A derrota e a vitória do povo argentino nas Malvinas. Entrevista especial com Federico Lorenz

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04 Mai 2008

Perder a Guerra das Malvinas nunca foi um episódio totalmente aceito pelos argentinos. 26 anos depois da guerra, o país latino-americano ainda luta, de forma diplomática agora, pela soberania das ilhas que estão sob a posse da Grã Bretanha desde 1833. Para o pesquisador Federico Lorenz, “as Malvinas estão muito mais presentes na agenda política argentina porque obriga a discutir muitas outras coisas além da soberania sobre as ilhas”. O historiador analisou os resquícios deste embate em entrevista à IHU On-Line, realizada pessoalmente.

Ele é um dos maiores – e um dos poucos – especialistas na Guerra das Malvinas na Argentina. “As Malvinas estão associadas à ditadura. É inevitável pensar dessa forma porque a guerra provocou o fim da ditadura. Então, durante muito tempo se pensava que se pesquisar sobre as Malvinas de algum modo serviria como apoio para a ditadura”, explicou Lorenz.

Federico Lorenz é historiador e pesquisa temas da história recente da Argentina, especialmente sobre a Guerra das Malvinas e o terrorismo de Estado. Atualmente, coordena a “Área de Estudios e Publicaciones del Centro Cultural de la Memória `Haroldo Conti`, Espacio para la Memória, la Verdad y la Justicia Argentina”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Recentemente, a Argentina voltou a pedir à ONU que interceda pelo país para que negocie a soberania sobre as Ilhas Malvinas. Hoje, como está a relação do país com a Grã-Bretanha?

Federico Lorenz – A relação entre a Argentina e a Grã-Bretanha está normal, ou seja, foram restabelecidas as relações diplomáticas. Há comércio entre os dois países, muito menor do que em 1982, mas vem aumentando. Há, também, muito intercâmbio cultural. No entanto, há um ponto a respeito do qual a Grã-Bretanha não discute: a devolução das ilhas. A Argentina, exatamente neste ano, voltou a apresentar o pedido de devolução às Nações Unidas, o que não ocorreu durante a década de 1990. Evidentemente que a importância que as Malvinas têm para o governo britânico e para o governo argentino é distinta. Para nós, argentinos, ela tem uma importância cultural. Aprendemos na escola sobre uma guerra que se perdeu, lembrando-se, ao mesmo tempo, da ditadura militar. As Malvinas estão muito mais presentes na agenda política argentina porque obriga a discutir muitas outras coisas além da soberania sobre as ilhas.

IHU On-Line – Para deixar claro, qual é a diferença entre os interesses da Argentina e da Grã-Bretanha sobre as ilhas?

Federico Lorenz – Parece-me que as Malvinas são um lugar estratégico em termos de espaço entre um oceano e outro. Além disso, existe uma população que é britânica e que, por isso, precisa defender. Há, também, uma questão de prestígio imperial, ou seja, um império não devolve seus territórios, além de atividades econômicas, como aquelas que envolvem as Malvinas. Assim, essas estão sobre a plataforma continental argentina e, além de economia pesqueira, há possíveis prospecções de petróleo, ou seja, trata-se de uma zona muito importante para o trafego com o continente antártico. Ela está muito perto do extremo sul do continente e, por isso, está numa posição estratégica. A meu ver, é isso que importa.

IHU On-Line – Certa vez, a Grã-Bretanha divulgou que abriria mão da soberania sobre as Ilhas Malvinas caso o povo que reside nelas fosse favorável a isso. Como o povo entende essa luta pela soberania?

