Qual moral sexual? A Igreja e o amor homossexual

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21 Dezembro 2020

“Como a Igreja pode causar tantos sofrimentos às pessoas? Pelo amor de Deus, isso não deve mais acontecer!” Franz-Josef Overbeck, bispo de Essen, Alemanha, escreveu essas palavras em uma carta dirigida ao povo da sua diocese, falando dos católicos que viveram experiências dolorosas “por causa da moral rígida” da Igreja.

A reportagem é de Kathrin Brüggemann, publicada por Gionata.org, 18-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Muitos deles cresceram com proibições e condenações morais que os feriram de modo permanente”, recordou o bispo do Vale do Ruhr. O seu objetivo é “afastar-se da instituição para ir ao encontro das pessoas individuais e das suas necessidades”.

A revista Bene, da Diocese de Essen, quis ir ao encontro dessas pessoas feridas e falar com aqueles especialistas, teólogos e psicólogos, que frequentemente se chocam com a moral sexual da Igreja. Por que o fazem e concretamente o que pedem à Igreja?

Uma bênção aos casais homossexuais que seja visível para todos

Rainer Teuber trabalha desde 1994 no Capítulo da Catedral da Diocese de Essen, para o tesouro da Catedral de Essen. Desde 2017, dirige o setor de formação museal e o serviço aos visitantes. Ele está ligado à fé católica por razões não só profissionais, mas também privadas. Ele está engajado na sua comunidade de São José (Essen-Frintrop) e quase todos os domingos participa da celebração com o seu marido Karl-Heinz. Segundo ele, isso ajuda ele e o seu companheiro a concluir a semana com gratidão e começar outra. Os dois estão casados há 16 anos.

Em 2004, eles tentaram receber uma benção sobre a sua união na igreja, mas não encontraram nenhum religioso católico a quem pudessem se abrir. Por isso, pediram a um pastor evangélico para ajudá-los. Este se declarou disposto a dar a bênção, mas, de todos os modos, não em uma igreja evangélica. No fim, a “bênção” do casal foi realizada em uma pousada.

“O fato de não haver a possibilidade de ter acesso a uma bênção digna na igreja para o meu marido e eu me deu a sensação de ser um cristão de segunda classe. Eu espero da Igreja Católica que ela seja coerente com a mensagem fundamental do cristianismo e que reconheça que todos os seres humanos são queridos e amados por Deus, de modo absolutamente independente da sua orientação sexual.”

Ele continua: “E espero que, ao avaliar uma relação, sejam levados em consideração todos os aspectos que a constituem, não apenas a sexualidade. O que importa é que os dois parceiros que se amam se comportem de forma consciente em relação à responsabilidade mútua e cuidem um do outro. São esses os valores cristãos que deveriam estar em primeiro plano.”

“Por muito tempo – afirmou –, a moral sexual da Igreja não apenas foi inibida e antiquada, mas também marginalizou muitas pessoas! Eu tenho a grande esperança de que Karl-Heinz e eu, em um futuro não muito distante, possamos convidar os nossos entes queridos para a nossa celebração de bênção na igreja. Uma bênção que seja visível para todos, celebrada oficialmente durante uma liturgia, e não atrás de uma porta fechada ou entreaberta.”

“Isso seria para nós um sinal inequívoco para nos sentirmos acolhidos e considerados como membros da comunidade cristã, apreciados como portadores de um valor pleno, tal como somos. Com tudo aquilo que nos constitui e, portanto, também com a nossa sexualidade, que é um aspecto entre tantos outros.”

Falar abertamente de sexualidade

Carsten Müller é fundador e diretor do Praxis für Sexualität, um centro de aconselhamento em Duisburg. Com a sua equipe, ele oferece cursos de prevenção, terapias de casal e aconselhamento individual em toda a Alemanha.

O terapeuta parte do pressuposto de que se fala pouco ou nada sobre sexualidade na sociedade, o isso provoca muitas inseguranças. A resposta à sua oferta é chocante, segundo ele. Todos os dias ele tem que lidar com pessoas que têm perguntas urgentes sobre o assunto, incluindo muitos fiéis católicos.

