Gänswein: os abusos sexuais são o 11 de setembro da Igreja

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12 Setembro 2018

A crise dos abusos sexuais é “o 11 de setembro da Igreja Católica”. Foi o que disse Dom Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário particular do Papa Emérito Bento XVI, ao falar na apresentação do livro The Benedict Option, do jornalista estadunidense Rod Dreher na Câmara dos Deputados da Itália.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 11-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O prelado alemão, que mencionou seja explicitamente o relatório do Grande Júri da Procuradoria da Pensilvânia, seja implicitamente o caso McCarrick, ressaltou que o lamento de Bento XVI em 2008 aos bispos estadunidenses sobre a “profunda vergonha” causada pelos abusos sexuais de menores foi proferido “evidentemente em vão, como vemos hoje”.

Hoje é o 11 de setembro que, nos Estados Unidos, desde 2001, é chamado apenas e simplesmente como ‘nine eleven’, para recordar aquele desastre apocalíptico em que os então membros da organização terrorista al-Qaeda atacaram os Estados Unidos da América em Nova York e em Washington, diante dos olhos do mundo inteiro, utilizando como granadas dois aviões de linhas desviados em pleno voo, cheios de passageiros”, disse Gänswein.

“No turbilhão das notícias das últimas semanas, quanto mais eu me debruçava sobre o livro, após a publicação do relatório do Grande Júri da Pensilvânia, mais eu podia perceber neste nosso encontro um verdadeiro ato da Divina Providência: hoje, de fato, a Igreja Católica também está cheia de perplexidade com o seu próprio ‘nine eleven’, o seu próprio 11 de setembro, embora esta catástrofe, infelizmente, não esteja associada a uma única data, mas sim a muitos dias e anos e a inúmeras vítimas”, afirmou o prelado.

“Por favor, não me entendam mal. Não pretendo comparar nem as vítimas nem os números dos abusos no âmbito da Igreja Católica com o total de 2.996 pessoas inocentes que, no 11 de setembro, perderam a vida após os atentados terroristas no World Trade Center e no Pentágono. Ninguém, até agora, atacou a Igreja de Cristo com aviões de linha cheios de passageiros. A Basílica de São Pedro está de pé, assim como as catedrais da França, da Alemanha ou da Itália, que continuam representando o emblema de muitas cidades do mundo ocidental, de Florença a Chartres, passando por Colônia e Munique. No entanto, as notícias provenientes dos Estados Unidos, que ultimamente têm nos informado de quantas almas foram feridas irremediável e mortalmente por sacerdotes da Igreja Católica, transmitem-nos uma mensagem ainda mais terrível do que a notícia do repentino desmoronamento de todas as igrejas da Pensilvânia, junto com a Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington. Ao dizer isso, lembro-me como se fosse ontem do dia 16 de abril de 2008, quando, acompanhando o Papa Bento XVI justamente naquele Santuário Nacional da Igreja Católica nos Estados Unidos, de modo tocante, ele tentou sacudir os bispos provenientes de todos os Estados Unidos: ele falava inclinado pela ‘profunda vergonha’ causada ‘pelo abuso sexual de menores por parte de sacerdotes’ e pela ‘enorme dor que as suas comunidades sofreram quando homens da Igreja traíram as suas obrigações e tarefas sacerdotais com tal comportamento gravemente imoral’. Mas, evidentemente, em vão, como vemos hoje. O lamento do Santo Padre não conseguiu conter o mal, nem mesmo as garantias formais e os compromissos em palavras de uma grande parte da hierarquia.”

Durante a apresentação, organizada pela Fundação De Gasperi, presidida por Angelino Alfano, e realizada na Sala Aldo Moro de Montecitorio, o secretário particular de Ratzinger citou as palavras iniciais do livro: “Ninguém viu chegar o dilúvio, um autêntico dilúvio universal”. “Nos seus agradecimentos”, o autor “expressa uma gratidão particular a Bento XVI. E me parece que ele escreveu grande parte do livro quase em um diálogo silencioso com o Papa Emérito que se cala, referindo-se à sua força profético-analítica, como por exemplo quando escreve: ‘Em 2012, o então pontífice disse que a crise espiritual que está atingindo o Ocidente é a mais grave desde a queda do Império Romano, ocorrida perto do fim do século V. A luz do cristianismo está se apagando em todo o Ocidente’.”

