Preparando a próxima viagem papal à Argentina

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17 Julho 2018

Retornar agora como Papa Francisco apenas para ser recebido com louvores satisfaria a hipocrisia e falsidade de seus compatriotas”, escreve Robert Mickens, jornalista editor-chefe do Global Pulse, em artigo publicado por La Croix International, 13-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

São João Paulo II foi o único Papa que visitou a Argentina até agora. Na verdade, ele foi lá duas vezes.

A primeira vez foi em junho de 1982, quando o país sul-americano estava em guerra com a Grã-Bretanha sobre controle das Falkland Islands-Ilhas Malvinas.

Foi uma visita tensa e complicada, organizada às pressas no último minuto para contrabalancear com a viagem de uma semana para a Inglaterra, Escócia e País de Gales que o Papa tinha feito apenas oito dias antes.

João Paulo, daquela feita com 62 anos de idade, ficaria apenas 32 horas na Argentina, passando o tempo todo na capital, Buenos Aires.

Durante sua breve estadia a guerra acontecia nas proximidades. E a luta continuou apesar de seus apelos e orações pela paz.

No dia seguinte, novamente rezou pela paz entre os países beligerantes durante o Angelus de domingo para multidões que se reuniram na Praça de São Pedro.

A guerra duraria mais vinte e quatro horas antes de um cessar-fogo ser declarado e os argentinos se entregarem aos britânicos em 14 de junho de 1982.

As raízes argentinas da Jornada Mundial da Juventude

A segunda visita do Papa à Argentina se deu em abril de 1987 e durou uma semana inteira.

O ápice foi no Domingo de Ramos com a celebração da Jornada Mundial da Juventude. Foi a primeira vez que este agora famoso encontro internacional de jovens com o Papa aconteceu fora de Roma.

Fazia sentido acontecer em Buenos Aires. Afinal, foi um argentino – cardeal Eduardo Pironio (1920-1998) – que, como chefe do Conselho Pontifício para os Leigos, surgiu com o conceito de Jornada Mundial da Juventude.

Trinta e um anos se passaram desde então. Papa Francisco, que é da Argentina, ainda não era nem bispo quando João Paulo visitou seu país.

Jorge Mario Bergoglio estava numa espécie de exílio durante a primeira viagem papal em 1982. Dava aula numa faculdade na cidade de San Miguel uns treze anos depois de uma dura experiência como Superior Provincial dos Jesuítas da Argentina.

Na época da segunda visita papal em 1987, Bergoglio tinha acabado de voltar de outro tipo de exílio, desta vez na Alemanha, onde foi enviado supostamente para completar sua tese de doutorado. Neste momento ele estava em uma espécie de terra de ninguém.

Ele se tornou bispo em 1992, cinco anos após a segunda e última visita de João Paulo II.

Apesar do fato de que agora temos um Papa que é da Argentina, nunca houve outra visita papal ao país sul-americano.

Papa Francisco não voltou para casa desde março de 2013, quando partiu para Roma com uma passagem de ida e volta para ajudar a eleger um sucessor de Bento XVI, o primeiro, em mais de 500 anos, a abdicar do papado.

Cardeal Bergoglio tinha 76 anos de idade e já havia apresentado sua demissão como arcebispo de Buenos Aires.

O conclave teria sido sua última ação importante antes de sua aposentadoria, que ele planejou viver em um apartamento numa parte pobre da capital Argentina.

Mas todos nós sabemos o que aconteceu depois. Bergoglio foi eleito bispo de Roma, tomando o nome de Papa Francisco, e ele nunca teve a chance de usar a parte da volta de seu bilhete de avião.

Isso foi há mais de cinco anos. E, como todas as outras coisas que este jesuíta latino-americano tem feito desde assumir sua "nova diocese", sua decisão de não visitar a Argentina tem sido uma ruptura com os costumes do passado.

Seus dois antecessores voltaram para suas pátrias no início de seus pontificados. João Paulo II foi à Polônia oito meses depois de se tornar Papa. E Bento XVI foi à Alemanha apenas quatro meses depois de sua eleição.

Cada um retornaria para seus respectivos países várias vezes – Papa Wojtyla fez oito viagens mais para casa e Papa Ratzinger foi para sua terra natal mais duas.

Mas e o Papa Bergoglio? Nada.

Um profeta em seu país de origem

Muitas pessoas têm opinado e especulado, com autoridade ou não, sobre as razões pelas quais Francisco nunca visitou sua pátria.

