Cristianismo com a face humana. Entrevista com Hans Küng

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16 Abril 2021

 

"43 anos de idade, bronzeado, olhos azuis, rosto retangular, Hans Küng é um homem feliz, tranquilo e combativo. Ele nasceu em Sursee, no cantão de Lucerna, na Suíça. “Eu sou um cidadão de um país muito pequeno, o qual tem uma longa tradição de liberdade”.

Ele também explica: “minha família era católica, sem complexos. Isso deixou marcas em mim. Eu sou livre e rigoroso com os teólogos e a Igrejas, católicos ou protestantes”.

Hans Küng fez seus estudos secundários no Ginásio de Lucerna: “Eu queria me mudar. Eu fui a Roma à procura de mais disciplina, para aprofundar meu conhecimento de teologia tradicional e os trabalhos da Igreja. Eu cheguei com uma atitude muito, muito obediente. Demorei cinco anos para entender que a forma de conceber teologia em Roma era ultrapassada”.

Estudou na Gregoriana, dirigida pelos jesuítas: “Sem dúvidas por essa razão que frequentemente dizem que sou um jesuíta. Eu fico muito lisonjeado, é claro. Mas eu sou um padre secular da diocese de Basel”. Ele acrescenta: “Eu suspeito que há pessoas inteligentes fora da Companhia de Jesus”.

Ordenado em 1954, era vigário em Lucerna quando foi enviado a Paris para continuar seus estudos. Ele falou com respeito sobre seus professores, Yves Congar, Henri de Lubac... depois de seu doutorado em teologia, ele foi nomeado professor na Universidade de Tübingen.

Em 1962, João XXIII o nomeou um conselheiro teológico do Concílio. Küng explica: “Minhas preocupações não poderão ser compreendidas se você ignorar o meio universitário em que vivo. Eu faço o chamado para uma batalha por um cristianismo com uma face mais humana. Eu não separo a vida escolar do dia a dia. Eu amo celebrar a missa no domingo com toda a comunidade, pregar em casa na Suíça e levar a mensagem cristã – durante todo o dia – aos pacientes do hospital onde eu atendo”.

 

A entrevista é de Claude-François Jullien, publicada oringalmente por Le Nouvel Observateur, 01-03-1971, e reproduzida em inglês por Commonweal Magazine, 09-04-1971. A tradução da versão inglesa para o português é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

O prefácio do seu livro é muito duro sobre Paulo VI. Isso beira à insolência: “é verdade que uma viagem a Jerusalém foi empreendida, mas... o estado de Israel ainda não foi reconhecido”. Você estava falando do Papa?

Eu respeito a personalidade de Paulo VI, sua boa vontade. Eu estou certo que ele tem as melhores intenções para a Igreja e a humanidade. Mas como essas intenções se manifestam?

Obviamente, se poderia ficar em silêncio.

Eu sei que há pessoas na Igreja e fora dela que sofrerão por causa desta falta de honestidade. Eu disse apenas o que outros teólogos, bispos e cristãos disseram em privado...

Se a Igreja Católica quer ser uma comunidade de cristãos livres, nós devemos seguir padrões totalitários. Criticismo sem lealdade é destrutivo; lealdade sem criticismo é totalitarismo.

 

Você assumiu um caminho de guerra contra a infalibilidade papal, definhada pelo Vaticano I como uma verdade revelada...

Antigamente os católicos afirmavam que o Papa necessitava de um estado papal para ser o Papa.

Aqueles que discordaram foram excomungados. O estado do Papa foi retirado: ele permaneceu o Papa.

É o mesmo com a infalibilidade, no sentido da infalibilidade de proposições.

Da minha parte, eu digo: a Igreja é infalível porque é sustentada na verdade, apesar de todos os erros, mas não necessita de proposições infalíveis para manifestar sua infalibilidade.

Além disso, prefiro o termo indefectibilidade.

Essa concepção tem por trás a mensagem cristã original e a mais forte tradição. Nem mesmo está em contradição com o Vaticano I.

Quando a infalibilidade da Igreja foi definida naquela época, supôs-se, de maneira ingênua, que ela não poderia ser concebida sem proposições infalíveis, assim como sem um estado papal.

Eu questionei essa suposição. É um inquérito.

Eu simplesmente peço uma resposta bem fundamentada e argumentada.

Meu argumento para uma fé que sabe por que crê se relaciona com a preocupação de inúmeros cristãos que não querem mais receber verdades sem reflexão.

Precisamos de proposições não apenas garantidas de fora, mas que manifestem sua própria verdade...

 

Colocar em questão a infalibilidade implica também o fim da Igreja como monarquia...

A autoridade do Papa não será diminuída, mas transformada. João XXIII não tinha menos autoridade do que Pio XII e, no entanto, não insistia em fórmulas. Ele não definiu dogmas.

