''Deve-se acolher os migrantes, mas com prudência. É preciso um plano para a África.'' Entrevista com o Papa Francisco

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22 Junho 2018

Francisco fala no voo de volta da visita à Suíça: “Um país deve acolher tantos quantos puder integrar, educar, dar trabalho. O problema é o tráfico de migrantes: algumas prisões na Líbia são como os campos de concentração nazistas”. O pontífice pede uma espécie de Plano Marshall para a África: “Ela não pode ser explorada”. A Itália, “generosíssima”.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada em La Repubblica, 21-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele intervém sobre os migrantes para dizer que os critérios são os mesmos de sempre: “Acolher, acompanhar, organizar, integrar”. Mas que cada governo “deve agir com a virtude da prudência, porque um país deve acolher tantos quantos puder integrar, instruir, dar trabalho”.

A Itália e a Grécia fizeram muito, diz, assim como o Líbano, a Jordânia e a Espanha. No entanto, adverte, permanece um problema, que é o do “tráfico de migrantes” e das “prisões líbias: mutilam, torturam e depois jogam nas valas comuns”.

Por isso, pede uma espécie de Plano Marshall para a África: “Um plano de emergência para investir nesses países e para dar trabalho e educação”. A África não pode ser “explorada”, é preciso investir.

Assim disse Francisco na coletiva de imprensa no voo de volta de Genebra, onde participou de uma jornada ecumênica com altas confissões cristãs.

Eis a entrevista.

Santo Padre, vimos o que aconteceu com o navio Aquarius entre a Itália e a Espanha, e a separação das famílias nos Estados Unidos. O senhor acha que os governos exploram o drama dos refugiados?

Falei muito dos refugiados, e os critérios estão naquilo que eu disse: acolher, acompanhar, organizar, integrar. São critérios para todos os refugiados. Depois, eu disse que cada país deve fazer isso com a virtude do governo, que é a prudência, porque um país deve acolher tantos quantos puder, e quantos puder integrar, educar, dar trabalho. Esse é o plano tranquilo, sereno sobre os refugiados.

Estamos vivendo uma onda de refugiados que fogem de guerras e da fome. Guerras e fome em muitos países da África, perseguições no Oriente Médio. A Itália e a Grécia foram generosíssimas em acolher. Para o Oriente Médio, a Turquia e a Síria receberam muitos deles, o Líbano também. O Líbano tem muitos sírios libaneses, a Espanha também fez muito. Mas há um problema com o tráfico de migrantes e também há o problema quando, em alguns casos, os migrantes têm que voltar atrás por causa de acordo (repatriações). Vi as fotografias das prisões dos traficantes na Líbia. Os traficantes separam imediatamente as mulheres e as crianças dos homens. Só Deus sabe para onde vão as mulheres e as crianças. E as prisões para aqueles que voltaram são terríveis: nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial se viam essas coisas. E até mutilações, e depois os jogam nas valas comuns.

Por isso, os governos se preocupam para que não voltem e não caiam nas mãos dessas pessoas. Existe uma preocupação mundial. Sei que os governos falando disso e querem encontrar um acordo, modificar o de Dublin. Na Espanha, vocês tiveram o caso deste navio que chegou em Valência. Tudo isso é uma desordem. O problema das guerras é difícil de resolver; assim como o problema da perseguição dos cristãos no Oriente Médio e na Nigéria. Muitos governos europeus estão pensando em um plano de emergência para investir nesses países para dar trabalho e educação. Digo uma coisa que parece ofender, mas é a verdade: no inconsciente coletivo, há um pensamento feio. A África deve ser explorada. São considerados escravos, e isso deve mudar com planos de investimento, de educação, para fazer crescer, porque o povo africano tem tantas riquezas culturais e tem uma inteligência grande. São crianças inteligentíssimas que, com uma boa educação, podem ir além.

Esse será o caminho a médio prazo. Mas os governos devem se pôr de acordo e seguir em frente em relação a essa emergência. Nos Estados Unidos, por outro lado, há um problema migratório grande e também na América Latina: o problema migratório interno. Pessoas que deixam o campo porque não tem trabalho e que vão para as grandes cidades nas favelas. E depois há uma migração externa. Concretamente, no que diz respeito aos Estados Unidos, digo aquilo que os bispos locais dizem. Coloco-me do lado deles.

O senhor acha que é o caso de a Igreja Católica se reunir com as Igrejas da paz e deixar de lado a chamada “guerra justa”?

