Coronavírus, o WWF: a destruição de ecossistemas é uma ameaça à nossa saúde

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16 Março 2020

"As mudanças no uso da terra e a destruição de habitats naturais, como florestas, são responsáveis pelo aparecimento de pelo menos metade das zoonoses emergentes. A destruição das florestas pode, portanto, expor o homem a novas formas de contato com os micróbios e com as espécies silvestres que os hospedam", escreve Giovanni Gagliardi, em artigo publicado por La Repubblica, 14-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Existe uma ligação muito estreita entre a disseminação de pandemias e o tamanho da perda da natureza. O nexo, já demonstrado em estudos recentes, encontra outra confirmação em um novo relatório do WWF Italia, intitulado "Pandemias, o efeito bumerangue da destruição de ecossistemas - Tutela da saúde humana pela preservação da biodiversidade", em tradução livre, que tenta colocar em evidência alguns dos efeitos mais devastadores das ações humanas, focalizando a atenção em algumas doenças que têm forte impacto não apenas na saúde das pessoas, mas também na economia e nas relações sociais.

Vírus, bactérias e outros microrganismos que na maioria dos casos são inofensivos, senão mesmo essenciais para ecossistemas e seres humanos, nos últimos vinte anos foram a causa de epidemias globais. Não parece ser diferente o caso do Covid-19, a doença causada pela disseminação do vírus Sars-CoV-2 que médicos e cientistas de todo o mundo ainda estão estudando para entender como debelá-lo.

A pandemia causada pelo novo coronavírus encontrado na China, epicentro da Covid-19 desde meados de dezembro, faz parte das chamadas "doenças emergentes" - como Ebola, Aids, Sars, gripe aviária ou suína - que não são catástrofes de todo casuais, mas mostram numerosos elementos em comuns. O relatório da WWF indica de fato com que frequência as "zoonoses", ou doenças transmitidas por animais aos seres humanos (exatamente como o Covid-19), estão diretamente ligadas ao comportamento incorreto por parte do homem, incluindo o comércio ilegal ou não controlado de espécies silvestres e, de maneira mais geral, o impacto do homem nos ecossistemas naturais.

Epidemias, dos animais ao homem

Na base da origem do novo coronavírus está o fenômeno de spillover, explicado pelo jornalista científico estadunidense David Quammen em um livro de sucesso (2012) que relata como na base de epidemias como o Ebola está a destruição dos ecossistemas, especialmente os ecossistemas florestais, os mais complexos e ricos em biodiversidade. O spillover (que significa "salto interespecífico") é o momento em que um patógeno passa de uma espécie hospedeira para outra, neste caso de animal para homem.

No momento, os cientistas consideram que entre os reservatórios mais prováveis do vírus Sars-CoV-2 existem algumas espécies de quirópteros (morcegos), mas permanece aberta a hipótese que foram os pangolins a facilitar sua difusão como “hospedeiros intermediários”'. Esses pequenos mamíferos insetívoros, cujas oito espécies existentes estão em risco de extinção, de acordo com a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), são os animais mais contrabandeados do mundo devido às infundadas crendices sobre os poderes curativos de suas escamas, mas também por sua carne deles.

Tráfico ilegal de animais silvestres

Até o momento, ainda não sabemos qual tenha sido a origem do Sars-CoV-2, mas é muito provável que, por trás de sua disseminação, haja o comércio legal e ilegal de animais silvestres vivos ou de partes deles. Já reconhecido como um veículo comprovado de antigas e novas zoonoses, o tráfico ilegal de animais silvestres causa todos os anos cerca de um bilhão de casos de doenças e milhões de mortes. De fato, 75% das doenças humanas conhecidas até hoje derivam de animais, assim como 60% das doenças emergentes são transmitidas por animais silvestres.

Destruição dos habitats

Os ecossistemas naturais desempenham um papel crucial na sustentação e alimentação da vida, incluindo a de nossa espécie, mas também desempenham um papel fundamental na regulação da transmissão e disseminação de doenças infecciosas, como as zoonoses. A destruição de habitats e de biodiversidade causada pelo homem rompe o equilíbrio ecológico, capaz de conter os microrganismos responsáveis por algumas doenças e criar condições favoráveis à sua propagação.

Sem mencionar que a criação de habitats artificiais ou ambientes pobres de natureza e com alta densidade humana pode facilitar ainda mais a disseminação de patógenos. Os subúrbios degradados e sem verde de muitas metrópoles tropicais, por exemplo, são o berço perfeito para doenças perigosas e para a transmissão de zoonoses, enquanto a disseminação nos países tropicais de sistemas de irrigação, canalização e represas permite a reprodução de vetores como algumas espécies de mosquitos.

Florestas, nosso antivírus

As mudanças no uso da terra e a destruição de habitats naturais, como florestas, são responsáveis pelo aparecimento de pelo menos metade das zoonoses emergentes. A destruição das florestas pode, portanto, expor o homem a novas formas de contato com os micróbios e com as espécies silvestres que os hospedam. Nas florestas incontaminadas da África Ocidental, lembra o relatório da WWF, vivem alguns morcegos portadores do vírus Ebola. A mudança no uso do território, como as estradas de acesso à floresta, a expansão dos territórios de caça e a coleta de carne de animais silvestres (bushmeat), o desenvolvimento de aldeias e outros assentamentos em territórios anteriormente selvagens, levaram à população humana para um contato mais próximo com novos vírus, favorecendo o aparecimento de novas epidemias.

O mesmo aconteceu com doenças como a febre amarela (transmitida por mosquitos e por macacos infectados), leishmaniose ou HIV, que se adaptou ao homem a partir da variante presente nos macacos das florestas da África Central. O consumo de bushmeat está crescendo drasticamente em diferentes partes do mundo - não apenas na África - e está colocando em risco a saúde humana, assim como o comércio de animais silvestres ou partes dele que, além de serem causa primária de perda de biodiversidade, amplifica potencialmente a propagação de patógenos.

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