Católicos russos refletem sobre o centenário da revolução sangrenta de Lenin

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01 Junho 2017

Enquanto os russos marcam o centenário da fabulosa Revolução de Outubro, temos, ao mesmo tempo, uma bela oportunidade para fazer um levantamento sobre os sucessos e fracassos de um século que foi, em geral, brutal. Para as igrejas cristãs do país, no entanto, o aniversário terá uma ressonância trágica, ao recordarem o drama que desencadeou décadas de dificuldades e sofrimento para as comunidades religiosas.

A reportagem é de Jonathan Luxmoore, publicada por National Catholic Reporter, 30-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“A nossa igreja vê eventos históricos como este à luz da fé – e da redenção ulterior da humanidade”, explica o Mons. Igor Kovalevsky, secretário geral da Conferência dos Bispos Católicos da Rússia. “Ao refletir com esse espírito, podemos também começar a fazer sentido das experiências negativas de perseguição e martírio. Porém temos de abordar estas coisas como cristãos, e não como historiadores ou cientistas políticos”.

Sob a liderança de Vladimir Ilich Lenin, os bolcheviques ascenderam ao poder em 1917, acabando com as esperanças de um governo democrático, oito meses depois da derrubada do czar Nicolau II, ocorrida em março dentro do calendário moderno russo.

O “Dia da Revolução”, atualmente lembrado em 7 de novembro, não é mais feriado no país, e o governo do presidente Vladimir Putin não irá lembrar, em seu calendário oficial, o centenário, assim como faz com as festividades reservadas para a “Grande Guerra Patriótica” de 1941 a 1945.

Mesmo assim, o governo terá dilemas relativos à interpretação da revolução, tendo promovido eventos, na história russa, que contribuíram positivamente para a unidade nacional e minimizado as revoltas destrutivas que ameaçavam a estabilidade do Estado.

Os chefes da Igreja Ortodoxa Russa, igreja predominante no país, debateram o centenário em um simpósio internacional realizado em janeiro, e desde então eles vêm se pronunciando sobre o legado para os dias de hoje deixado pela revolução. Em março, o Patriarca Kirill pôs a culpa da violência revolucionária nos intelectuais russos: “Os crimes horríveis cometidos pelos intelectuais contra Deus, a fé, o povo e o país”.

Porém com as pesquisas de opinião sugerindo que os cidadãos russos permanecem divididos quanto às realizações da revolução, Kirill voltou atrás, pedindo que somente celebrem o centenário com “uma reflexão profunda e uma oração sincera”, ao invés de “celebrações inadequadas”.

Essa era a mensagem de um congresso religioso, promovido em São Petersburgo, no fim de abril, copresidido pelo diretor de relações estrangeiras da Igreja Ortodoxa, o Metropolita Hilarion Alfeyev, de Volokolamsk, e por arcebispos católicos e luteranos da Rússia, que se propuseram debater a revolução com “reconciliação, harmonia e amor fraternal”.

Os participantes observaram, em uma declaração ao final do encontro, que os “eventos trágicos” do começo do século XX refletiam uma “crise espiritual profunda”, a qual possibilitou que “ideias políticas absolutas” desencadeassem “um abate fraticida e repressão em massa”.

Provavelmente esta é também a posição da Igreja Católica na Rússia, que busca ver o centenário como uma oportunidade de crescimento espiritual.

“É claro que ainda existem muitas questões não resolvidas em torno da revolução e suas consequências, mas questões de justiça e restituição ao que é devido não parecem estar sendo consideradas pela sociedade russa, hoje, como algo muito urgente”, diz Kovalevsky ao National Catholic Reporter. “Por isso, estamos enfatizando a reflexão quando olhamos para a Revolução de Outubro, para tirarmos lições e afinar as nossas sensibilidades morais”.


Parte minoritária católica nas perseguições


A população católica russa, calculada em 773.000 pelo Annuario Pontificio de 2017 (número que representa apenas a metade de um por cento da população total), tem bons motivos para mostrar cautela em relação a este centenário. Ainda que o governo bolchevique tivesse sido acolhido por alguns líderes eclesiásticos como um marco para o fim da repressão czarista e para a preponderância ortodoxa, todo e qualquer otimismo inicial dispersou-se rapidamente.

Acredita-se que, no mínimo, 21 milhões de pessoas morreram em decorrência da repressão e de fome após 1917, incluindo mais de 106.000 clérigos ortodoxos, executados durante o Grande Expurgo (ou Grande Purga) em 1937-1938, segundo dados do governo russo. Das 60 mil igrejas ortodoxas, apenas 100 permaneciam abertas em 1939, com penas quatro bispos sobreviventes, enquanto dezenas de milhares de muçulmanos, budistas, judeus e cristãos não ortodoxos foram também assassinados.

Um total de 422 padres católicos foram executados, mortos ou torturados até a morte, juntamente com 962 monges, freiras e leigos, enquanto todos (com exceção de dois) dos 1.240 locais de culto católicos no país foram forçados a virar lojas, armazéns e banheiros públicos.

