Em ‘Querida Amazônia’, Francisco defende o ecossistema com acusações duras contra seus profanadores

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14 Fevereiro 2020

 “Injustiça e crime”. Com essas duas palavras, o Papa Francisco denuncia duramente o desenvolvimento desenfreado que vem ocorrendo na Amazônia e que, segundo ele, destrói um dos ecossistemas mais fundamentais da Terra e despreza seus povos indígenas que, há séculos, trabalham como seus cuidadores.

“Às operações econômicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime”, escreve Francisco em Querida Amazônia, sua reflexão final a partir do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, ocorrido em outubro passado.

Chamado exortação apostólica, o documento foi lançado em 12 de fevereiro em Roma.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 12-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No texto de 88 páginas, Francisco costura ideias a partir do que produziu o Sínodo amazônico (de 6 a 27 de outubro de 2019) e de escritos seus – incluindo sua encíclica de 2015, Laudato Si’: Sobre o cuidado da casa comum – e mesmo a partir de poesia nativa. Com elas, o papa apresenta uma imagem esperançosa da Igreja Católica universal aliada da Amazônia: com o seu povo, sua cultura, sua herança, sua ecologia.

“E, nos dias de hoje, a Igreja não pode estar menos comprometida”, escreve ele. “[Chamada] como está a ouvir os clamores dos povos amazônicos, ‘para poder exercer com transparência o seu papel profético’”.

José Gregorio Diaz Mirabal, coordenador das Organizações Indígenas da Amazônia e que participou do Sínodo no Vaticano, acolheu “o apoio de um poderoso aliado, este valente papa” na luta pela sobrevivência da floresta tropical e seus povos.

“Nas florestas tropicais da América Latina, temos lutado contra governos que nos tratam como criminosos por dizermos não a projetos que represariam nossos rios, escavariam estradas de ruína em nossas florestas e transformariam nossa terra em desertos sem vida e nossos rios em veneno líquido”, disse Diaz Mirabel em um comunicado, acrescentando que os povos indígenas devem ter direitos sobre seus territórios tradicionais.

Josianne Gauthier, secretária-geral da aliança católica CIDSE e participante do Sínodo para a Amazônia, falou que a exortação deste ano faz avançar o processo de reflexão sinodal iniciado com as próprias comunidades amazônicas e leva os fiéis a uma consideração mais profunda de questões políticas fundamentais, como a superexploração dos recursos naturais, as violações de direitos humanos e um modelo econômico que ameaça a sobrevivência de espécies e culturas.

“Ouvimos mais uma vez um chamado para escutar as vozes e a sabedoria das culturas tradicionais, a questionar o nosso modelo de desenvolvimento e a nossa ideia de progresso, mensurando-o contra a destruição da natureza e a violência contra quem a defende”, disse a secretária-geral.

Enquanto muitos esperavam que o papa abordasse diretamente algumas das principais propostas apresentadas no documento final do sínodo – sobre questões ambientais, a definição de pecado ecológico, o desinvestimento em indústrias ambientalmente destrutivas e novos ministérios ecológicos –, Francisco, na maior parte, contornou a expectativa, afirmando desde o início que não pretendeu substituir o documento final dos bispos nem recapitular todas as questões examinadas.

Em vez disso, escreveu que seu objetivo é propor um breve quadro “de reflexão que encarne na realidade amazônica” e que ajude e oriente para uma “recepção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal”. O papa apresenta uma visão da Igreja Católica na Amazônia, unida em defesa de suas tribos, árvores, tradição e afluentes, oferecendo um exemplo para a Igreja em geral adotar em outros cantos do mundo.

“A Amazônia Querida apresenta-se aos olhos do mundo com todo o seu esplendor, o seu drama e o seu mistério”, escreve Francisco na primeira linha de Querida Amazônia, que ele dirige ao “mundo inteiro” em um esforço para “ajudar a despertar a estima e solicitude por esta terra, que também é ‘nossa’, convidando-o a admirá-la e reconhecê-la como um mistério sagrado”.

A bacia amazônica se estende por nove países e mais de dois milhões de acres quadrados. Lar talvez da maior biodiversidade do planeta, juntamente com 33 milhões de pessoas, 400 tribos diferentes, com mais de 100 vivendo em isolamento voluntário, este bioma produz um quinto da água doce do mundo, um quarto de seu oxigênio e um terço das reservas florestais globais.

É também um epicentro da batalha entre o desenvolvimento e a preservação, não apenas do meio ambiente como também da vida e da cultura das pessoas que o chamam de lar há séculos. Esses conflitos vieram à atenção pública internacional nos meses que antecederam o Sínodo para a Amazônia, enquanto incêndios massivos eram vistos na floresta tropical – sumidouro crítico de carbono para o planeta –, em parte devido ao desmatamento para fins agrícolas e pecuários.