Hoje, no almoço, um pastor me disse que o primeiro direito humano é o direito à esperança, e eu gostei disso. Falamos sobre a crise dos direitos humanos hoje. Vê-se claramente a crise dos direitos humanos. Fala-se dos direitos humanos, mas muitos grupos se distanciam. Sim, os direitos humanos, mas depois não há força, entusiasmo, condições. E isso é grave, porque devemos ver as causas, quais são as causas pelas quais chegamos ao fato de que hoje os direitos humanos são relativos. O direito à paz também é relativo. É a crise dos direitos humanos.

Todas as Igrejas que têm esse espírito de paz devem se reunir e trabalhar juntas: a unidade pela paz. Essa terceira guerra mundial, se for feita, sabemos com quais armas... Mas, se houvesse uma quarta, seria feita com bastões, porque a humanidade estará destruída. Se pensarmos no dinheiro que são gastos em armamentos... A paz é o mandato de Deus. Hoje os conflitos não se resolvem mais com a negociação, a mediação está em crise, crise de esperança, de direitos humanos, de paz. Existem religiões de paz: mas existem religiões de guerra? É difícil entender isso. É difícil, mas certamente há alguns grupos em quase todas as religiões, grupos pequenos, de fundamentalistas: buscam as guerras. Também nós, católicos, temos alguns. Buscam sempre a destruição, e é importante ter isso debaixo dos olhos.

Qual foi o momento do dia de hoje mais significativo para o senhor?

Encontro, foi um dia de encontros, variados. A palavra certa do dia é encontro. Quando alguém encontra outra pessoa, sente o prazer do encontro, e isso toca o coração. Foram encontros positivos, iniciados com o diálogo com o presidente, que foi um diálogo de cortesia, um diálogo profundo sobre temas mundiais profundos e com tamanha inteligência que fiquei admirado. Depois, encontros que vocês não viram, no almoço, que me impressionaram muito pelo modo com que tantos assuntos foram levantados. Talvez o assunto sobre o qual ficamos falando por mais tempo foi o dos jovens. Todas as confissões estão preocupadas, e o pré-Sínodo que foi realizado em Roma a partir do dia 19 de março chamou muito a atenção, porque havia 315 jovens até mesmo agnósticos provenientes de todos os países. Isso marcou um interesse especial. A palavra que me dá a totalidade da viagem é encontro. Foi uma viagem do encontro, a experiência do encontro, nenhuma descortesia, um encontro humano.

O senhor fala muitas vezes sobre passos concretos no ecumenismo. Hoje, novamente falou sobre isso, dizendo: “Vejamos o que é possível fazer concretamente em vez de nos desencorajarmos com aquilo que não é”. Os bispos alemães decidiram dar um passo (sobre o tema da comunhão nos casamentos mistos entre católicos e protestantes). Por que o arcebispo Luis Ladaria escreveu uma carta que, ao contrário, parece dar um passo atrás? Depois do dia 3 de maio, disse-se que os bispos deviam encontrar uma solução por unanimidade. Quais são os próximos passos? Haverá uma intervenção do Vaticano?

Isso não é uma novidade, porque, no Código de Direito Canônico, está previsto aquilo de que os bispos alemães falam: a comunhão nos casos especiais. Eles falavam do problema dos casamentos mistos. O Código diz que o bispo da Igreja particular deve decidir, a coisa está nas suas mãos. Isso diz o Código. Os bispos alemães estudaram por mais de um ano. O documento publicado foi feito com espírito eclesial. E propuseram o documento à Igreja local. Mas o Código prevê que o bispo se expresse sobre o assunto, e não a Conferência Episcopal, porque algo aprovado na Conferência Episcopal se torna universal, e essa foi a dificuldade encontrada. Houve dois ou três encontros de diálogo, e Ladaria enviou a carta, mas com a minha permissão, ele não fez isso sozinho. Eu disse sim: é melhor dizer que se deve estudar mais.

Houve a reunião, e eles vão estudar a coisa para um novo documento. Acho que será um texto orientativo, para que cada um dos bispos diocesanos possa gerir aquilo que o Direito Canônico já lhes permite. Nenhuma freada, portanto, trata-se apenas de sustentar a coisa, para que vá por um bom caminho. Quando eu visitei a Igreja Luterana de Roma, respondi de acordo com o Código de Direito Canônico, que é o espírito que eles buscam agora. Uma palavra que eu quero dizer em conclusão é que hoje foi um dia ecumênico. No almoço, dissemos uma coisa bonita: no movimento ecumênico, devemos tirar uma palavra do dicionário: proselitismo. Não pode haver ecumenismo com proselitismo. Ou se tem um espírito ecumênico ou se é um “proselitista”.

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