Associações religiosas oficialmente registradas receberam certa proteção a partir da década de 1940, quando o ditador soviético Joseph Stalin buscou usá-las como instrumentos patrióticos durante a Segunda Guerra Mundial. Na década de 1950, sob Nikita Khrushchev, no entanto, os confiscos e prisões voltaram.

Embora declarasse, na Constituição, a liberdade religiosa e a separação da Igreja e do Estado, o regime soviético jamais abandonou o objetivo de erradicar a crença religiosa, e continuamente alvejou a “superstição e o fanatismo” como um contrassenso aos valores progressistas e racionais soviéticos. Mesmo hoje, com uma arquidiocese sediada em Moscou e três dioceses sufragâneas em Saratov, Irkutsk e Novosibirsk, as comunidades católicas russas ainda buscam ter de volta suas igrejas apreendidas e enfrentam problemas no exercício de seus direitos no nível local.

O Pe. Kirill Gorbunov, diretor de comunicação da Igreja em Moscou, acha que alguns católicos terão, não obstante, sentimentos misturados na medida em que o centenário da revolução se aproximar. O Estado soviético infligiu sofrimento em massa, especialmente durante a ditadura de 30 anos encabeçada por Stalin. Mas esse Estado também reivindica avanços nas áreas da ciência e tecnologia, saúde e educação, bem como um papel importante na derrocada da Alemanha nazista, que muitos desejarão reconhecer.


Pouco a celebrar


Quando Gorbunov se converteu ao catolicismo no início da década de 1990, ainda havia muitos clérigos e leigos nas prisões e em campos de trabalho forçado, enquanto que, para os que se unem à igreja hoje, tais histórias pertencem ao passado.

Uma pesquisa de opinião feita em abril pelo Centro Levada, de Moscou, sugere que a popularidade de Lenin está crescendo de novo, com 56% dos russos destacando a sua “contribuição positiva para a história do país” (em comparação aos 40% de uma década atrás) e menos de 1/4 classificando o seu papel como negativo, em comparação aos 36% anteriormente levantados.

“Certamente, da União Soviética há coisas boas a serem lembradas; ela não se reduz somente à repressão e ao dissabor”, disse Gorbunov ao National Catholic Reporter. “Enquanto Igreja, temos de abraçar todos os pontos de vista políticos e encarar o desafio pastoral de estar abertos a todos os lados. Mas também devemos nos certificar de que a nova geração de católicos saiba e entenda a verdade”.

Viktor Khroul, professor católico da Universidade Estadual de Moscou, concorda.

Ele diz conhecer católicos que se juntam regularmente a protestos contra as políticas de Putin, bem como católicos que trabalham como policiais destacados para estancar os mesmos protestos. E embora no exterior as pessoas pensem que os católicos estejam do lado da oposição progressista, existem uns que ocupam cargos influentes na política e nos negócios e que apoiam Putin.

Todavia, católico algum apoiará as perseguições desencadeadas contra as igrejas, e isso ajuda a explicar por que haverá poucos – se é que haverá – eventos comemorativos em outubro.

“O que estaríamos celebrando, a queda do império, a guerra civil, eventos sangrentos e o martírio?”, perguntou o Mons. Sergei Timashov, vigário geral da arquidiocese católica da Santa Mãe de Deus, em entrevista ao National Catholic Reporter. “Já é difícil encontrar um lugar para nós aqui na Rússia com este governo. Então, o melhor que podemos fazer é celebrar as nossas próprias vítimas”.

A Igreja Ortodoxa da Rússia canonizou 1.765 mártires da era comunista por nome em um concílio realizado em agosto de 2000.
Enquanto isso, uma comissão da Igreja Católica, criada em 2002, busca beatificar 16 mártires, incluídos dois bispos: Antoni Malecki, de Leningrado e polonês de nascimento, falecido depois de ser deportado para a Polônia em 1934, e o jesuíta alemão Pe. Edward Profittlich, falecido em 1941 enquanto aguardava execução numa prisão em Kirov.

A lista também inclui Anna Abrikosova, membro da pequena igreja católica grega ou oriental da Rússia, morta na prisão de Butyrka, em Moscou, no ano de 1936; o Mons. Konstantin Budkievicz, vigário geral católico executado em na prisão de Lubianca, na Páscoa de 1923; além da jovem convertida ao catolicismo Kamila Krushelnitskaya, assassinada durante uma sentença de 10 anos por suposta conspiração.

O progresso quanto às beatificações está sendo extremamente lento, de acordo om Anastasia Romanova, um dos presidentes da comissão que acompanha o caso. Os arquivos da NKVD e da KGB ficaram à disposição de pesquisadores por um breve período após a dissolução da União Soviética, em 1991. Portanto é difícil coletar informações, ao mesmo tempo em que os financiamentos e recursos são escassos.

Mas Gorbunov pensa que as vítimas da perseguição continuam em alta entre os católicos, que se mostram interessados em ver concluído o processo de beatificação.

