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23 Junho 2018

Uma viagem rumo à unidade, dissera o Papa Francisco, saudando os jornalistas no avião para Genebra, combinando alegremente a ideia de um trajeto geográfico com a de um itinerário ecumênico em curso.

A reportagem é de Brunetto Salvarani, publicada em Settimana News, 21-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao falar de ecumenismo, já nos acostumamos a recorrer a metáforas atmosféricas, para indicar o estado do caminho de encontro entre as Igrejas. Assim, nos anos imediatamente após o Concílio, prevalecia a indicação, cheia de esperanças, de uma futura primavera ecumênica, na sensação – de fato, generalizada em muitos ambientes – de que o tempo estava ficando bom; enquanto, na última década, especialmente após a terceira Assembleia Ecumênica Europeia de Sibiu (2007), tornou-se lugar-comum a referência a um outono ou até a um inverno ecumênico, bem distante do clima conciliar.

Além disso, agora, é legítimo pensar que, pelo menos, o inverno mais escuro está se encerrando, e vai se abrindo uma estação primaveril rica em potenciais desenvolvimentos futuros.

A peregrinação ecumênica do Papa Francisco, realizada na quinta-feira, 21 de junho, à cidade de João Calvino, com efeito, vai nessa direção, contribuindo para colocar no coração da identidade das Igrejas a sua relação fraterna.

Os 70 anos do CMI

A ocasião do evento foram as celebrações do 70º aniversário do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), principal agrupamento de Igrejas cristãs em escala mundial (a Igreja Católica, como se sabe, participa como observadora), que se abriu, também em Genebra, em fevereiro passado.

Trata-se do órgão mais amplo e inclusivo entre as diversas organizações do movimento ecumênico moderno, fundado em Amsterdã em 22 de agosto 1948 e formado hoje por 348 Igrejas-membros em 110 países, representando mais de 560 milhões de cristãos.

Ele inclui a maioria das Igrejas ortodoxas, inúmeras Igrejas protestantes históricas (anglicanas, batistas, luteranas, metodistas, reformadas) e diversas Igrejas independentes: uma comunhão de Igrejas reunidas para promover o diálogo e a reconciliação entre as diversas tradições cristãs.

Observe-se: seus membros fundadores provêm principalmente da Europa e da América do Norte, mas hoje a maioria dos membros se encontra na África, Ásia, Caribe, América Latina, Oriente Médio e Oceania.

Por estatuto, o principal objetivo do CMI é “chamar uns aos outros à unidade visível em uma única fé e em uma única comunhão eucarística”. O CMI é para seus membros um espaço de reflexão, ação, oração e compromisso comum.

Sua 10ª assembleia ocorreu em Busan, a segunda cidade da Coreia do Sul, de 30 de outubro a 8 de novembro de 2013, com o lema “Deus da vida, guia-nos à paz e à justiça”: tratou-se de uma oportunidade valiosa para medir o papel crucial da Ásia no panorama geopolítico, tanto em chave econômica quanto religiosa: pense-se, por exemplo, na notável força das grandes tradições espirituais de marca asiática, mas também na emergência da terceira Igreja no quadro de um cristianismo agora global.

Uma visita não apenas de cortesia

Agora, a escolha do Papa Francisco de se dirigir à Suíça para prestar homenagem ao trabalho ecumênico do CMI não foi sem significado, muito pelo contrário, representando um reconhecimento da contribuição única que tal órgão tem oferecido ao movimento ecumênico moderno.

Ainda no dia 2 de março, durante uma coletiva de imprensa conjunta no Vaticano, na presença do cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, o Rev. Olav Fykse Tveit, pastor luterano e secretário-geral do CMI, tinha dito que “a notícia da visita do papa é um sinal de como as Igrejas cristãs podem afirmar o nosso chamado e missão comum de servir a Deus juntos”.

