Paradoxos do caso Capella e o termômetro do caso McCarrick

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03 Julho 2018

Nos próximos dias saberemos se Mons. Carlo Alberto Capella, o ex-conselheiro da nunciatura de Washington condenado no Vaticano a cinco anos de reclusão por posse e troca de "grandes quantidades" de material pornográfico infantil, vai apelar contra a sentença. Circunstância que várias fontes do Vaticano consideram muito provável.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 02-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A divulgação de pornografia infantil é um dos crimes mais torpes e as legislações de muitos estados - incluindo a da Cidade do Vaticano - criaram regras muito rígidas para puni-lo.

Capella não negou as provas, admitiu sua culpa e explicou que ele havia começado a ter contato com divulgadores de pornografia infantil na web por causa de uma crise em decorrência de sua transferência para Washington. Em seu smartphone e computador foram encontrados vídeos e desenhos explícitos. Solidão, frustração por não se sentir valorizado e por estar sozinho, sem amigos ...

Obviamente o prelado devia ter uma predisposição para esse tipo de imagens chocantes, que incluem crianças filmadas em atos sexuais e abuso, porque, felizmente, a pornografia infantil não representa uma saída comum para as crises de adaptação ou para os excessos de solidão.

Independente da conclusão da ação judicial do Vaticano, e do subsequente processo canônico a ser instaurado contra o ex-conselheiro de nunciatura, permanece o paradoxo: um prelado que descarregou suas fantasias perversas através de imagens da web deverá cumprir uma pena de cinco anos, enquanto prelados que efetivamente abusaram de crianças e adolescentes arruinando suas vidas, em muitos casos nem sequer passam um dia na prisão. Casos recentes de ilustres fundadores ou de prelados muito conhecidos (como ensina o caso chileno) demonstram isso. É evidente que no caso de Capella foi decidido pelas autoridades do Vaticano aplicar uma pena exemplar, para mostrar que, contra o torpe fenômeno, ninguém é desculpado. Mas o paradoxo permanece.

O outro caso que causou sensação foi certamente o do cardeal Theodore McCarrick, arcebispo emérito de Washington. Acusado de abuso de um adolescente que teria acontecido há 45 anos em Nova York, o prelado - já aposentado há anos - foi suspenso de suas funções episcopais na espera que a sua posição seja esclarecida.

Com McCarrick, já são quatro os cardeais nomeados durante o longo pontificado de João Paulo II envolvidos em abusos (no total 231, criados no curso de 9 consistórios). O primeiro foi o arcebispo de Viena, Hans Hermann Groer: nomeado de surpresa como o sucessor do cardeal Franz König, em 1986, elevado a cardeal em 1988, forçado a deixar a diocese em 1995, após denúncias de ter abusado, muitos anos antes, de alguns seminaristas menores.

O segundo foi o cardeal Keith O'Brien, arcebispo de Saint Andrews e Edimburgo (Escócia), elevado ao cargo em 2003, e que se aposentou em 2013, no limite dos 75 anos sem participar do conclave, por ser acusado de ter abusado repetidamente, nas décadas de 1980 e 1990, de dois seminaristas e um padre (maiores de idade).

O terceiro é o cardeal George Pell, Prefeito da Secretaria de Assuntos Econômicos, que está se defendendo na Austrália das acusações de abusar de menores.

E agora se soma McCarrick.

Sem entrar nos méritos de casos individuais - no caso de Pell, por exemplo, algumas testemunhas deixam em aberto significativas dúvidas - não é possível deixar de notar que existe um problema no processo de nomeação dos bispos. O que chama a atenção no caso de McCarrick, além da acusação de abusar de um menor quando era sacerdote na diocese da Big Apple, são as notícias publicadas no comunicado do cardeal Joseph William Tobin, Arcebispo da Diocese de Newark, que revelou que "no passado, houve denúncias de que ele (McCarrick) estava envolvido em relações sexuais com adultos. Esta arquidiocese e a diocese de Metuchen receberam três acusações de má conduta sexual com adultos, décadas atrás; duas dessas acusações resultaram em ressarcimentos monetários". Nos três casos relativos ao passado de McCarrick – já bispo - nenhum envolve menores, mas fala-se em assédio a seminaristas e padres.

O cardeal Tobin especificou que nunca em Newark se teve notícias sobre denúncias de abusos em menores envolvendo o emérito de Washington. E, portanto, se não haviam rumores, é mais que provável que nada fosse conhecido em Roma sobre a denúncia que agora levou à suspensão do cardeal. Mais difícil de entender, por outro lado, é como tenha sido possível nomear de Metuchen a Newark, e principalmente de Newark para Washington (com a promoção a cardeal) um prelado que tinha ressarcido pessoas maiores de idade vítimas de assédios cometidos por ele.

Problemas relacionados ao exercício da sexualidade, que revelam personalidades não maduras afetivamente, deveriam ser levados em consideração antes da eventual ordenação sacerdotal. Obviamente, antes da eventual ordenação episcopal e indicação a cardeal.

Há um problema evidente no mecanismo de nomeação dos bispos, também ligado ao poder dos grupos – os deslizes morais não são avaliados da mesma maneira - e dos lobbies. E mostra todos os seus limites também a prática das nomeações diretas, que passam por cima dos procedimentos normais (como aconteceu, por exemplo, com Groer). Trata-se de eventos que seria tolo ligar aos alinhamentos ideológicos: dos quatro cardeais acima mencionados dois são mais próximos à área chamada progressista (O'Brien e McCarrick) e dois da área mais conservadora (Groer e Pell).

O caso McCarrick, além do episódio em si, é, portanto, um importante sinal de alerta de que não está simplesmente relacionado ao problema pedofilia ou abusos de adolescentes, mas mais uma vez questiona os responsáveis pelos processos e pelas escolhas dos critérios através dos quais se selecionam os bispos.

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