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21 Junho 2018

Poucas pessoas na Austrália podem dizer que estão mais empenhadas em juntar as peças após a recém concluída Comissão Real sobre o Abuso Sexual Institucional, que criticou fortemente a Igreja Católica, do que o arcebispo Mark Coleridge, eleito presidente da Conferência dos Bispos no mês passado.

A entrevista é de Inés San Martín, John L. Allen Jr e Christopher White, publicada por Crux, 20-06-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Apesar das críticas, que incluem acusações de dois dos clérigos mais famosos da Austrália, Philip Wilson, arcebispo de Adelaide, e o cardeal George Pell, czar das finanças do Vaticano, Coleridge tem convicção de que é necessária uma "mudança de cultura" para combater o abuso sexual clerical - a qual já está acontecendo.

"Não há espaço algum para complacência, mas há espaço para incentivo", disse Coleridge ao Crux, em Roma, na segunda-feira.

O prelado australiano está na cidade eterna durante esta semana para participar da conferência anglófona anual sobre proteção, a “Anglophone Safeguarding Conference”, que ocorre desde o início dos anos 2000, reunindo conferências episcopais do mundo anglófono sob a égide do Centro de Proteção à Criança de Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Entre outras coisas, Coleridge conversou com o Crux sobre o papel dos leigos na resolução do problema, porque se "houvesse mais leigos envolvidos em funções de tomada de decisão, não teríamos tido a catástrofe que temos agora".

"Não há como negar que, em geral, o clericalismo foi o cerne do problema - e ainda é. Parte da mudança de cultura que estamos tentando promover é quebrar com esse clericalismo. Portanto, obviamente, os leigos precisam assumir responsabilidades que são novas na Igreja Católica", observou.

A entrevista de Coleridge ao Crux foi transmitida na segunda-feira, no programa de rádio Crux of the Matter, que vai ao ar toda segunda-feira, às 13h (EST), no Catholic Channel, na Sirius XM 129.

Eis a entrevista.

O senhor está aqui para a Conferência Anglófona. Pode nos dizer o que é e o que está em pauta?

As primeiras reuniões, no início de 2000, foram realizadas, acredito, nas Ilhas Britânicas, mas foi decidido que Roma era uma base melhor, e o Centro para a Proteção de Menores da Universidade Gregoriana ficou muito interessado, particularmente com a direção de Hans Zollner, que tem sido uma figura chave da conferência nos últimos anos.

A ideia é que várias conferências episcopais do mundo anglófono, ou seja, uma grande variedade, se reúnam uma vez por ano, não apenas os bispos, mas quem trabalha nessa área de proteção à criança, para compartilhar nossa sabedoria, perguntas, recursos, sobre o entendimento de que para ver a complexidade e a escala da questão de proteção à criança precisamos de toda informação que pudermos obter.

Essa conferência, que é realizada todo ano, mais ou menos na mesma época, na Universidade Gregoriana, reúne as conferências episcopais anglófonas, ou seja, Austrália, Estados Unidos, Ilhas Britânicas, Canadá, África, Ásia, e vários outros - são muitos lugares.

Pegamos um tema específico, este ano o tema é 'Proteção à criança e cultura’. É um tema vasto, porque foi um tipo de cultura ou aspectos sombrios da cultura que permitiram que acontecessem os abusos e encobrimentos que se seguiram. Estamos tentando analisar esse fenômeno e ver o que pode ser feito, que é o mais difícil, como todos sabemos. Na Comissão Real na Austrália, disseram que 'a cultura se alimenta de estratégia'.

Podemos falar de estratégia e estrutura o quanto quisermos, mas se não modificarmos a cultura estamos adotando uma abordagem paliativa.

Outra coisa interessante sobre a conferência - e que tem se tornado verdade nos últimos anos - é a colaboração entre as igrejas locais e a Igreja universal. E essa colaboração é crucial. A Santa Sé demorou para embarcar nisso de certa forma, mas acredito que Zollner, o jesuíta alemão aqui da Universidade Gregoriana, foi uma figura crucial para que a Santa Sé se envolvesse com mais vigor.

Portanto, realmente, não se trata apenas de as igrejas anglófonas se reunirem, são as igrejas locais e a Igreja universal. Neste sentido, é algo poderoso. Nesta edição, temos cerca de 75 participantes, alguns bispos, e outros que são religiosos e leigos. A diversidade de personagens, culturas e origens é fascinante.

Fui convidado para fazer uma apresentação sobre os fatores culturais que estão em jogo em casos de abuso e no encobrimento. Eu queria muito aceitar o convite, porque tenho pensado sobre isso há 25 anos e cheguei a escrever sobre isso. Eu disse a mesmo: em circunstâncias normais, eu não estaria nessa reunião, mas ao ver o convite fiquei muito feliz de poder vir e compartilhar o pouco de sabedoria que adquiri depois de ponderar tanto e com tanta dor.

O senhor falou sobre a importância da mudança cultural e sobre a união das igrejas locais e da Igreja Universal. Mas, muitas vezes, quando falamos sobre essas questões, reduzimos a Igreja ao clero e aos religiosos. Que papel se espera dos leigos e que também precisamos permitir que eles desempenhem na mudança cultural em relação ao abuso sexual clerical?

Acho que se a mudança fosse relegada apenas ao clero e aos religiosos, a cultura não mudaria. Acho que os leigos, os batizados, que são a maioria da Igreja, têm um papel crucial. Não olhei a composição deste grupo de 75, mas acho que pelo menos metade seria leigos. E estão em papéis cruciais, realmente.

Como muitas vezes se disse, e é difícil contestar, se houvesse mais leigos envolvidos em funções de tomada de decisão, não teríamos tido a catástrofe que temos agora. Não é uma opção, e acho que está no cerne desta mudança cultural.

