Pessoas homossexuais e moral cristã: quem sou eu para julgar?

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20 Março 2015

No âmbito da união homossexual, é hora de abrir a reflexão sobre a relação entre dois seres, em vez de reduzi-la ao ato genital. Quando tomamos conta do outro em uma atenção recíproca, a relação amorosa se torna sinal da generosidade de Deus. Por que não poderia ser o mesmo para o ato homossexual? É impossível situá-lo também na relação amorosa? Não seria, ele também, acesso à generosidade de Deus?

A opinião é de Claude Besson, copresidente da associação francesa Réflexion et Partage e autor de Homosexuels catholiques. Sortir de l'impasse (Ed. De l'Atelier). O artigo foi publicado no sítio Baptises.fr, 16-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A homossexualidade existe na história de todas as sociedades e culturas. Não pode ser negada. Esse fato, que permaneceu escondido por séculos, tornou-se público hoje na nossa sociedade.

A Igreja Católica levou em consideração essa realidade há diversos anos: "Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Essa propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza" (Catecismo da Igreja Católica, n. 2.358).

Esse respeito, essa compaixão, essa delicadeza progrediram muito nos últimos anos em algumas dioceses e comunidades cristãs. De fato, por iniciativa de alguns bispos, surgem equipes diocesanas "com missão específica", para mais bem levar em consideração a vivência das pessoas homossexuais.

O objetivo dessas equipes não é tanto a realização de uma "pastoral" à parte para favorecer a acolhida das pessoas homossexuais, o que seria uma forma de estigmatização positiva, mas sim o reconhecimento e a estima daquilo que é vivido por cada um, "para que essas pessoas possam viver uma vida cristã comum e engajada e ter o seu lugar na Igreja como todas as pessoas batizadas" (Pe. Denis Trinez, no jornal La Croix, 19-03-2014, p. 17).

Se há avanços in loco, igualmente outros avanços são perceptíveis em diversos documentos oficiais, por exemplo a acolhida de cada pessoa e o seu lugar na comunidade cristã: "Para as comunidades católicas, a acolhida incondicional de todas as pessoas vem em primeiro lugar. Cada pessoa, independentemente do seu percurso de vida, é, acima de tudo, um irmão ou irmã em Cristo, um filho de Deus. Essa filiação divina transcende todos os laços humanos de família. Cada pessoa tem direito a uma acolhida amorosa, assim como é, sem ter que esconder este ou aquele aspecto da sua personalidade" (Poursuivons le dialogue, Conselho Família e Sociedade da Conferência Episcopal Francesa, maio de 2013, p. 5).

No entanto, viver a própria homossexualidade e a própria fé cristã é possível hoje, sem ter que se esconder? Se são perceptíveis alguns progressos, posso testemunhar, porém, depois de diversos encontros em muitas dioceses francesas, que a dificuldade para muitas pessoas homossexuais e para as suas famílias de encontrar o seu espaço na Igreja é real.

E a pesquisa de Martine Gross, feita em 2008, ainda é atual, no sentido de que os gays e as lésbicas cristãos, depois de terem interiorizado o discurso da Igreja institucional, muitas vezes vivem com sentimento de culpa e como desonrosa a descoberta da sua homossexualidade (Martine Gross, Être chrétien et homosexuel en France, Société Contemporaine, n. 71, Paris, Presses de Sciences Po, março de 2008).

Sofrimento, desonra, sentimento de culpa, vergonha ainda são o destino de muitos. Isso tem como causa, dentre outras coisas, o modo como são vistos pelos seus irmãos e irmãs na fé, mas também a linha escolhida pela Igreja institucional, que, embora insistindo na acolhida incondicional, continua condenando os atos homossexuais, definindo-os como "intrinsecamente desordenados".

Se a Igreja Católica sempre reprovou os atos homossexuais, foi a partir de 1970 que a expressão doutrinal, no entanto, teve uma evolução, com a distinção entre os atos e as pessoas. Essa distinção aparece pela primeira vez na declaração de 1975 Persona Humana, sobre alguns pontos de ética sexual (disponível aqui, em português), da Congregação para a Doutrina da Fé: "Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Esse juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação" (n. 8).

Essa atenção às pessoas será retomada no Catecismo da Igreja Católica, embora reafirmando a condenação dos atos contrários à lei natural (Catecismo da Igreja Católica, 1992, nn. 2.357 e 2.358).