Em dezembro, os cientistas informaram que a combinação de desmatamento, incêndios florestais e o aumento da temperatura levou a Amazônia a um “ponto de inflexão” que pode ver partes de suas densas florestas transformarem-se em savanas, com isso trazendo consequências destrutivas para a biodiversidade, o clima e o bem-estar humano. Na semana passada, um estudo científico independente descobriu que um quinto da Amazônia agora produz mais emissões de dióxido de carbono do que absorve, o que os cientistas atribuem em grande parte ao desmatamento.

“O equilíbrio da terra depende também da saúde da Amazônia”, escreve o papa.

“Um clamor que brada ao céu”

Francisco enquadra suas reflexões em Querida Amazônia através de “quatro grandes sonhos” que a Amazônia lhe inspirou: um social, um cultural, um eclesial e um ecológico.

Ao descrever as suas esperanças ecológicas para a região, afirma: “Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas”.

Mas a realidade atual, admite o papa, é forjada com exploração e exclusão, pois as atividades cada vez generalizadas de extração de madeira e mineração extraem recursos da terra enquanto expulsam povos indígenas, seus descendentes de africanos e outros que dependem do rio Amazonas, de seus lares ancestrais. Tais interesses colonizadores, tanto legais quanto ilegais, disse Francisco, provocam “um clamor que brada ao céu”.

“A verdade ineludível é que, nas condições atuais, com este modo de tratar a Amazônia, tanta riqueza de vida e de tão grande beleza estão ‘tomando o rumo do fim’, embora muitos pretendam continuar a crer que tudo vai bem, como se nada acontecesse”, escreve Francisco perto de começar o capítulo três, que foca na ecologia.

“O interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazônia e da humanidade inteira”, acrescenta ele.

O papa condena ainda a presença colonizadora, tanto no passado quanto no presente, da região. Ele citou a asserção do Papa João Paulo II há quase duas décadas de que “não podemos permitir que a globalização se transforme num ‘novo tipo de colonialismo’”.

Voltando ao tema da ecologia integral de Laudato Si’, que irá comemorar o seu quinto este ano, Francisco salienta que as questões ambientais e sociais estão inter-relacionadas e que, por isso, “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social”.

“Não serve um conservacionismo ‘que se preocupa com o bioma, porém ignora os povos amazônicos’”, diz ele citando o instrumentum laboris, documento de trabalho da Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica, de 2019.

A CIDSE, rede de agências de desenvolvimento católicas, acolheu a exortação de Francisco, considerando-a “um convite para nos familiarizarmos com as mensagens fundamentais de Laudato Si’”. A entidade acrescentou que as conclusões do papa, bem como as dos participantes do sínodo, sustentam décadas de trabalho na região amazônica “ouvindo as vozes e as demandas das comunidades locais”.

Da mesma forma, Susan Gunn, diretora do Gabinete Maryknoll para Assuntos Internacionais, disse: “O Santo Padre está falando a linguagem Maryknoll” quando pede ao Povo de Deus e às pessoas boa vontade que busquem uma cultura de encontro e diálogo no trabalho pela justiça na Amazônia e seu povo. O grupo de políticas públicas desta organização religiosa acrescentou que dois grupos a que Francisco faz referência – os agentes pastorais e as comunidades cristãs de base – estão bem preparados para pregar o Evangelho e trabalhar por dignidade e justiça.

“Como afirmou o Papa Francisco, a ecologia e a justiça social estão intrinsecamente ligadas e a região amazônica é um exemplo claro da fragilidade deste equilíbrio”, disse a CIDSE em um comunicado. “Mas também é verdade além da região pan-amazônica: é todo um sistema mundial que permite às empresas multinacionais explorar os territórios e recursos sem prestar atenção suficiente às consequências junto às pessoas e ao meio ambiente”.

Por toda Querida Amazônia, o papa critica o desenvolvimento industrial, estrangeiro e nacional, que arranca os povos indígenas de seus territórios, pessoas que depois migram das grandes florestas e margens dos rios da Amazônia para as cidades onde experimentam “escravização, sujeição e pobreza”. Ele observa que, com a perda dos lares ancestrais, muitas vezes ocorre a perda de cultura e identidade.

“Os povos originários muitas vezes testemunham impotente a destruição do ambiente natural que lhes permite nutrir e manterem-se saudáveis, que lhes permite sobreviver e preservar um modo de vida em uma cultura que lhes dava identidade e significado”, escreve ele, acrescentando que “O grito da região amazônica não surge apenas das profundezas das florestas, mas também das ruas de suas cidades”.

Francisco pede que os povos indígenas da Amazônia sejam empoderados através da educação e do direito à participação nas decisões que envolvem suas terras.

“A estes, especialmente aos povos nativos”, escreveu o pontífice, “cabe receber, para além da formação básica, a informação completa e transparente dos projetos, com a sua amplitude, os seus efeitos e riscos, para poderem confrontar esta informação com os seus interesses e com o próprio conhecimento do local e, assim, dar ou negar o seu consentimento ou então propor alternativas”.