E se, até poucos anos atrás, estávamos resignados ao inverno ecumênico, o próprio Tveit, que vem da Noruega, gosta de dizer que não há nada errado com o inverno: há apenas a necessidade de luvas e de roupas que nos mantenham aquecidos. E que, com Bergoglio e as suas iniciativas, está chegando uma nova primavera (chegando até a se referir a ele como “um marco histórico na busca da unidade dos cristãos e da cooperação entre as Igrejas por um mundo de justiça e de paz”).

Sua participação em Lund, na oração pela celebração do 5º centenário da Reforma (31 outubro a 1º de novembro de 2016) encorajou muito o movimento ecumênico geral: naquele âmbito, o lema das celebrações,Do conflito à comunhão, tornou-se vida.

Naturalmente, dirigindo-se para Genebra, Bergoglio seguiu os passos de dois de seus antecessores, Paulo VI (10 de junho de 1969) e João Paulo II (21 de junho de 1984). No entanto, não se tratou de um evento de pura cortesia, mas sim do fruto do compromisso pessoal do papa para alcançar o objetivo da unidade cristã.

Enquanto as viagens anteriores dos dois papas haviam sido dedicadas principalmente à Suíça e aos escritórios de Genebra das Nações Unidas na qualidade de chefes de Estado, Francisco – optando por não visitar nenhuma das agências internacionais que têm sede lá – dirigiu-se, acima de tudo, como chefe da Igreja Católica, bispo de Roma e sucessor de Pedro.

Caminhar, rezar e trabalhar juntos

O lema da jornada foi “Caminhar, rezar e trabalhar juntos”, ecoando o tema adotado pelo último encontro do CMI; mas também um slogan particularmente caro a Francisco – “caminhar juntos” – ao qual ele recorreu várias vezes para indicar o salto de qualidade que, em sua opinião, o movimento ecumênico é chamado a fazer na atual época histórica. E que encontrou em Genebra outra etapa, nada secundária: como ficou evidente desde o discurso papal da manhã, na capela na sede do CMI, destinado a se tornar um marco na história do movimento ecumênico.

Francisco rezou a “oração de arrependimento” e escutou a leitura de um trecho da Carta aos Gálatas.

E foi precisamente com base na situação dos Gálatas descrita por Paulo, que “experimentavam dificuldades e lutas internas e se enfrentavam, acusando-se mutuamente”, que o papa tomou a palavra para uma meditação pontual, indicando o que significa para o apóstolo caminhar juntos de acordo com o Espírito, rejeitar o mundanismo, escolher a lógica do serviço e progredir no perdão.

Na opinião do pontífice, o ecumenismo só poderá progredir se, caminhando sob a orientação do Espírito, rejeitar qualquer recuo autorreferencial. Com efeito, ao longo da história, “as divisões entre cristãos muitas vezes ocorreram porque, na raiz, na vida das comunidades, infiltrou-se uma mentalidade mundana”, fazendo prevalecer os interesses próprios: “Primeiro se alimentavam os interesses próprios, depois os de Jesus Cristo”.

Sim, “estar junto com os outros, caminhar juntos, mas com a intenção de satisfazer alguns interesses de parte. Esta não é a lógica do apóstolo, é a de Judas, que caminhava junto com Jesus, mas pelos seus negócios”.

Nessas situações, “o inimigo de Deus e do homem teve facilidade para nos separar, porque a direção que buscávamos era a da carne, não a do Espírito. Até mesmo algumas tentativas do passado de pôr fim a tais divisões falharam miseravelmente, por estarem inspiradas principalmente em lógicas mundanas”.

Caminhar segundo o Espírito – repetiu – significa escolher com santa obstinação o caminho do evangelho e rejeitar os atalhos do mundo. Para progredir no caminho ecumênico, portanto, é preciso “trabalhar em perda”, não pensando em tutelar apenas “os interesses das próprias comunidades, muitas vezes firmemente ligados a pertencimentos étnicos ou a orientações consolidadas, sejam elas mais conservadoras ou progressistas”.

