Católicos da Rússia recordam "mártires do gulag" 100 anos após a revolução de Lênin

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24 Outubro 2017

Quando chegar o centenário da revolução bolchevique, neste outono, as comunidades cristãs ao redor de toda a antiga União Soviética marcarão as perseguições que ela desencadeou.

Mas também recordarão as meditações religiosas que surgiram nas prisões e nos campos de trabalho forçado do país, algumas das quais merecem ser classificadas como as melhores da história cristã.

A reportagem é de Jonathan Luxmoore, publicada por National Catholic Reporter, 23-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

"Os sofrimentos da era soviética afetaram não apenas as igrejas, mas toda a sociedade, incluindo os ateus", disse o Mons. Igor Kovalevsky, secretário-geral da Conferência Episcopal da Rússia.

"Escritores seculares como Alexander Solzhenitsyn e Nadhezda Mandelstam podem ter se tornado os mais famosos. Mas na literatura gulag também há temas de testemunho e martírio, que são universalmente reconhecidos e respeitados."

Apesar de muitas vezes ser considerada uma época de vazio cultural e espiritual, o regime soviético produziu profundas obras cristãs de prosa e poesia, oferecendo reflexões vitais sobre uma fé resiliente.

Muito antes dos turbulentos acontecimentos de 1917, o escritor Fiodor Dostoiévski havia previsto os rumos da destruição da religião nas mãos da nova classe revolucionária da Rússia, cujos ideais comunistas prometiam um "reino de liberdade" na terra.

"Os pregadores do materialismo e do ateísmo, que proclamam a autossuficiência do homem, estão preparando escuridão e horror indescritíveis para a humanidade sob o disfarce de renovação e ressurreição" (tradução livre), profetizou Dostoiévski.

"Eles concebem a organização justa das coisas. Mas, tendo repudiado Cristo, acabarão inundando o mundo com sangue."

O líder da revolução, Vladimir Lênin, jurou que emascularia o clero ortodoxo russo - os "agentes de batina" que tinham sido usados pelo czar para "adoçar e enfeitar o mar de oprimidos com promessas vazias de um reino celestial".

Mas desdenhava a religião como um todo.

Chamá-la "ópio do povo" era elogio, como escreveu Lenin em 1909, parafraseando Karl Marx. Era mais uma "espécie de expurgo espiritual, pelo qual os escravos da capital denigrem sua figura humana e suas aspirações de uma vida mais digna".

Mesmo assim, os cristãos ficaram surpresos com a crueldade demonstrada em relação a eles. "Na infância e na adolescência, mergulhei na vida dos santos e fiquei encantado com seu heroísmo e inspiração sagrada", admitiu o metropolitano Venjamin de Petrogrado, de 48 anos, a um prisioneiro, antes de ser baleado, acusado de ser "inimigo do povo". Ele havia defendido a separação entre Igreja e Estado no regime bolchevique, protestando que não se opunha a ele.

"Com todo o meu coração, me entristece o fato de que os tempos mudaram e não era mais preciso sofrer o que eles sofreram. Bem, os tempos mudaram novamente, e surgiu a oportunidade de sofrer por Cristo tanto a partir do próprio povo quanto de estranhos."

Nadezhda Mandelstam, cujo poeta e marido, Osip, morreria num acampamento perto de Vladivostok, foi assombrada pelas brutalidades anticlericais que testemunhou em Moscou.

A própria palavra "Deus" havia se tornado "alvo de gozação", lembrou ela, enquanto os novos detentores da "verdade científica" reivindicavam uma autoridade divina.

"Não só Deus, mas a poesia, as ideias, o amor, a piedade e a compaixão foram derrotados rapidamente. Teríamos que começar uma vida nova, sem bobagens sem sentido", escreveu Mandelstam.

"A moral cristã - como o antigo mandamento ‘Não matarás’ - foi claramente identificada com a moral burguesa. Tudo se tornou ficção."

Os católicos dispersos da Rússia tentaram garantir aos bolcheviques de Lênin que não representavam perigo.

"Não servimos, nem desejamos servir, a nenhum poder terreno, pois somos, como São Paulo, embaixadores de Cristo", disse o bispo francês assuncionista Eugene-Pie Neveu a sua congregação, na igreja de St. Louis de Moscou.

