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07 Maio 2018

Em 5 de maio, comemora-se o 200º aniversário de nascimento de Karl Marx. É uma oportunidade para rever este personagem, que deixou uma profunda marca na história dos últimos dois séculos, com um olhar livres das paixões e dos preconceitos do passado e nos perguntarmos o que resta de sua doutrina e de seu pensamento e tentar resgatar o que ainda é válido.

Marx, além de jornalista, era um político, filósofo e economista muito atento aos fenômenos sociais; era alguém que pretendia desenvolver e colocar em prática as grandes intuições da Revolução Francesa, embora, depois, muitas de suas ideias foram manipuladas e distorcidas por uma determinada cultura e, principalmente, pelos regimes que se serviram delas para justificar todo tipo de atrocidades e injustiças. Sua figura, no entanto, ainda hoje continua a ser objeto de estudo.

Deixando para estudiosos e historiadores essa difícil tarefa, publicamos aqui o que o cardeal Reinhard Marx declarou nos últimos dias em duas entrevistas: a primeira concedida ao Rheinische Post online e editada por Ludwig Ring-Eifel (20 abril de 2018) e a segunda, no Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (30 de abril de 2018) e reproduzida de forma resumida pela agência KNA.

O card. Reinhard Marx é o atual presidente da Conferência Episcopal Alemã e arcebispo da diocese bávara de Mônaco-Freising. Ele também se chama Marx, um sobrenome bastante comum em sua terra natal, a Renânia do Norte-Vestfália. Também foi bispo de Trier, a terra de origem de Karl Marx, onde este nasceu em 5 de maio de 1818. Em seus estudos, o cardeal sempre foi muito interessado na doutrina social e também escreveu um livro intitulado significativamente "Das Kapital".

A entrevista é de Ludwig Ring-Eifel e KNA, publicada por Rheinische Post e reproduzida por Settimana News, 03-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Marx, o senhor abordou muitas vezes seu homônimo Karl Marx. Por que um arcebispo está interessado em Karl Marx que foi um dos mais ferrenhos críticos da Igreja e dos "padres"?

A doutrina social católica sempre estudou muito Marx; daí a afirmação de Oswald von Nell-Breuning [1], "Estamos todos sobre os ombros de Karl Marx." Isso não significa que ele seja um pai da Igreja. Mas a sua posição sempre foi um ponto de discussão para a doutrina social católica. Em grande parte como uma rejeição crítica, mas também como questionamento: "o que significa de forma concreta o que movia esse homem? Sua análise do capitalismo é correta?".

É possível separar a reflexão sobre suas teorias dos crimes cometidos em seu nome?

Não é possível simplesmente absolvê-lo do que derivou delas; mas, também, ele não deve ser considerado responsável por tudo que foi cometido em decorrência de suas teorias, até os gulags de Stalin. Talvez, após o fim do socialismo real na Europa, seja possível ter um olhar mais imparcial sobre sua filosofia. Marx é um pensador que contribuiu para moldar a nossa época, inclusive em sentido negativo.

Quais as teses de Marx que ainda podem ser consideradas atuais hoje?

Marx era um agudo analisador do capitalismo. Ele reconheceu de maneira correta uma coisa: quando os interesses no uso global do capital constituem o fator determinante de todo o desenvolvimento, o capitalismo entra em aporias insolúveis. Repetindo isso com as minhas palavras: quando se combina o imperativo tecnológico "o que é tecnicamente possível, o que pode ser feito" com o econômico "o que gera lucros, que não deve ser impedido", ligando-o com a moral do mal menor, isso conduz ao abismo. Muitas coisas que ele mencionou, podemos vê-las só agora em toda a sua amplitude.

Hoje começamos a ver que efeitos políticos e ecológicos teve um capitalismo mundial, global e sem freios.

A doutrina social católica nunca negou a análise marxista do capitalismo e das ameaças que dele decorrem. Apenas enfatizou a necessidade de haver um controle e uma sua correção.

Karl Marx obrigou a refletir sobre questões que não foram resolvidas. Isto também se aplica ao caráter fetichista dos bens e da alienação.

Por que a doutrina social católica é menos conhecida do que a doutrina de Karl Marx ou de seu oposto liberal Adam Smith?

