Razão e ser humano: bases comuns da ética cristã e laica. Artigo de Umberto Veronesi

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19 Setembro 2013

Se o ser humano é biologicamente bom, para se comportar de modo moral, ele deve simplesmente seguir a própria consciência. Pode existir, então, uma ética laica, que não quer se substituir ao cristianismo ou aos preceitos morais de outras religiões, mas quer simplesmente ajudar o ser humano a fazer bom uso da própria natureza e da própria razão.

A opinião é do oncologista e ex-ministro da Saúde italiano Umberto Veronesi, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 14-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O debate suscitado pela carta do Papa Bergoglio a Scalfari demonstra que a relação entre crentes e não crentes está bem longe de ser uma questão douta para poucos intelectuais. Não existe mulher ou homem aos quais não se fala, por outros ou pela própria consciência, a pergunta: "E você, em que acredita?". Eu respondo: "Eu acredito não em Deus, mas sim no ser humano". E depois de ter lido atentamente a sua carta, imagino que o papa responderia: "Eu acredito em Deus e no ser humano".

Portanto, é o amor pelo ser humano o ponto de encontro entre Igreja e laicidade, e é ao lado do ser humano aquele "trecho de estrada juntos" que o papa convida as pessoas laicas a fazer. Portanto, são os direitos humanos o terreno no qual se fundamenta o possível entendimento. O direito à paz é o primeiro da lista. É de poucos dias atrás o apelo ao jejum pela paz na Síria, ao qual aderiram crentes, juntamente com pessoas laicas (eu, em primeiro lugar) e crentes de outras religiões.

Se, então, no plano ético, não há incompatibilidade – tanto que, escreve o papa, "o pecado, mesmo para quem não crê, existe quando se vai contra a consciência" –, eu penso que o choque não é tanto entre fé e ausência de fé, mas sim entre religiões e sociedades. Em muitos casos, nos países avançados, as religiões parecem ter ficado milhares de anos para trás com relação às sociedades. A religião cristã se baseia na Bíblia e nos seus Dez Mandamentos, que a Igreja Católica considera ainda atuais. Mas como a nossa sociedade os considera?

Todos nós estamos de acordo que não se deve matar, ou roubar, ou maltratar o pai ou a mãe. Mas existem problemas em aberto, especialmente com reação à vida sexual: as relações pré-matrimoniais, a instituição do próprio matrimônio, a formação das famílias, as relações homossexuais, o direito à procriação. Permanece sem solução o grande dilema da disponibilidade da vida: a pessoa laica crê na responsabilidade da vida, enquanto o crente, na sua sacralidade. Portanto, a pessoa laica considera que pode dispôr da própria existência até o seu fim, enquanto o crente pensa que a sua vida é dom e propriedade de Deus, e só Deus pode decidir o que fazer dela.

Daí surgem choques dolorosos sobre temas como os casamentos gays, as uniões civis, a reprodução assistida, a contracepção e o aborto, o testamento biológico e a eutanásia. Encontrar sobre esses temas também um ponto de encontro é realmente impossível? O pensamento racional é diametralmente oposto à fé? Eu acredito que não e quero partir de uma afirmação que o Papa Ratzinger fez no discurso de Regensburg: "Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus". São palavras que abrem à esperança e que podem levar a um plano de encontro concreto entre crentes e não crentes, justamente na razão, no Logos.

Palavras que o Papa Francisco confirma escrevendo a Scalfari que mesmo quem crê se faz perguntas, está em busca, porque mesmo para ele "a verdade não é absoluta, mas se revela através de um caminho e de uma vida".

A mensagem que podemos tirar da carta do papa ao La Repubblica é, talvez, que não há necessidade de conciliar integralmente todas as posições sobre Deus, em busca de um acordo hoje (e talvez sempre) impossível, mas se pode avançar juntos em nome do ser humano.

Benedetto Croce escreveu Perché non possiamo non dirci cristiani [Por que não podemos nos dizer cristãos]. Partindo daí, há muito tempo eu exploro a possibilidade de tornar verdadeira a afirmação: por que podemos não nos dizer cristãos e fundar uma moral laica baseada nos princípios da natureza humana que têm como referência não necessariamente Deus, mas seguramente o ser humano. À parte da fé na transcendência, não há nada nos ensinamentos do cristianismo que já não está presente na consciência humana e na atitude a amar, ao invés de odiar.

Nisso nos ajudam as mais recentes pesquisas científicas: a violência não depende nem de instintos da natureza que compartilhamos com os animais, nem de como o nosso cérebro é feito, nem de uma hipotética vantagem evolutiva em favor dos mais fortes. A natureza não seleciona os mais fortes, mas sim os mais adaptados. E é mais adaptado quem constrói relações construtivas com o próximo, quem cria sua prole em paz e bem-estar, e assegura assim a sobrevivência da espécie. A violência é, ao contrário, uma reação a situações adversas.

Portanto, se o ser humano é biologicamente bom, para se comportar de modo moral, ele deve simplesmente seguir a própria consciência. Pode existir, então, uma ética laica, que não quer se substituir ao cristianismo ou aos preceitos morais de outras religiões, mas quer simplesmente ajudar o ser humano a fazer bom uso da própria natureza e da própria razão.

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