E eis que chegamos a falar de lei natural. Essa famosa lei natural nos vem de Tomás de Aquino. "Na interpretação dos textos bíblicos que ele realiza, Tomás de Aquino considera como 'contro natura' (eu tomo os termos que são da época, mas que ainda continuam em vigor) todos os atos que não são coerentes com o seu fim. Em linguagem direta: a relação sexual tem por finalidade a procriação. Portanto, toda relação sexual que não tenha por finalidade a procriação é 'contro natura'. (...) Para ele, a natureza é o que está conforme com a ordem da criação. Não é simplesmente uma espécie de obsessão naturalista. Para a tradição teológica, isso se ancora no projeto da criação de Deus. Para Tomás de Aquino, a lei natural não é a lei biológica, ao contrário do que se pensa muitas vezes, é a lei da razão. Mas uma razão que esteja, em si mesma, em harmonia com a lei divina. O ato deve ser coerente com a sua finalidade, que esteja relacionada com o plano de Deus" (Véronique Margron, conferência proferida à Réflexion et Partage, 01-06-2013).

A segunda sessão do Sínodo sobre a família de outubro de 2015 permitirá que se vá além desse modo imutável de entender a lei natural? O futuro nos dirá... Se o relatório intermediário da primeira sessão do Sínodo tinha aberto algumas brechas, expressando, por exemplo, que "as pessoas têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã" (n. 50), o relatório final as ocultou completamente, reafirmando em poucas linhas o que sempre foi dito: acolhida às pessoas, mas "fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família" (Relatio Synodi, n. 55). E assim o anel parece concluído, mas...

A noção de lei natural foi revisitada por uma Comissão Teológica Internacional, cujo trabalho foi publicado em 2009 (A la recherche d'une éthique universelle, nouveau regard sur la loi naturelle, Éd. du Cerf, maio de 2009). A doutrina da lei natural "afirma basicamente que as pessoas e as comunidades humanas são capazes, à luz da razão, de discernir as orientações fundamentais de um agir moral conforme à própria natureza do sujeito humano e de expressá-las de maneira normativa sob a forma de preceitos e de mandamentos" (ibid. p. 22).

E a Comissão Teológica Internacional reconhece que, com "o desenvolvimento das ciências humanas, o pensamento ocidental tomou mais consciência da historicidade das instituições humanas e da relatividade cultural de inúmeros comportamentos que se justificavam, às vezes, apelando à evidência da lei natural" (n. 33).

A mesma comissão cita no número 53 alguns exemplos como "a escravidão, o empréstimo a juros, o duelo ou a pena de morte". A lei moral seria, portanto, evolutiva? Sim, responde o Comissão Teológica Internacional: "O direito natural nunca é uma medida fixada de uma vez por todas. É o resultado de uma avaliação das situações mutáveis em que vivem os homens" (n. 90).

Podemos sonhar também que teólogos, cardeais e muitos outros se expressarão para que a Igreja se situe como "companheira de viagem" e esperar do Sínodo algo diferente da reafirmação da doutrina: "Que não seja um Sínodo platônico, que ele não se retire a uma ilha reconfortante de discussões doutrinais ou de normas gerais, mas que tenha os olhos abertos sobre a realidade concreta e complexa da vida" (Dom Bonny, bispo de Antuérpia, 01-09-2014).

No âmbito da união homossexual, é hora de abrir a reflexão sobre a relação entre dois seres, em vez de reduzi-la ao ato genital. "O certo é que, se invocarmos exclusivamente a objetividade moral ou o 'contra natura' da teologia medieval, esse é o impasse, ainda mais que tal teologia ainda está ativa em todos os textos do Magistério. Como essas portas estão fechadas, abre-se o âmbito hesitante de uma pastoral da acolhida que visa a dar a conhecer uma mensagem bem difícil de entender, ou seja, a de uma pessoa dividida entre o seu ser e o seu agir. Mas, precisamente, uma pessoa não se reduz aos seus atos. Pode-se respeitar a dignidade de um homem que cometeu um crime e condenar o seu ato; ao contrário, a orientação sexual de uma pessoa, a sua sexualidade, talvez, não faria parte do seu ser encarnado, relacional? Condená-la não significa condenar o ser desejante?" (Laurent Lemoine, Homosexualité et morale chrétienne, in Revue Études, outubro de 2014, p. 67).

Laurent Lemoine, na mesma linha, ressalta que "uma pista possível consistiria em uma avaliação ética do comportamento global do sujeito para evitar que se polarize a avaliação sobre o ato genital como se a pessoa pudesse ser avaliada realmente apenas com base nisso" (Laurent Lemoine, Dictionnaire Encyclopédique d'éthique chrétienne, Éditions du Cerf, 2013, p. 1.096).

Na reflexão sobre a sexualidade heterossexual, com razão, quando se quer dar ao ato sexual a sua verdadeira dimensão, ele é situado no contexto mais amplo da relação amorosa. De fato, o ato sexual, embora busque um prazer legítimo, bom em si mesmo, também é ternura, descoberta, respeito e atenção ao outro.

Quando tomamos conta do outro desse modo em uma atenção recíproca, a relação amorosa se torna sinal da generosidade de Deus. Por que não poderia ser o mesmo para o ato homossexual? É impossível situá-lo também na relação amorosa? Não seria, ele também, acesso à generosidade de Deus?