Realmente não me atrevo a duvidar de que Karl Marx e Adam Smith sejam realmente conhecidos e lidos. Marx durante a sua vida nunca construiu qualquer sistema de teoremas. Isso aconteceu mais tarde, tornou-se quase uma religião de Estado. E, naturalmente, dessa forma, o seu alcance foi ampliado. Em comparação, a doutrina social católica não parece ter tido um efeito tão vistoso e retumbante. Mas a influência da doutrina social católica e do movimento social no sec. 19 foi grande e intensa. Na verdade, na historiografia, costuma ser analisado principalmente o movimento operário socialista, mas entre as primeiras associações operárias havia as católicas, inspiradas pelo bispo von Ketteler; isso, porém, é muitas vezes esquecido. Até o final do século 20, essa doutrina exerceu uma considerável influência sobre o desenvolvimento do estado social.

Em maio de 2018, não só são rememorados os 200 anos de Marx, mas também o movimento de protesto estudantil de 50 anos atrás. Para seus protagonistas, os ensinamentos de Marx representavam quase uma Bíblia. Como isso aconteceu?

Às vezes eu também me pergunto isso. Mas quando você começar a ler seus escritos, logo fica fascinado. Marx também era jornalista e sabia escrever de forma incisiva. O Manifesto Comunista possui um apelo que podia ser sentido mesmo cem anos depois, naqueles que em 1968 diziam: quem governa nesse país? onde está o sujeito revolucionário? como pode acontecer a grande inversão? O capital reina - esta era a opinião - ou seja, Marx, que já então era contrário, oferece-nos respostas para o presente. Isso naturalmente foi pensado de forma demasiado apressada. Mas a inspiração estava lá dentro, havia um apelo revolucionário nos escritos de Marx, ou seja, que era preciso reinventar tudo de novo, e isso inspira as pessoas radicalmente insatisfeitas com a situação. Basta ler Marx com o coração livre, e então se percebe que sua força é incrível.

Karl Marx não encontrou seguidores somente nos protestos estudantis. Sua influência também se estendeu à Igreja, por exemplo, na Teologia da Libertação.

Para Marx, o que importa é o gênero humano. Ele não leva em consideração o indivíduo. Para nós, cristãos, o foco é sobre a pessoa. Embora historicamente nem sempre o tenhamos posto em prática, no entanto, sabemos que nenhum objetivo pode ser perseguido em detrimento do homem, como pensa o marxismo, mas o homem como pessoa sempre está no centro, cada pessoa individual.

O Papa Francisco, descreveu a relação entre cristãos e marxistas, dizendo: "Eles nos roubaram a bandeira!"

Eu tento entender o que ele quis dizer. Para a Alemanha, a declaração não corresponde inteiramente à verdade, pois aqui já havia de fato o movimento operário católico. Mas, por outro lado, se olharmos para a Igreja do século 19, deve ser dito que não era a maioria. O bispo von Ketteler era um outsider no episcopado. Na América Latina foi ainda diferente. Em qualquer caso, nós não deveríamos ter-nos deixado roubar por um capitalismo desenfreado a bandeira da justiça em prol dos trabalhadores e a solidariedade pelos que são desrespeitados.

A seguir publicamos a entrevista do Cardeal Marx concedida ao Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung:

O cardeal Reinhard Marx concedeu outra entrevista ao Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (30 de abril de 2018), em que destaca alguns valores positivos que se encontram em Karl Marx, e que são válidos também para o mundo de hoje.

O cardeal disse que vê em Karl Marx um importante corretivo para o capitalismo e que ficou muito impressionado com a leitura do Manifesto Comunista "porque foi escrito com uma linguagem impressionante." As análises de Marx - ele destacou - também contribuíram decisivamente para o nascimento da doutrina social católica, a ponto que poderia se dito que, sem Karl Marx, não haveria doutrina social católica.

Em seguida, acrescentou citando Karl Marx, que "o bem-estar e o lucro não representam tudo o que uma sociedade deve almejar"; e que o mercado não leva automaticamente para uma sociedade justa.

O cardeal também chamou a atenção para as "enormes desigualdades sociais e os danos ecológicos de que é responsável o dinamismo capitalista". As melhorias acontecidas, afirmou ele, "não são conquistas do capitalismo, mas o resultado de uma luta contra tais abusos." Isso também é devido a Karl Marx. "O mercado não é tão inocente - como aparece em seus Manuscritos Econômico-Filosóficos - porque há enormes interesses que estão por trás dele."

O card. Marx alertou contra a busca exclusiva das "melhorias materiais". É preciso olhar também para "aqueles que carregam os pesos e quem é perdedor." Karl Marx havia afirmado que "os direitos humanos, sem a participação, permanecem incompletos." Marx deixou claro que "é preciso olhar para a realidade concreta." Ao dar ênfase ao empirismo "ele é um dos primeiros cientistas sociais que devem ser levados a sério."