“Alguns deles preferem vir ao meu consultório em vez de ir a uma secretaria eclesial. Simplesmente, nesse campo, eles não reconhecem nenhuma competência para a Igreja Católica. É claro que a Igreja tem uma ideia de como a sexualidade deve ser vivida, mas quase ninguém – para ser franco – pode levá-la a sério. Ela está simplesmente longe demais da experiência real de vida de muitas pessoas.”

“Eu conheço pessoas de profunda fé – continua – que se movem em um campo de tensão entre aquilo que sentem e aquilo que a instituição religiosa espera delas. As pessoas muitas vezes se sentem deixadas sozinhas com as suas perguntas. Por exemplo: como lidar com a homossexualidade? O que acontece se sou divorciado e me apaixono de novo? Como lidar com o tema do sexo antes do casamento? Há pouco tempo, veio ao meu encontro um jovem em luta consigo mesmo, porque gostaria de ter relações sexuais com a sua namorada, mas, com base na moral sexual da Igreja, ele não deveria fazer isso antes do casamento. Costumo ouvir as pessoas dizerem: ‘Sim, eu realmente gostaria de obedecer, mas não consigo me comportar como deveria’.”

Segundo ele, “é também uma questão de identidade. A sexualidade faz parte dela. Se uma instituição como a Igreja impede as pessoas de viverem plenamente a sua identidade ou de manifestá-la, nascem um sentimento de opressão e uma dilaceração interior. Quando um aspecto que pertence à personalidade de alguém é reprimido, isso tem efeitos: desde problemas psíquicos, como depressão, até o afastamento da Igreja. Se ela não consegue ir ao encontro das pessoas na sua experiência de vida concreta, então este é um problema existencial para a Igreja. Por um lado, a comunhão cristã, por outro, uma visão em compartimentos estanques: não são impulsos absolutamente compatíveis!”

“Seria fundamentalmente bom – afirma – se falássemos abertamente sobre sexualidade, libertando esse tema dos sentimentos de culpa. No fim das contas, é algo positivo, bonito e agradável. E não diz respeito apenas à corporeidade, mas também às relações, ao encontro com o outro e à percepção de si mesmo.”

“Naturalmente, se pensarmos no escândalo dos abusos sexuais, é imensamente difícil para a Igreja encontrar uma forma adequada de comunicação sobre esse assunto. No entanto, deve haver formas de levar o tema da sexualidade à consciência das pessoas de um modo positivo e agradável. A meu ver, já poderíamos falar sobre isso com os jovens e torná-la objeto de reflexão nos cursos de preparação para o casamento ou nas homilias.”

Segundo ele, “essa liberdade de expressão também teria vantagens em caráter preventivo. Se eu sei que há alguém com quem eu posso falar francamente sobre a minha sexualidade, talvez seja mais fácil para mim me abrir. A Igreja quer acompanhar as pessoas na sua vida, e o tema da sexualidade é uma parte essencial dela. Lá onde as pessoas vivem a sua fé, deve haver uma proximidade emocional. E, lá onde há uma proximidade emocional, há também uma proximidade corpórea. Na minha opinião, a Igreja tem o dever de levar essa exigência em consideração.”

Fecundidade significa muito mais

Ansgar Wucherpfennig é professor de Novo Testamento na universidade jesuíta São Jorge, em Frankfurt. Ele descreve a sexualidade como um dom da criação, que Deus deu aos seres humanos. Aos seres humanos, que se completam de formas diferentes e são iguais na sua necessidade e no seu desejo pelo Outro.

E ele fala de duas formas para entender a moral sexual da Igreja: de uma nova abordagem, que vá além da genitalidade corpórea e possa significar também ter atração ou interesse recíproco. Em segundo lugar, há uma acepção mais restrita, que se refere apenas à sexualidade meramente genital.