Em um comunicado, o Movimento Católico Global pelo Clima disse que a exortação do papa, e particularmente o seu apoio aos povos indígenas, “tem uma ressonância especial” no momento em que o presidente brasileiro Jair Bolsonaro propôs, na semana passada, a permissão de mineração comercial e projetos industriais, como barragens hidrelétricas em áreas protegidas terras.

Em Querida Amazônia, “o Papa Francisco endossa o papel dos povos indígenas como os guardiões da criação”, disse o Movimento Católico Global pelo Clima com sede em Roma, entidade que representa 900 grupos católicos de todo o mundo.

Dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Missionário, da Conferência dos Bispos do Brasil, acrescentou: “É imperativo que a Igreja tenha uma voz profética e um compromisso incondicional com a defesa dos mais pobres e vulneráveis”.

Não às distrações da destruição

As representações do papa em Querida Amazônia se baseiam e refletem as do próprio sínodo, tanto em seu documento final quanto nos testemunhos pessoais de líderes indígenas que viajaram a Roma para contá-los diretamente à Igreja, bem como as 260 sessões de escuta conduzidas pelo Rede Eclesial Pan-Amazônica.

Em sua exortação, Francisco se abstém de endossar ou mesmo citar ações específicas introduzidas pelos bispos sinodais em seu documento final.

O pecado ecológico não foi mencionado, coisa que os padres sinodais propuseram que fosse definida como uma “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente”. Ainda assim, o papa se referiu ao pecado ecológico várias vezes desde a conclusão do Sínodo dos Bispos e indicou uma eventual inclusão no Catecismo da Igreja Católica.

Outras recomendações dos padres sinodais que Francisco deixa intocadas incluem o desenvolvimento de programas de treinamento da “casa comum” e a criação de ministros especiais para o cuidado ambiental. Ele também evitou comentar o pedido do Sínodo dos Bispos, muitos dos quais são da Amazônia, para que a Igreja na região se junte às – e apoie as – campanhas de desinvestimento de empresas envolvidas naquilo que muitos chamam de destruição socioecológica.

E embora o papa tenha pedido medidas imediatas para abordar as mudanças climáticas em mensagens às Nações Unidas e aos executivos do setor energético, ele limita os comentários em Querida Amazônia, referindo-se apenas à necessidade de procurar fontes alternativas de energia não poluentes e ao papel importante da Amazônia como o “grande filtro do dióxido de carbono, que ajuda a evitar o aquecimento da terra”.

Um apelo que Francisco faz é que todos “deveríamos insistir na urgência” de criar limites claros e assegurar a proteção dos ecossistemas. O líder católico diz também da importância de os cristãos verem a região amazônica a partir de um ponto de vista teológico, “um espaço onde o próprio Deus Se manifesta e chama os seus filhos”.

O papa também pede que não “deixamos que a consciência se torne insensível” ou distraída à grave destruição que desafia o planeta, a qual, segundo ele, “a constante distração nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito”. Ele diz que uma verdadeira ecologia integral incentiva novos hábitos de combate ao consumismo e à cultura do descarte predominantes nas cidades da Amazônia e em outros lugares.

“Não haverá uma ecologia sã e sustentável, capaz de transformar seja o que for, se não mudarem as pessoas, se não forem incentivadas a adotar outro estilo de vida, menos voraz, mais sereno, mais respeitador, menos ansioso, mais fraterno”, declara o papa.

Em vários momentos, Francisco refere-se ao conceito de “bem viver”, comum entre os povos indígenas amazônicos. Ele o descreve como uma abordagem comunitária da vida, que encontra harmonia, alegria e satisfação na vida simples e nos “pequenos dons de Deus”, enquanto cuida com responsabilidade da natureza para preservá-la para as gerações futuras.

Gauthier, secretária-geral da CIDSE, disse que a exortação de Francisco pede a todas as pessoas que não apenas ouçam os gritos dos povos indígenas e da biodiversidade da Amazônia, mas também examinem sua própria vida e a maneira como as escolhas pessoais podem contribuir para o sofrimento dos outros. Durante o sínodo, a CIDSE promoveu o seu programa de filosofia de vida sustentável, “Mudança para o planeta: cuide do povo”, iniciado em 2015.

“Não tem a ver só a Amazônia, tem a ver com todos nós, com o nosso modo de vida, as nossas responsabilidades, mentalidade colonial e como nos justificamos em vez de questionar o nosso próprio comportamento consumista”, disse Gauthier.

“Aprendendo com os povos nativos”, escreve Francisco, “podemos contemplar a Amazônia, e não apenas analisá-la, para reconhecer esse precioso mistério que nos supera; podemos amá-la, e não apenas usá-la, para que o amor desperte um interesse profundo e sincero; mais ainda, podemos sentir-nos intimamente unidos a ela, e não só defendê-la: e então a Amazônia tornar-se-á nossa como uma mãe”.

 

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