Que importam os fatos! O debate centenário sobre a Revolução Russa

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01 Fevereiro 2017

O ocorrido na Rússia, entre fevereiro e outubro de 1917, foi uma revolução social ou um golpe de Estado que impôs um partido único? A resposta a essa pergunta provocou um debate que dura 100 anos.

A reportagem é de Santos Juliá, publicada por El País, 27-01-2017. A tradução é do Cepat.

Era um dia de março de 1917. Vladimir Lênin acabava de receber a notícia que na Rússia, pela segunda vez, havia sido deflagrada uma revolução e chama seu camarada e amigo Giorgi Zinoviev, com quem caminha durante horas e horas pelas ruas de Zurique comentando os acontecimentos. Não restava dúvida: o ocorrido era repetição de 1905, quando se formou um Governo de constitucionalistas e democratas, e um sóviet [conselho operário] com maioria de mencheviques e conciliadores acabou derrotado pela reação. Agora, 12 anos depois, o fim daquela revolução não podia se repetir. Obcecado por retornar a Rússia, Lênin aceitou os bons ofícios de um social-democrata suíço que conseguiu do Governo alemão a autorização para que um grupo de 32 exilados atravessasse o império em um vagão vigiado por um par de policiais que não permitiu que alguém entrasse ou saísse nos três dias que durou a longa viagem até Sassnitz, ao norte da Alemanha. E dali, de barco e de trem, até a Estação Finlândia, em Petrogrado.

No dia seguinte, após sua chegada, recebe a visita de uma delegação de bolcheviques, membros da conferência dos sovietes que acaba de encerrar suas reuniões. Antes de retornar para suas cidades querem ouvir Lênin, que se apresenta com sua esposa no Palácio Tauride, antiga sede da Duma e agora quartel general do sóviet, onde vai expondo, diante de um auditório interessado, uma a uma suas dez teses de abril, que poderiam se resumir em três: nenhum apoio ao Governo provisório, paz, pão e terra para os camponeses, todo o poder aos sovietes. Vozes, gritos, enquanto o presidente da conferência, o menchevique Nikolay Chkheidze, se faz ouvir acima do tumulto: “Lênin fez suas as palavras de Hegel: Que importam os fatos! Se ficará só, fora da revolução”.

O que veio depois foi uma revolução social, na qual uma classe social consciente, o proletariado, com o apoio do campesinato, assumiu o poder para transformar a sociedade, destruindo a nobreza e a ascendente burguesia? Ou foi um golpe de Estado, que liquidou as primeiras conquistas democráticas da revolução para impor, por meio do terror, o poder de um partido único? Compreende-se que dada a magnitude do ocorrido, de fevereiro a outubro de 1917, e de suas consequências para a história do século XX, as respostas a estas duas perguntas deram lugar a imensas esperanças, longas peregrinações e fortes debates dos quais participaram toda a classe de escritores, cientistas sociais, memorialistas, políticos, centros universitários, alianças de intelectuais, deslumbrados pelo fulgor da revolução ou nostálgicos por seu destino final.

Para muitos, inclusive conspícuos socialistas fabianos, como Sidney e Beatrice Webb, a URSS surgida da revolução era a civilização do futuro, a liquidação do latifundiário e do capitalista, o fim do desemprego, uma produção a serviço das necessidades humanas, um novo mundo que despontava frente à velha e caduca sociedade burguesa. Outros, como André Gide, foram atraídos pelo anticolonialismo e o pacifismo, com a promessa de fundir individualismo e comunismo, internacionalismo e raízes francesas, ao passo que André Malraux se sente fascinado por sua eficácia, mais que por uma justificativa intelectual ou moral, diferente de Stephen Spender, para quem o fascismo exerce uma moralidade de violência e voracidade que é a própria moral do capitalismo, com a qual é preciso acabar. Em todo caso, estes companheiros de viagem, e tantos outros, como Rolland, Eluard, Mann, Gorki, Shaw, que se encontram nos congressos internacionais de escritores pela defesa da cultura, com seus discursos, leituras de poemas, acolhimentos, reconhecimento dos operários pela rua, se incorporam com seu compromisso com um mundo que transborda sentido. Sentem-se parte de uma vanguarda, parteiros da história, construtores do homem novo.

A primeira ruptura se produzirá em torno da própria possibilidade de emitir um julgamento sobre a URSS. Já no primeiro congresso se manifestou certa angústia pelas dúvidas sobre a assistência de Gorki e de Babel. Mas, o que aí foram dúvidas, no segundo já será uma clara divisão diante das críticas a Gide, que em seu De volta da URSS não cala o que viu – um mundo uniforme, com pessoas passivas – e a quem se vilipendia como monstro fascista, burguês decadente autoconfesso. A segunda ruptura virá imediatamente em seguida, com o grupo de escritores que denuncia a deriva da revolução, desde que Stalin eliminou fisicamente toda a velha guarda bolchevique e cai a Oscuridad a mediodía – como foi o título original de Arthur Koestler – seguida, depois da guerra, pelo El Dios que cayó, com artigos do próprio Koestler, com Gide, Ignazio Silone, Spencer, Richard Wright e Louis Fischer, que destacou como o Waterloo do Partido Comunista a intervenção da polícia secreta para colocar fim aos debates políticos. Havia nascido o amplo mundo dos ex-comunistas.