De acordo com a interpretação do magistério da Igreja, a sexualidade só seria permitida dentro do casamento. Qualquer atividade sexual que ocorra fora do casamento constituiria um pecado grave. Consequentemente, a Igreja exclui o amor homossexual. Precisamente nesse sentido, entretanto, muita coisa mudou nos últimos 40 anos. Por isso, é necessário observá-lo de uma maneira nova.

“Eu acho que a Bíblia não é suficiente como fonte para a Igreja Católica se posicionar sobre o assunto. Em todo o caso, é importante manter a tradição cristã. No entanto, é preciso levar em conta as descobertas das ciências humanas atuais e ouvir as experiências, muitas vezes dolorosas, dos fiéis. Posso entender muito bem que as pessoas homossexuais sofrem pelo fato de as celebrações de bênção só poderem acontecer em segredo. Para essas celebrações de bênção, é necessário um reconhecimento oficial da Igreja, e vários bispos poderiam dar para as suas dioceses. Isso seria totalmente possível com base na atual doutrina da Igreja, pois nessas relações se encontram muitas coisas que são dignas de bênção, como por exemplo a fidelidade, o respeito pela liberdade recíproca, a igualdade, o compromisso mútuo. Para essas celebrações, existem várias propostas – inclusive da Igreja da cidade de Frankfurt – que deveriam ser uma oferta para todos aqueles casais que não são admitidos ao sacramento do matrimônio pela Igreja Católica. Desse modo, os casais homossexuais não ficariam tão isolados.”

Segundo ele, “essa oferta poderia, então, dizer respeito, por exemplo, aos casais que ainda não estão prontos para o casamento, mas, apesar disso, desejam que a sua relação seja abençoada. Além disso, não pode ser que o sacramento do casamento possa santificar tudo. E se alguém sofrer violência na vida matrimonial? Uma atividade sexual que exclua a igualdade e a reciprocidade é moralmente questionável. Por isso, para essas situações, o fato de ser casado não vale como critério absoluto. A Igreja, através da sua doutrina, deve fundamentar e estabelecer valores para as relações, que comprometam da mesma forma as pessoas que se amam, homo ou heterossexuais. É essa, na minha opinião, a responsabilidade dela.”

“A Igreja Católica – continua – também deveria aceitar, de uma vez por todas, que um casamento pode fracassar e encontrar soluções diferentes, em vez de declarar inválida essa união. Para muitas pessoas cujo casamento fracassou, a categoria ‘inválido’ não é boa. A relação vivida pode ser em si, até para o futuro, muito importante, a ponto até de enriquecer as pessoas, mesmo quando elas têm que admitir, depois, que não podem mais continuar juntas. A Igreja, para situações semelhantes, encontrou a solução da nulidade, porque assim pode manter o princípio da indissolubilidade do matrimônio. Faria mais sentido buscar outras soluções. Eu também gostaria de ampliar o conceito de fecundidade, com o qual podemos entender muito mais do que apenas a procriação biológica. Se um homossexual, no mundo gay, se professa abertamente católico, isso representa uma forma de viver a fé com convicção na vida cotidiana. Esse também é um sinal de fecundidade. Sei de pessoas homossexuais que vivem a fecundidade cuidando de idosos ou comprometendo-se com trabalhos sociais.”

Para ele, “a Igreja Católica deve enfrentar a grande lacuna que se abre hoje entre a sua lei e a sua moral, de um lado, e a realidade vivida das relações, de outro, ou ela se tornará uma espécie de nave espacial Enterprise, desconectada de todas as realidades terrenas.”

A Diocese de Essen pretende examinar e mudar o sistema da Igreja em muitos âmbitos. Esse projeto também envolve a observação da moral sexual católica. É preciso falar abertamente sobre sexualidade, relações, identidades e orientações sexuais. Preconceitos e reservas devem ser demolidos. Os testemunhos de vida devem ser ouvidos. Um grupo de trabalho está elaborando neste período um projeto com propostas concretas. O objetivo é desenvolver uma ideia de sexualidade adequada a múltiplos modelos de vida. Mais informações aqui.

 

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