Dom Gänswein citou duas passagens bem conhecidas pronunciadas por Bento XVI, a advertência no voo para Fátima em 11 de maio de 2010 (“A maior perseguição da Igreja não vem dos inimigos de fora, mas nasce do pecado na Igreja”) e a denúncia da “sujeira” presente na Igreja durante a Via Sacra no Coliseu, poucas semanas antes de ser eleito pontífice, para depois falar de um “ecumenismo do obscurecimento geral de Deus” e afirmar que a “eclipse de Deus não significa, de fato, que Deus não existe mais, mas que muitos não reconhecem mais a Deus, porque, diante do Senhor, interpuseram-se sombras que o obscurecem. Hoje, são as sombras dos pecados, dos crimes e dos delitos dentro da Igreja que obscurecem para muitos a visão da sua presença luminosa”.

“O tom lhes parece excessivamente dramático?”, perguntou o secretário particular de Bento XVI. “Dramáticos são os dados dos vazamentos da Igreja e ainda mais os recentes dados segundo os quais, no meu país, na Alemanha, apenas 9,8% dos fiéis se encontram no domingo nas casas de Deus para celebrar a eucaristia”, continuou Gänswein.

É “realmente uma verdadeira crise dos últimos tempos que, na Igreja Católica, se encontra imersa há já algum tempo”, disse ainda, citando Willem Jacobus Eijk, cardeal arcebispo de Utrecht, que “admitiu que, olhando para a atual crise, pensa na ‘prova final pela qual a Igreja terá que passar’”, antes da vinda de Cristo descrita pelo Catecismo e que “abalará a fé de muitos fiéis”. “A perseguição – continua o Catecismo – que acompanha a peregrinação da Igreja sobre a terra revelará o mistério da iniquidade.”

“Com esse mysterium iniquitatis, Rod Dreher tem a familiaridade de um exorcista, como demonstrou com as suas reconstruções dos últimos meses, com as quais ele também favoreceu – talvez como nenhum outro jornalista mais do que ele – a revelação do escândalo de um ex-arcebispo de duas arquidioceses estadunidenses [o cardeal Theodore McCarrick]. No entanto, ele não é um jornalista investigativo. Nem mesmo um visionário, mas sim um sóbrio analista que há muito tempo acompanha, de modo vigilante e crítico, a condição da Igreja e do mundo, mas mantendo, apesar disso, o olhar amoroso de uma criança sobre o mundo.”

Dom Gänswein também evocou o terremoto que, em 2016, envolveu a Basílica de São Bento de Núrsia para observar: “Nos últimos dias, muitas vezes, dentro da Igreja, ouviu-se repetir o conceito de terremoto, associando-o àquele colapso pelo qual, como eu afirmo, a Igreja também experimentou agora o seu ‘nine eleven’, o seu 11 de setembro”.

No livro, é descrita a resposta dos monges de Núrsia à catástrofe que reduziu o mosteiro a ruínas no local de nascimento de São Bento. O prior, Pe. Cassiano Folsom, em particular, “reflete que o terremoto simbolizava o desmoronamento da cultura cristã do Ocidente, mas que havia um segundo símbolo de esperança naquela noite: ‘O segundo símbolo eram as pessoas reunidas em torno da estátua de São Bento, na praça, para rezar’”, escreveu ele aos apoiadores.

“Depois desse testemunho do padre Cassiano, gostaria de lhes confidenciar que Bento XVI, desde o momento da sua renúncia, também se concebe como um velho monge que, após o dia 28 de fevereiro de 2013, sente-se no dever de se dedicar principalmente à oração pela Mãe Igreja, pelo seu sucessor Francisco e pelo ministério petrino instituído pelo próprio Cristo”, disse Gänswein.

Ele concluiu, ainda, citando uma passagem da homilia proferida por Bento XVI no dia 24 de abril de 2005, na missa pelo início do ministério petrino sobre a Igreja “jovem” e “viva”: “Não poderá enfraquecer ou destruir essa verdade sobre a origem da fundação da Igreja universal católica por meio do Senhor ressuscitado e vencedor nem mesmo o satânico 11 de setembro dela. Por isso, devo admitir com sinceridade que percebo este tempo de grande crise, hoje evidente para todos, sobretudo como um tempo de graça; porque, no fim, quem ‘nos fará livres’ não será um esforço particular qualquer, mas sim a ‘verdade’, como o Senhor nos assegurou”.

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