A maioria delas concorda pelo menos num ponto – o Papa evita uma viagem para a Argentina porque não concorda com o atual governo e quer evitar o risco de que este tentaria manipular uma visita papal para ter vantagens políticas.

Isto, em minha opinião, é besteira. Papa Francisco nunca teve medo de correr riscos, especialmente em conhecer pessoas ou indo a lugares que seus assessores prefeririam evitar.

Então o que o está impedindo de ir para casa? Ele já passou sobre quase todos os outros lugares na América do Sul. Por que não a Argentina?

Uma explicação muito mais simples é a passagem do evangelho da liturgia de domingo passado (Mc 6:1-6).

"Um profeta só não é valorizado na sua própria terra", Jesus diz enquanto pregava na sinagoga de sua cidade natal. Mas outra tradução é mais dura. "Um profeta só não é estimado em sua pátria."

No caso de Francisco, no entanto, a frase é virada do avesso.

O Papa de 82 anos de idade sabe que o orgulho e a alegria que a grande maioria dos argentinos tem exibido em relação a ele desde sua eleição não são exatamente os sentimentos que expressaram quando era apenas o cardeal-arcebispo de sua cidade capital.

Claro, a maioria dos argentinos já tinha ouvido falar o nome de Bergoglio e algumas de suas grandes repreensões contra a cultura consumista e antivida de seu país. Mas muitos não gostavam do que ouviram.

A verdade da questão é que cardeal Bergoglio não tinha um monte de fãs em seu país antes de se tornar Papa.

Retornar agora como Papa Francisco apenas para ser recebido com louvores, satisfaria a hipocrisia e falsidade de seus compatriotas. Para ele isso é muito embaraçoso.

Mas isso não significa que ele vai ficar longe da Argentina para sempre.

Se você gosta de Papa Francisco, reze para que ele não vá tão cedo à Argentina

Eventualmente o Papa Francisco voltará para casa, provavelmente daqui a alguns anos depois de colocar mais algumas pedras fundamentais para um projeto de reforma de Igreja a ponto de não ser facilmente revertida.

Ele já começou a mudar radicalmente a mentalidade legalista e dualista que manteve o catolicismo (e, infelizmente, a maioria do cristianismo) fora do Evangelho de Jesus Cristo.

Ele também começou a mudar a resposta pastoral da Igreja em direção a todos os tipos e categorias de pessoas que há muito foram excluídas e julgadas impiedosamente pela chamada ‘comunidade cristã’.

Francisco se tornou um dos principais porta-vozes da necessidade de mudar drasticamente e com urgência nossos estilos de vida a fim de salvar o meio ambiente e o planeta da destruição.

Ele também é o mais sincero líder mundial em relação aos direitos e a dignidade dos imigrantes e dos refugiados.

Ele também está forçando os bispos da Igreja Católica a ouvirem preocupações e críticas dos jovens, assim como os forçou a ouvirem as necessidades das pessoas consideradas estarem vivendo fora as normas da Igreja em sua relação com a sexualidade e o casamento.

As ações de Francisco em todas estas áreas foram como "viradas de paradigma". Mas há mais algumas coisas que ainda deve fazer para cimentar o seu legado como um Papa de mudança.

O primeiro é restabelecer a prática de permitir que padres se casem. Se isso for feito com cuidado, tem o potencial de transformar o catolicismo em incontáveis maneiras.

A segunda coisa que o Papa precisa (na verdade, espera) realizar é seguir os passos de Bento XVI e, eventualmente deixar o cargo de bispo de Roma antes de morrer.

Assim como a eleição consecutiva de dois (e agora três) não-italianos tornou normal ter um Papa "estrangeiro", então uma segunda demissão consecutiva fará esta prática de abdicação mais rotineira em vez de algo que acontece apenas a cada meio milênio.

Mas Francisco provavelmente não irá renunciar enquanto Bento ainda estiver vivo. Ter dois papas aposentados ao mesmo tempo pode ser um choque para o sistema romano, mesmo pelos padrões de Bergoglio!

Em qualquer caso, saberemos quando Francisco decidiu que é hora de deixar o palco – quando divulgar planos para a próxima viagem papal à Argentina. Será, para ele, uma passagem só de volta para casa.

Minha aposta é que ele vai anunciar sua aposentadoria lá, entregar sua batina papal e o passaporte da Santa Sé, e voltar a ser o padre Jorge entre os pobres de Buenos Aires.

Acredite: coisas mais estranhas já aconteceram.

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