O “sentire cum et in ecclesia” de Hans Küng

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09 Abril 2021

Católico, padre, teólogo, perito conciliar e professor universitário: é difícil dizer o que Hans Küng não foi durante esta vida. Que se concluiu há poucos dias, aos 93 anos, em Tübingen, a cidade na qual mais do que qualquer outra isso deveria ter acontecido.

O comentário é de Antonio Balllarò, doutorando em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em artigo publicado por Il Mulino, 08-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Küng nascera no dia 19 de março de 1928 em Sursee, Suíça, precisamente no cantão de Lucerna. Sua infância coincide com a ascensão de Hitler ao poder, uma ameaça que ele sentiria profundamente graças ao decisivo antinazismo que logo marcou parentes e conhecidos. Mas, mesmo antes, uma indubitável experiência de confronto com uma liberdade não tanto buscada, mas sim admitida e praticada.

A sua Suíça estava distante dos contextos opacos das finanças pelos quais ela é conhecida, entre muitas outras coisas: Küng nasceu em uma família rica, mas não de elite, da qual ele parece constituir uma síntese bem-sucedida, também, mas não apenas, em sentido intelectual.

Evidentemente, foi determinante o quadro religioso: não alheio aos marcos medievais e barrocos em voga na época, mas também, como toda realidade complexa, capaz de gerar personalidades cujas vivências exalam testemunho.

No caso do jovem Küng, isso se concretiza quando chegou à sua cidade natal o Pe. Franz Xaver Kaufmann, depois pároco ali, a quem ele dedicaria páginas de gratidão e estima por aquilo que reconheceria como o espírito de Jesus operante nele. E que o fascinaria a ponto ou conduzi-lo ao presbiterado: uma escolha nunca renegada e reveladora também, talvez, da sua firmeza. Uma firmeza não insensível.

Assim, Küng seguiu o caminho que era o de todos os candidatos ao ministério católico. Até a decisão de partir para Roma, depois do ginásio, para estudar teologia na Universidade Gregoriana, dirigida pelos jesuítas: onde ele se aproximaria do modelo teológico neotomista, difundido por impulso do Papa Leão XIII e pela encíclica Aeterni Patris de quase a século antes (1879), cuja estrutura se mostrava racional, senão silogística, mas nem sempre diretamente antimoderna.

A teologia aprendida por Küng está suspensa entre a sístole e a diástole na sua relação com a filosofia: a partir da qual se concebe, portanto, a sua orientação e cumprimento. Mas a formação romana do jovem Küng também inclui o Pontificium collegium germanicum et hungaricum, no qual ele residiu e onde realmente praticou uma teologia substancialmente mnemônica. Que se une a decisivas frequentações romanas (entre outros, Peter Lengsfeld e Josef Fischer).

E Roma se torna, com efeito, o convidado de pedra da sua existência, nunca conduzida sem a Igreja, da qual ele nunca deixaria de se declarar membro. O seu sentire cum ecclesia sempre significaria sentire in ecclesia, como ele aprenderia com o jesuíta Wilhelm Klein, então diretor espiritual do colégio germânico. Apoiado, nisso, pelo duradouro fascínio pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, talvez o principal autor a quem Küng deve um espaço de liberdade intelectual (não intelectualista) na Igreja, pela Igreja.

A romanidade da teologia que ele estudou na capital italiana lhe permitiu duvidar da compatibilidade desta com a catolicidade da Igreja: assim, ele diria, com toda a serenidade, que foi a Roma católica que o tornou um católico crítico em relação a Roma. Referindo-se com isso, sobretudo, a um fato: a gradual atestação da impossibilidade de abandonar da Igreja, como em um choque íntimo e desconhecido entre uma liberdade do agir e uma liberdade do existir, na qual ele, sem dúvida, quis que o Evangelho ressoasse.

Ele teve a oportunidade de fazer isso especialmente em Paris, para onde se mudaria, no Institut Catholique, para a conclusão dos estudos, com a obtenção de um doutorado em teologia centrado no grande teólogo protestante Karl Barth, ele também suíço, a quem ele recorreu para uma investigação sobre a doutrina da justificação.

Mas provavelmente foram os anos do Concílio, anunciado por João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959, os mais densos de estímulos. O Vaticano II (1962-1965), que o papa definiu como “pastoral”, permitiu que Küng, então na casa dos 30 anos, conjugasse idealmente o cuidado pelas almas e a academia, o que certamente é um dos motivos pelos quais ele confessaria a sua parcial decepção com o resultados alcançados pela cúpula. Que o jovem teólogo viveria como perito, isto é, especialista, sem ceder ao convite de voltar à Comissão Teológica: uma escolha que continua sendo mais questionável do que outras, especialmente à luz daquilo que ele poderia admitir por si mesmo sobre a efetiva possibilidade de mudar as coisas.

Para Küng, que recentemente recebera a cátedra em Tübingen e publicara, além da tese de doutorado, “Estruturas da Igreja” e “Concílio e Reunificação” (1960), parecia que não havia sido desencadeada aquela “veracidade” que ele pregaria sobre a Igreja, indo cobrir uma posição externa e não sem consequências para as relações posteriores entre a teologia e a Igreja, com maior razão no pós-Concílio.

Portanto, pode-se fazer a experiência de reconstruir e interpretar, também desse modo, a sua indubitável participação ativa no Vaticano II, que às vezes, porém, beiraria, como notaria alguém do calibre de Yves Congar, a criação de um para-Concílio dos teólogos.

Essa impressão seria desmentida por Küng apenas parcialmente, graças à publicação do seu Igreja Católica (Ed. Objetiva, 2002[1967]), do qual surgiria uma eclesiologia bíblica e fundada nos carismas, que não conseguiria evitar totalmente uma visão compartimentada da Igreja.

Mas o sucesso do teólogo suíço está ligado à publicação de “Infalível? Uma pergunta” (1970), que levantaria questões fundamentais para a compreensão do dogma da infalibilidade papal e lhe valeria a abertura de um procedimento disciplinar que, nove anos depois, provocaria a revogação do mandato de ensino de teologia em nome do Igreja Católica.

A própria Universidade de Tübingen se inclinaria contra esse procedimento e lhe permitiria manter o status de professor. Desde então, abriram-se para o teólogo Küng os horizontes ilimitados de uma teologia interessada no outro, por meio de grandiosas e altamente legíveis exposições da fé cristã (“Ser cristão”, Ed. Vozes, 1979[1974]), ambiciosos projetos éticos (“Projeto de Ética Mundial. Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana”, Ed. Paulinas, 1998[1991]), o diálogo entre as religiões, especialmente os três monoteísmos (“Judaísmo”, 1991; “Cristianismo”, 1994; “Islã”, 2004).

Com a morte de Hans Küng, será interessante acompanhar os posicionamentos eclesiais. Porque ainda não é possível dizer que lugar ele terá em relação à Igreja, mas sobretudo em relação à teologia, em um momento que, no mínimo, é magmático para a subsistência do sistema intelectual de apoio à fé.

Com Hans Küng, não é só um homem profundamente versado na pesquisa teológica que vai embora, mas também um grande fragmento da história da Igreja e do século que herdamos. Um fragmento que o pontificado de Francisco deverá continuar em parte a mover e em parte a remover.

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