Quebrar os padrões do clericalismo foi algo que surgiu com extraordinária clareza na Comissão Real da Austrália. O clericalismo foi o cerne do problema. Como se define o clericalismo é algo teleológico.

Não há como negar que, em geral, o clericalismo foi o cerne do problema - e ainda é. Parte da mudança de cultura que estamos tentando promover é quebrar com esse clericalismo. Portanto, obviamente, os leigos precisam assumir responsabilidades que são novas na Igreja Católica. Isso se aplica a Roma, e acho que o Papa Francisco entende isso. E também se aplica a lugares como a minha própria diocese de Brisbane e em toda a Austrália. É um grande desafio.

Estamos vendo diálogos interessantes a respeito disso no México, onde o arcebispo da Cidade do México, a diocese e a SNAP anunciaram que vão trabalhar juntos como um todo.

Já vi isso. É algo que eu gostaria de fazer: trabalhar mais de perto com grupos de vítimas de abuso. Não é fácil, nem todos os grupos têm interesse em trabalhar com os bispos. Mas tenho muito interesse em ver o que está acontecendo no México. Gostaria de saber mais, saber sobre a forma que vai ter e sobre seu surgimento.

Ações pastorais para atingir as vítimas é outro elemento importante da mudança cultural. Como trabalhamos com eles? Porque houve um sentido tão forte de antagonismo que temos de ir além para progredir.

Estamos prestes a testemunhar uma sentença com o arcebispo Philip Wilson em Adelaide, e o Vaticano interveio indicando um novo administrador. Como o senhor, na posição de presidente da Conferência Episcopal Australiana, orienta uma resposta pastoral não apenas a esta diocese, mas a um escândalo de abuso que realmente atormentou a nação?

O impacto simbólico do julgamento e da condenação do arcebispo Wilson na Austrália é enorme, mas não apenas na Austrália. É uma espécie de limite para a Igreja universal, e eu penso que as pessoas entendem isso em Roma. Talvez a sentença saia amanhã, e é possível que ele receba uma pena de privação de liberdade, o que seria uma humilhação derradeira.

Isso tem sido traumático para ele pessoalmente, e digo isso de um homem que foi um grande amigo ao longo dos anos, por isso falo sobre o assunto de forma muito pessoal, e não apenas institucionalmente. O que foi dito sobre ele me parece injusto, falso e cruel. Isso o afetou fisicamente, e acho que minou sua capacidade de governar de forma permanente, independentemente do resultado de quaisquer recursos.

Cheguei ao ponto de apoiar fortemente um administrador apostólico, e foi uma sorte poder contar com o arcebispo O'Kelly. Ele foi o parceiro ideal sob vários aspectos. Por muitos motivos, ele foi o homem certo para uma situação tumultuada, não só na vida do arcebispo Wilson, mas também na diocese de Adelaide.

E também é preciso ter em mente que o cardeal [George] Pell, que é ainda mais conhecido do que o arcebispo Wilson também está enfrentando dois processos. É difícil saber o que está acontecendo com o cardeal Pell... Há muita fofoca, mas é difícil saber os fatos.

Não é o arcebispo Wilson sozinho ou isolado. É parte de uma configuração maior. E, de certa forma, seja qual for a integridade do processo legal, que tem de ser respeitada, obviamente, mas é difícil resistir ao sentido de que há algum elemento de determinação de fazer cabeças rolarem. Não quero ir muito adiante, mas é difícil resistir a isso no caso do arcebispo Wilson e do cardeal Pell.

Teve um grande impacto na Igreja da Austrália. O que vai significar a longo prazo, é difícil saber. Mas certamente significou que eu, que recentemente fui nomeado líder da Conferência Episcopal da Austrália, tive um batismo de fogo com as consequências da Comissão Real, mais esses processos contra dois dos nossos principais bispos.

Tem sido muito intenso. Por estar em Roma neste momento tenho a reunião sobre proteção na Universidade Gregoriana, mas também tenho uma série de reuniões na Cúria. E uma das coisas que já me impressionou nos dias em que estive aqui é que as pessoas parecem estar determinadas a me ajudar no Vaticano.

Que, como você deve lembrar neste caso em particular, nem sempre foi o caso...

Não, acho que houve alguma confusão em como responder. Uma das das minhas impressões é que as pessoas têm boas intenções, e são pessoas muito competentes, mas ainda não sentaram em torno de uma mesa para ouvir as vítimas. Não cooptaram a raiva ou ouviram as histórias, e não há como saber com o que se está lidando até fazer isso. Não é culpa deles, eles não estão acostumados com o jeito de um bispo diocesano.

Houve mudanças muito significativas recentemente. E o que vejo aqui, fortemente, na Secretaria de Estado e outros órgãos, como a Comissão para a Proteção de Menores, é uma vontade genuína de ajudar. E também uma capacidade de pensar criativamente sobre como fazer isso.

O senhor lembra de como era a atmosfera aqui em 2002-2003, quando a crise explodiu nos Estados Unidos...

Era totalmente diferente. Eram mentes extraordinárias de Roma dizendo que se tratava de "um problema do mundo anglófono". O que sabemos agora é que o abuso sexual infantil está em toda parte, mas se estrutura de forma diferente de cultura para cultura.

Me sinto muito encorajado, pelas conversas que já tive com pessoas no Vaticano desde que assumi esta posição, com o fato de que há uma determinação para trabalhar com todas as igrejas locais para realmente tentar, em primeiro lugar, compreender o fenômeno e sua escala e complexidade, e depois agir, não apenas no discurso ou em outra discussão, mas agir de verdade.

Por outro lado, penso que toda a questão do Chile teve um impacto tremendo e não é de se surpreender.

Não há espaço algum para complacência, mas há espaço para incentivo.

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