Para marcar o 200º aniversário do nascimento, o card. Marx gostaria de perguntar ao seu homônimo Karl Marx se lhe causa irritação o que os homens fizeram de suas ideias. De fato, se não é possível "historicamente separar um pensador do que os outros mais tarde fizeram em seu nome", também é verdade que Karl Marx não é responsável pelos crimes cometidos pelo stalinismo.

Em seus escritos - acrescentou o cardeal – pode ser encontrado, aqui e ali, algum pensamento totalitário, como o coletivismo que não leva em consideração o indivíduo. No entanto, não é possível ligar diretamente Karl Marx com o sucessivo marxismo-leninismo político ou com os campos de trabalho forçado ou as prisões punitivas soviéticas. A liberdade é indivisível. "A liberdade econômica sem aquela política não pode funcionar; até mesmo a China "não pode convencer do contrário."

Marx também traçou uma linha sobre o atual populismo de direita e a xenofobia. As raízes estão em uma nova divisão social. "Quando entre as pessoas, há um sentimento de que a sociedade não oferece a todos as mesmas oportunidades de justiça, é algo politicamente muito perigoso". E, onde o único alvo é o crescimento econômico e não os interesses de todos, a coesão social se dissolve.

Marx em uma nova perspectiva

Se não é possível "historicamente separar um pensador do que outros mais tarde fizeram em seu nome" é "também verdade que ele não deve ser considerado responsável por tudo que foi cometido como resultado de suas teorias, culminando com os gulags de Stalin". Palavras do arcebispo de Munique e Freising, cardeal Reinhard Marx, que oferece uma reflexão por outra perspectiva sobre o seu famoso homônimo, o pensador de Trier. Aquele Karl Marx, o fundador da ideologia que leva seu nome e que, independente de todos os juízos, sem dúvida influenciou os dois últimos séculos de história. A ocasião são precisamente os duzentos anos (5 de maio de 1818) do nascimento do pensador que escreveu O Capital.

O cardeal, presidente da Conferência Episcopal da Alemanha e ex-bispo justamente de Trier, nestes últimos dias concedeu duas entrevistas, ao 'Rheinische Post' e ao 'Frankfurter Allgemeine Zeitung', em que, como estudioso da doutrina social da Igreja, procura analisar por outro ponto de vista o pensamento de quem, para muitas pessoas, sempre foi considerado como "um dos mais ferrenhos críticos da Igreja e dos ‘padres’". No entanto, afirma o prelado: "talvez, após o fim do socialismo real na Europa, é possível ter um olhar mais imparcial sobre sua filosofia." Porque" Marx é um pensador que contribuiu para moldar a nossa época". Claro que, "até mesmo em sentido negativo". Mas não só.

Em suma, "Marx comemora Marx", como sintetiza Settimananews, o site da rede dos dehonianos italianos. Para o cardeal, de fato, Marx "foi um agudo analisador do capitalismo" e "hoje começamos a ver que efeitos políticos e ecológicos teve um capitalismo mundial, global e sem freios". De fato, "quando se combina o imperativo tecnológico, ‘o que é tecnicamente possível, o que pode se feito’ com o econômico ‘o que gera lucros, que não deve ser impedido’, ligando-o com a moral do mal menor, isso conduz ao abismo. Muitas coisas que ele mencionou, podemos vê-las só agora em toda a sua amplitude". Nesse sentido, para o cardeal Marx, que revela sempre ter sido fascinado pela leitura dos textos de seu homônimo, a doutrina social católica tem uma dívida significativa de reconhecimento com o pai da doutrina marxista. "Estamos todos sobre os ombros de Karl Marx", diz o arcebispo citando o jesuíta Oswald von Nell-Breuning. "Isso não significa - explicita o cardeal - que seja um pai da Igreja. Mas a sua posição sempre foi um ponto de discussão". Em todo caso, ele conclui, "não deveríamos ter-nos deixado roubar por um capitalismo desenfreado a bandeira da justiça em prol dos trabalhadores e a solidariedade pelos que são desrespeitados."

Nota:

[1] Oswald von Nell-Breuning (1890 – 1991) – jesuíta, um dos mais importantes teóricos da assim denominada Doutrina ou Ensino Social da Igreja. (Nota de IHU On-Line).

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