Em vez disso, é necessário “escolher ser do Senhor antes que de direita ou de esquerda. Escolher o irmão, em nome do Evangelho, em vez de si mesmo, significa com frequência, aos olhos do mundo, trabalhar em perda. O ecumenismo é uma grande obra em perda. Mas se trata de perda evangélica”.

A meta é a unidade, enquanto o caminho contrário, o da divisão, leva a guerras e destruições, além de prejudicar “a mais sagrada das causas: a pregação do evangelho a toda criatura”.

E que “as distâncias que existem não sejam desculpas – concluiu Bergoglio resolutamente – porque é possível já agora caminhar segundo o Espírito: rezar, evangelizar, servir juntos, isso é possível e agradável a Deus!”.

O direito de esperar por todos

À tarde, deslocamo-nos para o Visser’t Hooft Hall. Aqui, Tveit salientou que, para chegar a esse dia, muitas pessoas em todo o mundo rezaram e que, com essa visita, é palpável a demonstração de que é possível superar as divisões e as distâncias, assim como os profundos conflitos causados pelas diversas tradições e convicções de fé: “O mundo em que vivemos tem uma desesperada necessidade de sinais que nos permitam nos reconciliarmos e vivermos juntos como uma única humanidade, preocupada com a vida da única terra, a nossa casa comum. Vemos assim tantas coisas que poderiam nos dividir, que criam conflitos, violências e guerras. A religião também é usada de modo impróprio para esses propósitos. As brechas entre ricos e pobres, entre povos de grupos e raças diferentes persistem e até aumentam. O nosso planeta é continuamente explorado e destruído, e a dignidade dos seres humanos é constantemente atacada, minando seus direitos e suas possibilidades de esperar em um futuro melhor juntos neste mundo. Devemos estar unidos na esperança de um futuro comum e compartilhado por todos. Todos temos o direito de esperar”.

Depois, concluiu que “não vamos parar por aqui. Vamos continuar, poderemos fazer muito mais juntos por aqueles que precisam de nós. Como hoje nós compartilhamos cada vez mais, façamos com que as próximas gerações possam criar novas expressões de unidade, justiça e paz!”.

Coube à moderadora do CMI, a teóloga anglicana natural do Quênia Agnes Abuom levar uma saudação especial ao ilustre convidado: “O senhor veio de Roma a Genebra – disse – e esperamos poder continuar o nosso caminho junto com o senhor como companheiros de peregrinação: levando conforto a quem sofre, celebrando o dom da vida de Deus e comprometendo-nos juntos em ações transformadoras que melhorem a vida das pessoas onde quer que haja necessidade de justiça e de paz”.

Para poder fazer isso de verdade, é indispensável que as Igrejas do CMI e a Igreja Católica trabalhem bem juntas em nível internacional e local.

No seu discurso, a teóloga repassou o compromisso das Igrejas nos vários países do mundo: “Esperamos – concluiu – que a sua visita realmente marque uma nova fase de cooperação e de unidade cristã”.

O que podemos fazer juntos?

Depois, o papa retomou a palavra, no seu segundo discurso, também bastante denso: “O CMI nasceu como instrumento daquele movimento ecumênico suscitado por um forte apelo à missão: como os cristãos podem evangelizar se estão divididos entre si?”.

Fazendo uma avaliação dos 70 anos do CMI, Francisco expressou um vivo agradecimento pelo compromisso com a unidade, mas também uma preocupação decorrente da impressão de que ecumenismo e missão não estão mais tão intimamente ligados como na origem (a referência implícita era ao Congresso Missionário de Edimburgo de 1910, considerado unanimemente como o ato de início do movimento ecumênico).

De fato, o mandato missionário, que é mais do que a diaconia e a promoção do desenvolvimento humano, não pode ser esquecido nem esvaziado: é a nossa identidade, e o anúncio do evangelho até os confins extremos é conatural ao nosso ser cristão.

É claro, o modo de exercer a missão varia de acordo com os tempos e os lugares e, diante da tentação, infelizmente recorrente, de se impor seguindo lógicas mundanas, é preciso lembrar que a Igreja de Cristo cresce por atração, não pelas nossas ideias, estratégias ou programas.