“Esperávamos que os nossos mártires fossem lembrados rapidamente, mas as coisas acabaram se mostrando bem mais difíceis, visto que pouco sabemos sobre eles, ou mesmo onde morreram e onde foram enterrados”, Gorbunov falou ao National Catholic Reporter. “Embora possa haver ideólogos dentro do governo com suas próprias ideias visando promover a revolução, eu espero que as igrejas minoritárias como a nossa sejam deixadas em paz para marcar este centenário do jeito que quiserem”.


A religião, hoje, na Rússia


Mais de 25 anos depois da queda do regime comunista, contradições sobre o passado e o presente ainda se fazem evidentes em toda a Rússia. Alguns analistas creem que o governo de Putin já acolheu a ortodoxia como uma parte integrante da nova ideologia dominante, ajudada por uma “sinfonia” renovada composta pela igreja e pelo Estado.

No entanto, a proibição, em abril deste ano, na Rússia dos Testemunhas de Jeová, cujas propriedades estão sendo apreendidas em todo o país, demonstra como a propaganda da era soviética contra as minorias religiosas, ou “cismáticas”, ainda vem sendo usada para justificar restrições.

Não obstante o czar Nicolau II e sua família serem tidos como santos ortodoxos, a pessoa que organizou as suas execuções em 1918, em Yekaterinburgo, Pyotr Voykov, ainda conta com uma estação de metrô em Moscou com o seu nome.

E embora Lenin ainda seja lembrado com estátuas e nomes de lugares país afora, símbolos do capitalismo e da religião que ele buscou destruir são destaques em lojas de departamento e nas ostentações de riqueza da Igreja Ortodoxa reestabelecida da Rússia, cuja estimativa é a de ter aberto três lugares de culto por dia ao longo das últimas três décadas, elevando o total para 36.000 em comparação com as 6.000 que havia no final do regime soviético.

Este ano, líderes ortodoxos renovaram os pedidos para que os restos mortais de Lenin sejam removidos do mausoléu de granito deles na Praça Vermelha, de Moscou, e que sejam enterrados novamente em privado. Apesar do terror em massa que infligiu, dizem, o fundador da União Soviética foi batizado como cristão, e nunca foi excomungado ou anatematizado pela Igreja. Para a sua alma, este novo enterro terminaria com um século de tormento, ao mesmo tempo reconciliando, finalmente, a Rússia com a sua identidade cristã.

Mas ainda que 58% dos cidadãos, hoje, concordem, segundo pesquisa do Centro Levada, a ideia sofre grande oposição pelo ainda poderoso Partido Comunista da Rússia, mesmo com Putin tendo defendido que um “consenso social” deva ser alcançado primeiro.

Em abril, um projeto de lei para a remoção dos restos mortais de Lenin foi derrubado na Duma Estatal quando membros do parlamento do partido da Rússia Unida, de Putin, o deixaram de apoiar. Kovalevsky, o secretário geral católico, insiste que a Igreja não se opõe a um novo enterro dos restos mortais de Lenin e duvida que este movimento venha a ter um impacto significativo sobre os problemas do país.

Ao mesmo tempo, lideranças ortodoxas mostram sinais de uma retirada.

“Ruas não deveriam receber o nome de carrascos, tampouco monumentos e praças deveriam ser construídos em memória destas pessoas”, disse em abril o Metropolita Hilarion, diretor de relações exteriores ortodoxo em entrevista a uma rede de televisão russa. “Mas ninguém quer reabrir velhas feridas, atiçar a sociedade e provocar divisões. Deveríamos ter feito isto há 25 anos, e agora temos de aguardar até que haja um consenso público em torno do assunto”.

De acordo com a agência de notícias Interfax, a Igreja Ortodoxa estará marcando o centenário da revolução carregando relíquias dos mártires em uma peregrinação aos lugares mais sagrados da Rússia. Ela também irá comemorar a restauração, de novembro de 1918, do Patriarcado de Moscou, sob o patriarca Tikhon, canonizado em 1989 com outros membros do concílio pós-revolução da igreja. O Patriarca Tikhon fora perseguido pelas autoridades de seu tempo.

Por sua vez, os católicos vão lembrar o evento com missas, bem como uma peregrinação nacional em julho ao santuário português de Fátima, onde as primeiras aparições marianas aconteceram seis meses antes do golpe bolchevique.

Mas ainda haverá ceticismo, pensam alguns, quanto a celebrar um drama que em nada contribuiu para a renovação e conversão cristã, depois de um século em que os vizinhos democráticos ocidentais da Rússia alçaram avanços muitos maiores em tempos de paz, sem totalitarismo, execuções em massa, campos de trabalho forçado e comunidades destruídas.

“É evidente que podemos ser nostálgicos no tocante a aspectos positivos do passado soviético. Mas todas as formas de ditadura, incluindo a ‘ditadura do proletariado’, são incompatíveis com o ensino da Igreja”, afirma Khroul, professor católico. “Precisamos reorientar as nossas memórias, analisar as nossas consciências e reservar um tempo para considerar o que aconteceu de tão errado um século atrás para tornar possível coisas horríveis como aquelas”.

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