela primeira vez, temos ao mesmo tempo a conjunção de uma oposição teológica conservadora – que surgiu contra o Papa por parte de quatro cardeais por causa de sua posição em relação à comunhão dos divorciados em segunda união – e a indignação da opinião pública pelos casos de pedofilia. E, pela primeira vez, há um ataque direto ao pontífice. Os fiéis estão muito desorientados. Viganò pertence aos setores conservadores da Igreja que estão contra o Papa, mas ao mesmo tempo é um diplomata profissional.

Se é verdade o que ele diz sobre as denúncias contra o arcebispo de Washington Theodore McCarrick – condenado recentemente pelo abuso de um menor, mas acusado por Viganò por suas relações com seminaristas adultos – enviadas pelos núncios nos Estados Unidos ao cardeal Angelo Sodano e depois ao cardeal Tarcisio Bertone, ambos ex-secretários de Estado do Vaticano (número dois da Santa Sé), o Vaticano deveria tomar uma posição. A Santa Sé não fez nenhuma declaração oficial sobre o assunto e isso prejudica o Papa atual mais do que qualquer coisa.

Este caso é particularmente perigoso para o papado, porque aproveita a indignação da opinião pública internacional sobre o tema dos abusos. Tudo isso satisfaz também as forças políticas e financeiras que estão contra a política social de Francisco, especialmente as suas posições em relação ao clima ou às desigualdades sociais, por exemplo.

Quem são esses setores de que você fala?

Os setores conservadores dos Estados Unidos, mas não apenas desse país. Existem muitos portais de internet que dizem que o Papa é comunista, marxista. O que se vê é que há uma conjunção entre ambientes teológicos conservadores e ambientes políticos conservadores. Antes era um ataque à Igreja; agora é um ataque à credibilidade deste Papa. No Vaticano, há uma espécie de guerra civil subterrânea, com os opositores que se servem dos escândalos de pedofilia para enfraquecer Francisco.

O que se espera da reunião extraordinária dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo com Francisco sobre os abusos, que acontecerá em fevereiro próximo no Vaticano?

Essa convocatória demonstra o nível de periculosidade da situação e que é forte a tentativa de desestabilizar o pontificado de Francisco. Mas, ao mesmo tempo, o momento exige que a reunião termine com decisões concretas, com a criação de mecanismos eficientes e transparentes em todas as Igrejas do mundo.

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