Um “novo impulso evangelizador”: para o papa, esse é “o tesouro que nós, frágeis vasos de barro, devemos oferecer a este nosso amado e atormentado. Se o impulso missionário aumentar, aumentará também a unidade entre nós”.

Caminhar, rezar, trabalhar juntos.” Na parte central do seu segundo discurso em Genebra, Francisco se deteve nos três verbos contidos no lema da jornada.

“Caminhar ‘em entrada’”, explicou, relançando temas que lhe são particularmente caros, “para nos dirigirmos constantemente ao centro”, que é Jesus, e “em saída”, isto é, “rumo às múltiplas periferias existenciais de hoje, para levar juntos a graça curadora do evangelho à humanidade sofredora”.

Na oração, assim como no caminho, também não podemos avançar sozinhos, eis o segundo imperativo, “porque a graça de Deus, mais do que esculpir-se à medida do indivíduo, difunde-se harmoniosamente entre os fiéis que se amam”. “Quando dizemos ‘Pai nosso’, ressoa dentro de nós a nossa filiação, mas também o nosso ser irmãos”. O exemplo escolhido pelo papa: “A oração é o oxigênio do ecumenismo. Sem oração, a comunhão se torna asfixiada e não avança, porque impedimos que o vento do Espírito a empurre para a frente”.

“Perguntemo-nos: quanto rezamos uns pelos outros?” A exortação em chave ecumênica: “O Senhor rezou para que fôssemos uma só coisa: imitamo-lo nisso?”.

Por fim, “trabalhar juntos”, recomendou Francisco. “A credibilidade do Evangelho é posta à prova pelo modo em que os cristãos respondem ao grito daqueles que, em todos os cantos da terra, são injustamente vítimas do trágico aumento de uma exclusão que, gerando pobreza, fomenta os conflitos.”

É a prova de fogo do ecumenismo, o fato de que os fracos são cada vez mais marginalizados, sem pão, trabalho e futuro, enquanto os ricos são cada vez menos e cada vez mais ricos: “Sintamo-nos interpelados pelo pranto daqueles que sofrem e sintamos compaixão”, porque “o programa do cristão é um coração que vê”: “Perguntemo-nos então: o que podemos fazer juntos? Se um serviço é possível, por que não projetá-lo e realizá-lo juntos, começando a experimentar uma fraternidade mais intensa no exercício da caridade concreta?”.

Em relação ao outro

No fim da densa jornada de Genebra, que terminou com uma festiva eucaristia celebrada para a Igreja local, mas que também foi a oportunidade para tocar com a mão na duradoura divisão dos cristãos nesse âmbito crucial e os passos ainda a serem dados, foram muitos os motivos de consolação para o povo do diálogo.

Isso foi bem captado: prosseguindo juntos rumo à plena unidade, os cristãos podem apreciar melhor o seu patrimônio comum e tornarem-se mais conscientes daquilo que já compartilham; ao mesmo tempo, desse modo, poderão enfrentar melhor as diferenças ainda a serem superadas, especialmente no que se refere às questões doutrinais ou morais.

Um diálogo cuja perspectiva pareceria residir na unidade na diversidade reconciliada, de acordo com a exortação Evangelii gaudium (n. 230.): até adotar uma linguagem típica do movimento ecumênico, ecumenismo não como esfera da uniformidade, mas como poliedro, unidade com todas as partes diferentes, em que cada uma tem a sua peculiaridade.

Para o Papa Francisco, portanto, a identidade cristã nunca poderá ser compreendida através da negação do outro, como muitas vezes aconteceu na história das Igrejas, mas apenas e constantemente em relação ao outro, captado na sua irredutível diversidade.

Trata-se de um processo centrípeto, em contraste com as dinâmicas fortemente centrífugas que caracterizam este tempo da globalização, o que também poderia significar muito fora dos tradicionais recintos religiosos.

E, como Francisco disse e mostrou concretamente mais uma vez em Genebra, hoje, não é mais possível ignorar uma estrada.

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