A autoridade de João XXIII derivou do fato de que foi fundada não nele, mas no Evangelho.

Quando Paulo VI fundamenta-se no Evangelho (Populorum Progressio), ele recebe uma recepção calorosa. Mas quando ele enfatiza uma verdade tradicional da Igreja, como sobre o controle da natalidade, ele encontra dificuldades.

Agora, eu acho – que é o ponto de partida do meu argumento – que a infalibilidade estava implicada nesta posição muito questionável tomada sobre o controle da natalidade.

 

Você parece entrar em rebelião. Você se recusou a pedir um imprimatur.

Meu gesto não é uma rebelião. Mostra que o imprimatur, a censura prévia, está fora de moda, como a inquisição. Às vezes, é preciso resistir à autoridade para provar a necessidade de mudanças.

O imprimatur não poupou meu livro, A Igreja, dos procedimentos da inquisição romana... Sei que há teólogos e bispos que querem o fim deste sistema absolutista.

 

A Congregação para a Doutrina da Fé instigou novos procedimentos contra seu último livro?

Não que eu saiba. Mas eu não ficaria surpreso se isso fosse iniciado logo.

Talvez esteja em andamento: sempre é possível instaurar um processo especial por um tribunal irregular.

Roma pediu aos bispos alemães que se declarassem.

Disseram que lhes parecia – é uma afirmação bastante prudente – que certos elementos doutrinários decisivos não estavam salvaguardados.

Eles não disseram quais. Eles deixam a discussão teológica para os teólogos.

Eles não responderam à minha pergunta muito explícita: a infalibilidade da Igreja requer proposições infalíveis?

Eles até evitaram a palavra infalível em sua declaração. Espero que repitam, depois de Gamaliel nos Atos: “se seu empreendimento vem dos homens, ele se destruirá por si mesmo, mas se realmente vier de Deus, você não conseguirá destruí-lo”.

 

Você foi acusado de superestimar o domínio da infalibilidade. Desde a publicação deste livro, o jesuíta alemão Karl Rahner, que não é conservador, considera você como um "protestante liberal".

É lamentável que meu amigo Karl Rahner não tenha discutido o livro comigo antes de publicar sua crítica.

Suas acusações não são bem fundamentadas; além disso, ele vai publicar um novo artigo bem mais matizado.

Nem no primeiro artigo, nem no segundo, ele demonstra que as autoridades da Igreja podem fazer declarações falíveis.

Seu método parece neoescolástico para mim.

Ele se baseia em dogmas sem se perguntar como devem ser interpretados à luz da mensagem do Evangelho.

Ele especula sobre dogmas e tenta adaptá-los ao mundo de hoje.

Nosso conflito não é o de um teólogo católico e um teólogo protestante, mas o de dois métodos teológicos. A história julgará.

A questão essencial é esta: o que é a fé católica?

Não se pode responder apenas enumerando não sei quantas proposições. Deve haver uma mudança bastante radical na própria existência cristã.

Não creio que seja o meu livro que o provoca. Isso vem acontecendo há muito tempo.

A teologia francesa, por exemplo, acentuou o aspecto personalista da fé – acredita-se em uma pessoa e não em algumas verdades ou proposições...

Quanto a mim, luto por um cristianismo menos racionalista e mais existencial.

 

Os dogmas que foram ensinados como verdades em que era necessário acreditar para ter fé – parecem colocados em dúvida...

Na verdade, só há reflexão sobre dogmas.

Pessoalmente, não tenho nada contra dogmas.

Falei muito seriamente da possibilidade de definições em certos casos urgentes, quando a Igreja deve definir o que é cristão e o que não é.

Mas os dogmas não devem ser considerados como os juristas consideram as leis.

Os juristas não refletem sobre a forma como a lei deve ser tomada. Eles se contentam em aplicá-lo.

Dogmas não são leis, mas “indicadores”, talvez, que devem ser interpretados à luz da própria mensagem cristã.

 

Hans Küng, você está sendo criticado violentamente dentro da Igreja. Você já pretendeu sair da Igreja?

Eu tenho inúmeras tentações, mas nenhuma para deixar a Igreja Católica.

Se eu a critico mais que alguns outros, isso é, pelo contrário, um sinal de profunda adesão.

Muitas pessoas estariam felizes me vendo sair da Igreja.

Alguns me esperam para que eu me reúna com eles no lado de fora. Outros, incluindo a Igreja, desejam minha saída: eles não aceitam a noção de crítica vinda de dentro.

Na Civiltà Cattolica, a antiga revista jesuíta publicada em Roma, o padre Rosa me acusa de heresia. Eles gostariam de um novo caça às bruxas.

E eu? Eu sinto que a Igreja é o local a que pertenço.

 

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