"Por vivermos em meio ao grande povo russo, que nos recebe muito bem, devemos sentir gratidão e desejar a essas pessoas paz, prosperidade e glória. Dê a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César - essa é a nossa única "política", a política dos Evangelhos."

Suas palavras conciliadoras tinham pouco peso. O regime de Lênin considerava o cristianismo uma ideologia rival, que acreditava no "homem interior", ao passo que se esforçava para erradicá-lo.

Outro francês, o padre dominicano Michel Florent, escreveu despachos frequentes da igreja de Notre Dame de Leningrado, registrando os efeitos nefastos da perseguição.

"Os fiéis ainda estão vindo à igreja. No entanto, é tão triste ouvir seus lamentos, observar suas lágrimas, ser confidente de seus choques", observou. "Por que Deus está permitindo tudo isso?... O que podemos fazer para permanecermos fiéis, quando nossas famílias estão dispersas, e aqueles que amamos foram exilados ou deportados?"

Essas perguntas logo geraram uma literatura substancial, e as conclusões foram muitas vezes desoladoras.

Os polacos deportados, ao retornarem do "antiespaço e antitempo" dos campos de trabalho forçado, admitiram que haviam perdido a fé. Enquanto alguns também a encontraram, preservando uma sensação de autoestima, a pergunta de Cristo na Cruz, "Meu Deus, por que me abandonaste?" foi repetida muitas vezes.

Mais de 360 mil polacos foram enviados para milhares de quilômetros a leste, em caminhões de transporte de gado, entre 1940 e 1941, quando o exército vermelho soviético ocupou o leste da Polônia. Eles trouxeram histórias de vazio e desolação, de condições em que reinavam o ódio e a falta de confiança, e os corpos e espíritos desfaleciam em poucos dias.

Será que alguma conexão com Deus podia ser preservada quando toda arma física e psicológica estava sendo usada para abafar sua voz para sempre?

O polaco Gustaw Herling-Grudziński foi preso pela polícia soviética NKVD quando era estudante e foi enviado aos campos acusado de espionagem.

Suas memórias dos campos, Inny Świat ( Um mundo à parte), publicadas no exterior em 1951 com uma introdução do filósofo Bertrand Russell, descreveram como o trabalho forçado era usado para criar um novo homem, que existe "abaixo do nível mais baixo da humanidade", privado de memória, identidade e dignidade.

Os velhos e doentes eram frequentemente mortos pelos guardas dos campos, lembrou Herling-Grudziński, e outros eram baleados durante supostas ofertas de fuga ou abandonados para morrer de frio e fome.

"A certeza de que ninguém jamais descobriria sobre sua morte, ou saberia onde foram enterrados, foi um dos maiores tormentos psicológicos dos prisioneiros", escreveu. "As paredes dos barracões tinham muitos nomes de prisioneiros riscados no gesso. Pedia-se que os amigos completassem seus dados após a morte, com uma cruz e a data do óbito."

Muitos prisioneiros, assolados pelo sofrimento, perderam qualquer vontade de orar. Afinal, como Deus poderia ter criado um mundo que o negou tão radicalmente, em que pessoas com virtudes não recebiam proteção divina quando atingidas pelos poderes do mal?

Mas para os que resistiram a tais pressões, garantiu Herling-Grudziński, a "fé na transcendência" proporcionou um suporte vital.

Alguns internos dos campos continuaram tendo uma vida religiosa, chegando a jejuar e receber os sacramentos, bem como guardar seus crucifixos e rosários.

O Jesuíta estadunidense Pe. Walter Ciszek deixou a Rússia em 1963, como parte de uma "troca de espiões" após 15 anos de prisão e trabalho árduo, fazendo o sinal da cruz pela janela do avião enquanto saía de Moscou, com as torres do Kremlin já distantes.

Ele constava como morto, a pedido próprio, desde 1947, e seus companheiros jesuítas haviam rezado missas por sua alma. Ficou impressionado com a "intemporalidade e falta de propósito" que viveu, mas também com o senso de providência divina.

