Ocidente. Qual o futuro para os cristãos?

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22 Junho 2018

Há várias coisas a dizer, e nem todas positivas, sobre a Opção Bento, a proposta do ensaísta norte-americano Rod Dreher de relançar o papel do cristianismo como "minoria criativa" em um Ocidente já plenamente secularizado. Para Dreher, antes metodista, depois católico e finalmente votado à ortodoxia, é ao modelo dos mosteiros como faróis da civilização, criado por Bento de Nórcia no sexto século, em uma Europa que havia testemunhado o colapso do império romano, que os cristãos devem se reportar para reconstruir uma presença em um mundo pós-cristão.

O comentário é de Roberto Righetto, publicada por Avvenire, 20-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

As teses de Dreher, expressas várias vezes na imprensa dos EUA e que se tornaram um livro lançado em 2017, são propostas agora na Itália graças às edições de San Paolo (L’opzione Benedetto p. 342, 25,00 euros).

Vamos logo dizer que o volume, que traz um prefácio do presidente da Sociedade Chestertoniana, Marco Sermarini, recebeu há alguns meses uma crítica dura da Civiltà Cattolica através da caneta do jesuíta Andreas Gonçalves Lind, que enxergou na tese de Dreher a redução do cristianismo a uma "polis paralela", uma “força ‘contracultural’ dentro de um mundo que rejeita claramente o cristianismo”. Crítica que considerei excessiva pela acusação específica de donatismo, também porque Dreher não sugere hipóteses de comunidades cristãs separadas do mundo que se considerem perfeitas, mas formas de resistência espiritual e cultural que não perseguem um espírito sectário, não se apresentam como guetos, mas como modelos para o mundo. (Que seja dito, en passant, que não se trata do caso de que não devem ou não podem existir polêmicas intracristãs, sempre houve e sempre existirão, mas a polarização das opiniões impede muitas vezes que se perceba o lado positivo em obras que são julgadas contrárias ao próprio ponto de vista, se não mesmo inimigas. Um fenômeno do qual deriva um empobrecimento para todo pensamento cristão).

Dito isso, devem ser assinaladas as ausências no livro de Dreher. Em primeiro lugar o historiador inglês Arnold Toynbee, a quem se deve o conceito de "minorias criativas". Para Toynbee, que estudou o colapso das civilizações, são precisamente estas que permitem um renascimento. Exatamente o que aconteceu depois do colapso do Império Romano que foi revitalizado graças ao cristianismo, capaz através da obra dos monges de salvar a cultura clássica em um processo de fusão entre o mundo antigo e os valores cristãos que possibilitou o nascimento da Europa. É um conceito que foi relançado pelo então cardeal Ratzinger em um discurso em Subiaco, um dia antes da morte de João Paulo II, e que quando ele se tornou Papa reiterou várias vezes.

Depois há a ausência de Francisco: é evidente a preferência que Dreher expressa por Bento XVI, mas – cabe perguntar - como é possível hoje pensar em "uma estratégia para os cristãos" ignorando sistematicamente os esforços do atual pontífice para revitalizar o cristianismo ocidental com um apelo constante à essencialidade e à radicalidade do Evangelho?

Outro elemento que perturba bastante na visão de Dreher é sua contínua referência aos “cristãos conservadores" como os únicos verdadeiros representantes do cristianismo. Por que não falar de cristãos sem adjetivos e rotular com insistência os cristãos como conservadores, evidentemente para opô-los aos chamados progressistas? Ao se perceber os cristãos no Ocidente reduzidos a uma minoria, que sentido tem reiterar essa lógica de separação? Naturalmente, deve ser considerada a origem geográfica do autor, as suas posições políticas que o levaram a identificar a causa do cristianismo com o Partido Republicano, considerado um baluarte na defesa dos valores tradicionais. Até a era Trump, que embora amplamente votado tanto pelos protestantes quanto pelos católicos, demonstra-se para Dreher totalmente insensível à causa da moralidade cristã. Ele tem em mente principalmente a ideia de família que nos últimos anos nos Estados Unidos foi desmoronando e lança invectivas, muitas vezes com epítetos não muito lisonjeiros, contra o mundo homossexual. Como se ali não pudesse haver cristãos dignos.

Existe certa obsessão com sexo no livro e surpreende, entre outras coisas, como Dreher, cristão ortodoxo, nunca mencione a obra de Olivier Clément, o maior teólogo ortodoxo que viveu no Ocidente no século XX, que sobre o tema escreveu reflexões imprescindíveis. Clément elaborou uma teologia da paixão amorosa na consciência de que, mesmo que o cristão seja às vezes chamado a dizer não, como no caso dos casamentos homossexuais ou das gestações de aluguel, as proibições não têm outro resultado que o de reforçar os caprichos e as atitudes prometeicas: "Devemos amar a todos, ninguém é amaldiçoado. O contrário do niilismo não é a proibição, mas a fé". Ele tinha em mente um cristianismo da liberdade que tomaria o lugar do cristianismo do moralismo.

Todas as reconstruções históricas do ensaio, com a exaltação da Idade Média e a condenação da modernidade, a partir do Renascimento até o Iluminismo, nem são analisadas. Apoiando-se nas justas reflexões de Guardini, Lewis, McIntyre e Taylor, que certamente criticaram uma linha do pensamento moderno que tende a marginalizar o cristianismo, Dreher julga a chegada da civilização ocidental em termos apocalípticos. Esquecendo-se que o processo de secularização também teve efeitos benéficos sobre o pensamento cristão, depurando-o dos resquícios ideológicos: é a inteira lição do Concílio Vaticano II que é ignorada.

Mas não se podem desconsiderar as amplas partes positivas do livro: a tentativa de atualizar a Regra beneditina recuperando o conceito e a prática da ascese, do sentido de comunidade, da hospitalidade, bem como da ordem e do equilíbrio. Diante da massificação imperante, Dreher chega para dar uma série de conselhos práticos totalmente compartilháveis: "Tomem distância das mídias atuais. Desliguem a televisão. Guardem seus smartphones. Leiam livros. Façam jogos. Componham música. Plantem um jardim. Comemorem com os vizinhos...”. A obra convida os cristãos a se colocarem como um sinal de contradição, assim como eram as primeiras comunidades cristãs. Com duas importantes ressalvas: a primazia da cultura e, portanto, a redescoberta do imenso patrimônio teológico do cristianismo, a partir da Patrística; a consciência de que a evangelização acontece "com o belo e com o bom".

E aqui, permitam-me acrescentar (a um autor que quase sempre se esquece de lembrar a tarefa dos crentes em favor dos pobres e dos marginalizados, daqueles que sofrem injustiças) que foi a vida conduzida segundo a regra do amor pelo próximo e a solidariedade para todos que constituiu um dos elementos fundamentais que determinaram a conversão do mundo antigo. Tanto é assim que Juliano, o Apóstata, teve que admitir desconsolado: "Esses ímpios galileus não só alimentam os próprios pobres, mas aqueles dos outros, enquanto nós negligenciamos até mesmo os nossos".

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