É uma das ideias desenvolvidas pelo dominicano Gareth Moore em uma conferência dada à comunidade dominicana de Froidmont, na Bélgica: "A Igreja sempre fala em termos de atos homossexuais. Ela nunca fala de relações homossexuais. Isso significa que, quando trata das ações homossexuais dos homossexuais, ela fala disso como se elas se produzissem fora de toda relação humana. As ações sexuais dos heterossexuais, ao contrário, são sempre consideradas no contexto do matrimônio, isto é, de um dom mútuo de duas pessoas que se consagram uma à outra. Nesse contexto, o ato sexual pode ter um sentido evidente: a união física dos dois corpos é apta a expressar simbolicamente a unidade das duas pessoas unidas pelo amor. Também pode expressar, como afirma a doutrina da Igreja, a unidade de Deus, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, cujo princípio de unidade é o amor. Mas também existe o amor homossexual. As relações homossexuais não devem ser tratadas como se existissem sem contexto humano, como faz a Igreja".

Certamente, os atos sexuais podem ocorrer sem relação humana, sem amor, e isso deve ser deplorado. Mas, no caso de duas pessoas homossexuais que se amam, a relação sexual também não seria sinal da unidade de Deus? Continua Gareth Moore: "No caso de dois homossexuais que se amam mutuamente, que compartilham a sua vida, que se consagram um ao outro de maneira permanente, a união sexual pode ser igualmente a expressão física do amor que une. Não é evidente dizer que tal união sexual não poderia ser igualmente, como a união física de duas pessoas casadas, um símbolo da unidade de Deus. Certamente, a união sexual de duas pessoas homossexuais não pode produzir um filho, não pode ser fecunda, da mesma maneira que a de duas pessoas heterossexuais. A união sexual de duas pessoas casadas, das quais uma é estéril, também não pode ser fecunda. Além disso, a união sexual de um casal casado deveria refletir, segundo a doutrina oficial, a unidade de Deus. Mas a união das pessoas da Trindade não é fecunda como a união sexual de um casal casado. Deus não é fecundo, é criador. Isto é, o casal heterossexual fecundo é uma má imagem de Deus" (in: Claude Besson, Homosexuels catholiques, sortir de l'impasse, Les éditions de l'Atelier, 2012, p. 111-112).

Quem somos nós para não reconhecer o Espírito em ação quando vemos e ouvimos pessoas homossexuais darem frutos de amor, de paz, de paciência, de bondade, de benevolência, de fé, de doçura, de domínio próprio (cf. Gl 5, 22-23)?

O medo é um mau conselheiro. Cuidar das pessoas que vimos e ouvimos convida a levar em consideração as expectativas e as novas interrogações que a vida dessas pessoas levanta: "O oposto da fé não é a dúvida, é o medo: o medo de mudar, de se mover, de inovar, de ter confiança no Espírito Santo. A Igreja deste tempo estaria, talvez, habitada pela dúvida, não aquela que se interroga sobre os dados essenciais da fé cristã, mas aquela que teme avançar em terras novas? (…) O povo dos batizados recebe, permanentemente, uma missão: a de testemunhar, ao coração do mundo real que também é o seu, a Notícia que o faz viver e o impulsiona para fora das suas fronteiras: 'Quanto a nós, não podemos nos calar sobre o que vimos e ouvimos' (At 4, 20)" (Jean Rigal, L'Église en quête d'avenir).

Não tenhamos medo! Como católicos homossexuais e heterossexuais (padres, diáconos, bispos, leigos, religiosos e religiosas), temos uma responsabilidade: a de amar o nosso próximo como a nós mesmos, na complementaridade e na riqueza das nossas diferenças, para edificar juntos o Corpo de Cristo: "Somos chamados a nos tornar um só corpo, um só espírito em Cristo. Precisamos uns dos outros se queremos 'crescer sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça. Ele organiza e dá coesão ao corpo inteiro, através de uma rede de articulações, que são os membros, cada um com sua atividade própria, para que o corpo cresça e construa a si próprio no amor' (Ef 4, 15-16). Embora, às vezes, vocês [que são homossexuais] se sintam desanimados, feridos ou enraivecidos, não se afastem das suas famílias, nem da comunidade cristã, nem de todas as pessoas que os amam. Em vocês, o amor de Deus é revelado. Vocês são sempre os nossos filhos 'No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo' (1Jo 4, 18)" (Sempre nossos filhos, conclusão da mensagem pastoral dos bispos dos Estados Unidos aos pais de crianças homossexuais, 1997; disponível aqui, em inglês).

"Aprendamos uns com os outros que amar, na verdade, é uma aventura que se vive dia após dia. O acontecimento do amor é cotidiano. Nessa busca, não estamos sozinhos. Tenhamos confiança! O Espírito nos precede sempre" (Claude Besson, op. cit., p. 130).

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