“João XXIII desejava reformas, mas cedeu muitas vezes”, afirma Hans Küng

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Por: André | 16 Outubro 2012

Hans Küng acredita que um Concílio Vaticano III poderia mudar muito, pelo simples fato de que os bispos de todo o mundo se reuniriam novamente e poderiam ver quantos deles desejam uma modernização da Igreja.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 11-10-2012. A tradução é do Cepat.

Bispos corajosos, um papa aberto às reformas e a disposição a um diálogo aberto: quando o teólogo suíço Hans Küng chega a Roma em 1962 para participar do Concílio Vaticano II, mostra-se fascinado com o espírito aberto dos pastores da Igreja católica.

“Os bispos desejosos de reformas se deram conta de repente de que há outros que pensam assim como eles. Era assombrosa a mudança que isso representava”, recorda Küng, hoje com 84 anos, em conversa com a agência DPA na cidade alemã de Tübingen.

Entretanto, rapidamente se desatou uma luta de poder entre os bispos das Igrejas locais favoráveis às mudanças e os representantes conservadores da cúria romana, afirma Küng. Isso acabou por paralisar o concílio, indica.

Küng, que tinha 34 anos no começo da grande assembleia de mais de 2.000 bispos, participou do conflito como assessor do então bispo de Rottemburg, Joseph Leiprecht. Em seus escritos, já antes do concílio, Küng defendeu mudanças substanciais na Igreja católica, tais como a abolição do celibato para os sacerdotes e uma reforma da cúria romana, exigências que tiveram grande resistência.

“Por isso, eu estava muito cético quando viajava no meu Volkswagen para Roma. E também não gostava muito da ideia de ter que passar semanas com meu uniforme, minha batina”, afirma Küng, assinalando que por isso se surpreendeu ao ver bispos oporem-se abertamente à política conservadora da cúria romana.

Mas a luta de poder entre os reformistas e os continuístas se decantou logo a favor dos conservadores. “Esta minoria tinha o aparelho nas mãos”, explica Küng. Na sua opinião, o papa João XXIII estava aberto às reformas, mas não conseguiu impor-se aos seus colaboradores na cúria.

“Cedeu muitas vezes”, lamenta o teólogo, catedrático da Universidade de Tübingen e que através de sua Fundação Ética Mundial defende uma relação pacífica entre os países e as religiões.

O então jovem professor não teve oportunidade para falar no concílio, o que estava reservado aos bispos. “Mas nós, os teólogos conciliares, escrevíamos os discursos dos bispos. O idioma oficial do concílio era o latim, mas a maioria dos bispos não o falava bem. Assim, ganhamos uma considerável influência”.

Entre 1962 e 1965, os participantes do concílio se reuniram quatro vezes durante várias semanas. Ao final, conseguiu-se muito, mostra-se convencido Küng. Como exemplo cita a introdução da missa na língua vernácula, a análise crítica da Bíblia e a abertura para outras religiões.

“Era de repente uma Igreja completamente diferente à de antes do concílio”, afirma. Isto apesar das forças conservadoras na Igreja que desde então tentam revisar as decisões do concílio, opina Küng, para quem João Paulo II e seu sucessor Bento XVI são “papas restauradores”.

Küng acredita que o Concílio Vaticano III poderia mudar muito, pelo simples fato de que os bispos de todo o mundo se reuniriam novamente e poderiam ver quantos deles desejam uma modernização da Igreja. “Mas tão somente por esse motivo o papa não convocará nenhum concílio em um futuro previsível”, teme o teólogo.

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