Marx, Piketty e os ladrões de títulos

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Por: Jonas | 16 Junho 2014

Quando morreu Gabriel García Márquez, Juan Saturain comentou que o autor de “Cem Anos de Solidão” não foi apenas um notável fabulador, mas também um extraordinário inventor de títulos. “Quero dizer e me animo: seus livros não seriam tão bons com outros títulos” (Página/12, 18-04-2014).

A reportagem é de Maciek Wisniewski, publicada por La Jornada, 06-06-2014. A tradução é do Cepat.

Concordando com isto e terminando de ler o muito badalado “Capital in the twenty-first century” (2014, 671 pag.), de Thomas Piketty – o novo “economista superstar” -, quero dizer e me animo: seu livro não teria tão boa recepção com outro título. Sem a óbvia (gozação?) alusão a “O Capital” de Marx que, aliás, não foi apenas um grande economista (e sociólogo), mas também um grande inventor de títulos (com boa literatura). Um livro que de Marx – exceto o título – não tem nada, e que, além do mais, do ponto de vista marxista é problemático.

É difícil decidir por onde começar e por onde acabar. Vejamos, por exemplo, a definição do capital: enquanto para Marx este era – sobretudo – uma específica relação social, para Piketty – como para outros economistas neoclássicos – é apenas um conjunto de bens, sinônimo de riqueza (págs. 47-48). Ou fragmentos onde destaca – supostas – limitações de Marx (págs. 7-11) ou rejeita a lei da tendência decrescente da taxa de lucro (págs. 227-230), que despertam sérias dúvidas se o autor leu “O Capital” ou alguma coisa a mais de Marx.

Eis aqui uma resposta (New Republic, 05-05-2014):

“(Entrevistador): Poderia nos dizer algo sobre o impacto de Marx em seu pensamento e como começou a lê-lo?”

“(Piketty): Na realidade, nunca o li... (super-sic!). (Apenas) o “Manifesto Comunista”, uma obra curta, forte. ‘Das Kapital’ acredito que é muito difícil ler (sic!) e não foi minha influência (sic!)”.

“Pois o título de seu livro parece que o rendia tributo”.

“Não, não, em nada! A grande diferença é que meu livro é sobre a história do capital (sic!), e no livro de Marx não há dados (super-sic!)”.

Só alguém que nunca viu 'O Capital' pode dizer algo assim... e como, ao final, disse que leu o “Manifesto”, também decidiu roubar este título, publicando seu “Manifesto pela Europa” (The Guardian, 02-05-2014).

Só isto bastaria, mas o marxista inglês Michael Roberts se deu ao trabalho de desnudar mais ainda Piketty (vejam em seu blog: The Next Recession). Apenas uma das conclusões (mais generoso, impossível): “Caso se limitasse a apresentar seus dados sobre a desigualdade ( ele, sim, tem dados!: MW), seria uma contribuição. No entanto, quis mais: corrigir o marxismo (sic!) e substitui-lo com suas ‘leis fundamentais’ (sic!), segundo as quais é possível consertar o capitalismo reduzindo as desigualdades”.

Por sua parte, David Harvey, o especialista em “O Capital”, destacou que embora os dados de Piketty sejam valiosos, as razões da desigualdade que oferece possuem falhas, que o capital não é riqueza e que lhe faria bem ler Marx, coisa que não fez (davidharvey.org).

Michel Husson, o marxista francês, enfatizou que seu enfoque neoclássico simplesmente distorce as verdadeiras leis do movimento no capitalismo (Contretemps, 10-02-2014).

Inclusive, querendo lhe reconhecer algo como o questionamento aos dogmas neoliberais (desigualdades e meritocracia são bons), ou um bom estilo e referências literárias (Austen, Balzac, Dickens, etc.), acaba-se como Alan Nasser, em sua muito cadenciada resenha (Counterpunch, 04-05-2014), destacando mais falhas: ausência do lado do trabalho e ingenuidade política.

Todos nós, autores – inclusive Marx, que com sua “Miséria da filosofia” parafraseava Proudhon, para atacá-lo –, tomamos emprestados ou roubamos títulos alheios para jogar com palavras, evocar, criticar ou para desenvolver melhor o argumento próprio. Este colunista assaltou, ultimamente, duas vezes Foucault (La Jornada, 09 e 23-05-2014); agora assaltou De Sica (“Ladrões de bicicletas”, 1948). Não há nada de mal nisto. Porém, no caso de Piketty, não apenas resulta um pouco patético, mas enganoso. Assim, escuta-se que Piketty atualiza Marx para o século XXI (sic!), ou que graças a ele, Marx está outra vez em voga (sic!). Desse modo, a crítica das desigualdades se confunde com o anticapitalismo, ou parece que as desigualdades são a principal contradição do capitalismo (e não são nada essencial neste sistema de produção, próprio de todas as sociedades classistas).

Embora entre os marxistas haja forte debate sobre qual é a principal contradição (Harvey contribui para isso com seu novo livro: “Seventeen contradictions and the end of capitalism”, 2014, 336 págs.), as desigualdades nem estão na lista. Ou acarreta outras confusões, inclusive em nome de boas causas: ativistas que defendem o legado de Marx (e Engels) da privatização e desaparecimento da Internet (Lawrence & Wishartversus Marxists Internet Archive) colocam como exemplo da sua atualidade o – suposto – “diálogo que Piketty realiza com ele em seu best-seller” – sic! – (The Guardian, 05-05-2014).

Para que não fique dúvida: a crítica daqui não é a mesma que a direita (ou Financial Times) faz a Piketty, chamando-lhe de marxista (sic!) e sua análise de radical. O problema é que ela não é suficientemente radical. Piketty pretende – este é o objetivo de seu livro – salvar o capitalismo de si mesmo e – promovendo novos impostos – fazê-lo funcionar para todos (que é – como bem aponta Roberts – um contradictio in terminis). Segundo ele, necessitamos do capitalismo, porém um pouco mais justo, mas distante de Marx, que advoga por outro sistema, sem classes, impossível. Em algum momento, Piketty mostra preocupação com o título, mas – paradoxalmente – em razão de sua segunda parte (“... in the twenty-first century”): “Talvez tenha sido presunção colocá-lo assim, na véspera do século” (p. 35). Curioso, já que o mais problemático é a primeira (“Capital...”).

James K. Galbraith, após criticar duramente Piketty, conclui sua resenha assim: “(...) apesar das grandes ambições, seu livro não é um trabalho completo com teoria sofisticada como seu título, extensão e recepção sugerem” (Dissent, primavera 2014).

Pelo bem do debate, deixemos aberta a questão se o “Capital in the twenty-first century” é uma obra mestre (como se afirma), ou se Thomas Piketty é um gênio econômico (como se diz). O certo é que é um péssimo inventor de título.

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