A Guerra Fria redefiniu o tipo de compromisso daqueles que não condenaram, nem defenderam a obra de Stalin, ainda que procuraram justificá-la com a denúncia da moral estabelecida. Jean-Paul Sartre afirma que a violência comunista era o humanismo proletário, a justiça sumária da história. E Francis Jeanson, gerente de Os Tempos Modernos e crítico de Camus, confessa estar, apesar de seus métodos, com o movimento staliniano, porque “não sabemos se não será necessário que a ação revolucionária transite por esses caminhos, antes de poder instalar uma ordem social humana”. Ainda que talvez o mais tremendo testemunho que nos chega daquele passado seja o do humanista Maurice Merleau-Ponty, que em seu Humanismo e terror, partindo da suposição que os comunistas encarnam a consciência e os interesses do proletariado, única força revolucionária, considera que as purgas e os processos não só foram tática e estrategicamente sábios, mas historicamente justos. Uma revolução, escreveu Merleau-Ponty, não define o delito segundo o direito estabelecido, mas segundo o da sociedade que pretende instaurar. Nikolai Bukharin sofreu em sua carne a atrocidade deste princípio.

De Bukharin e a revolução tratou Stephen Cohen, em uma magnífica biografia, argumentando que se suas ideias tivessem sido levadas à prática, a revolução teria dado lugar a um socialismo democrático, pacífico, livre de terror. Lástima para a revolução que, em 1929, Stalin venceu a partida, fechando a via para o que mais tarde se chamou socialismo de rosto humano, uma conclusão com a qual não concordou Richard Pipes, em sua monumental história. Foi em fevereiro, segundo Pipes, quando ocorreu a verdadeira revolução. Em outubro foi um golpe de Estado, executado por um partido político que, de imediato, recorreu ao terror para consolidar seu poder. Tudo o que viria com Stalin já estava em Lênin, de modo que não cabe pensar em outro curso possível para a história: o inimigo é agora como foi desde o princípio, uma tese muito oportuna para a elaboração de políticas próprias da Guerra Fria.

O ano de 1989 marcou, de qualquer modo, com o afundamento da União Soviética, o fim de uma ilusão, segundo constatou François Furet, sem deixar nenhum legado: de tudo o que foi construído na ordem institucional, nada fica em pé, escreveu. Ficava talvez o sonho da revolução e dos dias de triunfo e fraternidade, que Eric Hobsbawm continuava abrigando anos depois, apesar que sua pregação de que toda a humanidade haveria de entrar pelas portas da história abertas por Lênin resultou em uma grande fábula. Seu romance do comunismo, para dizer com Tony Judt, havia esvaecido no ar, estremecedores relatos que Svetlana Aleksiévitch reuniu como epitáfio e fim da experiência comunista.

Fim, então, da revolução? A penúltima ocorrência suscitada pela de 1917 é de Slavoj Zizek, quando evoca o Lênin que acaba de triunfar na guerra civil e ordena a retirada da Nova Política Econômica. Os comunistas que preservam sua força e flexibilidade para começar de novo do início nunca morrem, escreve Lênin, em 1922. Para não ser menos, sustenta Zizek que, em termos kierkegaardianos, os processos revolucionários não entranham um progresso gradual, mas um movimento repetitivo, começar do início novamente. E é a isto que estaríamos obrigados, após esse “desastre obscuro” que foi 1989. Obscuro será para Zizek, que não quer enxergá-los, porque o que importam os fatos, se o que é necessário manter bem sujeitos na memória são “os momentos sublimes” da revolução, como marco geral que deve ser superado, começando novamente do ponto zero.

Tal é, em síntese, a “hipótese comunista” elaborada por Alain Badiou, que não oculta os fatos, simplesmente os dá como não pertinentes: se a revolução e o comunismo se revelaram como uma forma de transição, tardia e particularmente cruel, do feudalismo a mais voraz versão do capitalismo, pior para os fatos. É necessário recomeçar do zero para que o espírito de Hegel não nos encontre dormindo, quando novamente empreender o voo anunciando outro amanhecer que canta.

Leituras para um centenário

La revolución rusa. Richard Pipes. Debate.

El tren de Lenin. Los orígenes de la revolución rusa. Catherine Merridale. Crítica.

La revolución rusa. La fábrica de una nueva sociedad. María Teresa Largo Alonso. Catarata.

Cartas desde la revolución bolchevique. Jacques Sadoul. Turner.

Medianoche en el siglo. Victor Serge. Alianza.

El espejo blanco. Viajeros españoles en la URSS. Andreu Navarra. Fórcola.

El fin del “Homo sovieticus”. Svetlana Aleksiévich. Acantilado.

El siglo de la revolución. Una historia del mundo de 1914 a 2017. Josep Fontana. Crítica (febrero).

Breve historia de la revolución rusa. Mira Milosevic. Galaxia Gutenberg (marzo).

La venganza de los siervos. Rusia, 1917. Julián Casanova. Crítica (abril).

La Revolución Rusa. Una historia para todos. Neil Faulkner. Pasado & Presente (junio).

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