Federico Lorenz – Eu estive nas Malvinas no ano passado. Contudo, foi uma grande surpresa ver habitantes ali, porque aprendemos que nas ilhas quase não se vê gente. Então, ali há uma população, o que é importante. É uma população que até 1982 era considerada como segunda categoria do império britânico. Depois da guerra, em 1983, passaram a ser cidadãos britânicos. É como se fossem londrinos ou escoceses ou galeses, ou seja, estão na mesma categoria. Então, o argumento britânico da autodeterminação dos habitantes das ilhas é falacioso, porque numa disputa pela soberania não se pode perguntar a um cidadão o que pensa sobre a situação. Isso é como se perguntássemos a um londrino se a Argentina tem direitos sobre um bairro de Londres, ou a um portenho se a Grã-Bretanha tem direitos de ocupar algum bairro da cidade de Buenos Aires. É um problema complexo, porque creio que se alguma coisa nós, argentinos, aprendemos é que não se pode ignorar o desejo das pessoas. Acredito que, em 1982, o governo militar que provocou o desembargo não deu importância às pessoas. Foi o mesmo que aconteceu conosco, pois o governo militar também não deu importância aos argentinos. Eles, os habitantes das ilhas, não se sentem argentinos, por isso é importante que se sustente sua identidade britânica, pois não se pode interferir na sua autodeterminação. Há uma raiz britânica cultural muito forte naquela região. É complicado também porque as Malvinas têm muitos elementos comuns com a Patagônia continental argentina, na medida em que no sul argentino também há muitíssimos colonos descendentes de ingleses, escoceses. Por isso, muitos habitantes das ilhas Malvinas são parentes de argentinos que vivem no continente. E a guerra rompeu com esse laço. A questão é bastante complexa, e precisamos pensar nessa situação de diversas maneiras sem esquecer jamais das pessoas que vivem lá.

IHU On-Line – De alguma forma, hoje, a Guerra das Malvinas possui ainda alguma influência sobre o povo argentino?

Federico Lorenz – No espaço acadêmico, nas áreas de pesquisas, são poucos os que trabalham a questão das Malvinas, à medida que elas estão associadas à ditadura. É inevitável pensar dessa forma porque a guerra provocou o fim da ditadura. Então,  durante muito tempo se pensava que se pesquisar sobre as Malvinas de algum modo serviria como apoio para a ditadura.

IHU On-Line – Por quê?

Federico Lorenz – Porque as Malvinas têm a ver com uma causa considerada legítima por muitos argentinos. Então, a ditadura produziu o desembargo em 1982 e provocou uma situação muito estranha. O regime de governo mais odiado da argentina causou um feito que, no consenso popular, é muito importante. Então, cada vez que se houve falar nas Malvinas, para muitos, significa experimentar esse sentimento contraditório. É algo que se considera legítimo, pois se apostava nos jovens que estavam lá. No entanto, foi produzido por uma ditadura que havia aplicado terrorismo de Estado, como soubemos depois das Malvinas. Então, esse tema continua muito quente, muito difícil de ser retomado e com diferentes significados para a população argentina, pois na Patagônia trata-se de uma coisa mais forte. Isso porque a base militar e as bases aéreas estavam na costa argentina e muita gente que vivia lá em 1982 passou muito mal, pois temia ser atacada. Não é o mesmo sentimento que eu tinha, pois vivia em Buenos Aires.

IHU On-Line – Quais são os resquícios políticos que a Argentina ainda tem desta guerra?

Federico Lorenz – As Malvinas provocaram a deteriorização rápida da ditadura. Acredito que voltamos antes à democracia exatamente pelo fato de que perdemos a guerra. Isso também é complicado, porque formamos a idéia de que a democracia havia se recuperado pela luta popular, pelos movimentos de direitos humanos, pela luta sindical. Isto está certo por um lado, porque, por outro, os militares ficaram muito desprestigiados com a derrota. Com isso, passamos a nos perguntar uma coisa muito importante: perdemos ou ganhamos a guerra? Creio que as Malvinas deixaram a possibilidade de pensar em outra forma de se fazer política e de relacionar-se com a idéia de nação.

Há também o resquício da perda humana, pois mais de 80% das pessoas que foram lutar nas Malvinas estavam no serviço militar obrigatório. Por outro lado, estavam convencidas de que não podiam deixar de ir. Há uma situação de muito respeito pelo que sofreram lá e também uma sensação de culpa por apostar na guerra e por colocarem os jovens naquelas condições.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre a possibilidade de criação de um Conselho Sul-Americano de Defesa?

Federico Lorenz – Creio que seja algo que vamos fazer e pode ser interessante se não se repetirem horrores como as Malvinas. É necessário ter muito cuidado para não criarmos um instrumento não voltado para os Estados Unidos, mas para a política latino-americana.

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