Como os israelitas do Antigo Testamento, que choravam em cativeiro pelos rios da Babilônia, cristãos como ele haviam refletido sobre as antigas questões exigidas de Deus nos Salmos 12 e 13, numa época em que "cada um fala com falsidade ao seu próximo" e "os mais vis dos filhos dos homens são exaltados": "Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre?"

No final, Ciszek considerava os sofrimentos dos cristãos como um sinal do amor de Deus, como tinha acontecido com seus precursores bíblicos.

Os cristãos podem perguntar por que Deus permitiu tal maldade. Mas houve perseguição antes, e a Igreja sempre foi sustentada por Deus. A liberdade máxima sempre veio pela submissão à vontade de Deus.

"Percebi, nessas situações, o quão inúteis foram as tentativas do homem ou do governo de destruir o Reino de Deus", escreveu ele, depois.

"Pode-se fechar igrejas, aprisionar sacerdotes e ministros, até mesmo causar a discórdia entre os homens e as igrejas, mas não pode arrancar a boa semente... O que eu era, em comparação com o poder do governo soviético? O que éramos nós diante do sistema que nos rodeava, com todos os seus órgãos de propaganda e poder de perseguição? No entanto, na providência de Deus, aqui estávamos - era o lugar que Ele havia escolhido para nós."

Alguns prisioneiros cristãos receberam um tratamento gentil de quem os capturou.

Após ter cumprido uma sentença de 10 anos, o padre lituano Alfonsas Svarinskas foi obrigado a retornar aos campos em 1960, depois de apenas dois anos de liberdade, por pregar "sermões antissoviéticos".

Mas havia encontrado gestos inesperados. Um agente lituano da KGB havia lhe dado um Novo Testamento, e outro havia sido rebaixado por entregar um pacote de comida na Páscoa.

Talvez experiências como esta, por mais raras que sejam, tenham ajudado a sustentar a esperança de que o dano infligido pela repressão comunista pudesse não ser irreparável.

O sistema de governo de Lênin tornou difícil viver com honestidade e ainda mais aspirar ao bem. O fato de alguns terem conseguido, por força de vontade, é uma marca importante de redenção. O heroísmo e o autossacrifício de poucos compensaram a timidez e a fraqueza de muitos.

No final, seria papel daqueles que sofreram e sobreviveram dar sentido à grande perseguição do século XX.

Na Bielorrússia, o cardeal Kazimierz Świątek deixou um modesto relato de seu "longo inverno no gulag de Stalin", lembrando de quando usou um copo velho como cálice e escondeu hóstias numa caixa de fósforos, bem como da surpresa do comandante do campo de concentração ao saber que um homem com quem "não havia necessidade de desperdiçar uma bala" havia sobrevivido à fadiga e às dificuldades.

Após o fim do governo comunista, no entanto, Świątek viu uma necessidade de perdão.

"Para a maioria dos católicos, foi uma surpresa que esse perdão pôde ser oferecido por alguém que ainda carregasse as marcas da perseguição em seu próprio corpo", disse o líder veterano da Igreja à NCR, muitos anos depois.

"Ainda assim, nem mesmo quando várias sentenças foram colocadas contra mim eu tive desejo de vingança. Como pessoas, devemos perdoar, lembrando as palavras de Cristo: "Não julgueis, para que não sejais julgados". Ao longo desse 2.000 anos de história, a Igreja enfrentou bons e maus momentos, desde os primeiros séculos, quando jogaram cristãos aos leões, até as perseguições da Revolução Francesa e do Stalinismo. Mas ela perdurou e perdurará".

Mons. Kovalevsky, secretário-geral da Conferência Episcopal Russa, pensa que reflexões como essa terão uma ressonância no centenário da revolução. Os escritos cristãos das prisões e dos campos, argumenta, devem ser vistos como parte fundamental da herança da Igreja.

"Em todo período histórico, podemos encontrar exemplos de martírio e heroísmo - e até hoje os cristãos em todo o mundo ainda estão morrendo por sua fé", disse o padre à NCR.

"Mas essas experiências, muitas das quais seguem vivas na memória, devem ocupar um lugar especial no contexto da história da Igreja. As testemunhas e os mártires do gulag devem estar lado a lado com os mártires dos primeiros séculos do cristianismo."

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