Sínodo é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo de São Gabriel da Cachoeira

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30 Setembro 2019

São Gabriel da Cachoeira (AM) – Centro das atenções da imprensa mundial devido às queimadas e às propostas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) que envolvem exploração mineral, avanço da fronteira agrícola e suspensão da demarcação de terras indígenas, a Amazônia brasileira ganha ainda mais destaque nas próximas semanas. Dessa vez, por seu papel primordial na questão ambiental, cultural e religiosa: entre os dias 6 e 27 de outubro, a Igreja Católica realiza no Vaticano, em Roma, o Sínodo dos Bispos para a Amazônia com o Papa Francisco.

A reportagem é de Ana Amélia Hamdan, publicada por Amazônia Real, 28-09-2019.

O bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Taschetto Damian, 71 anos, é um dos 11 bispos da Amazônia convocados pelo Vaticano para o Sínodo. “A Amazônia estará na vitrine do mundo”, diz ele, que iniciou sua vida missionária na região amazônica em 1999 na Diocese de Roraima. O bispo foi também membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Para sua fala durante o Sínodo, Dom Edson Damian elencou dois temas: a inculturação e a Igreja Índia Amazônica, propondo que as cerimônias católicas agreguem não só as línguas indígenas, mas também símbolos e rituais tradicionais desses povos.

A Diocese de São Gabriel está localizada na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, onde há a maior população indígena do Brasil. Dos 45.564 habitantes do município, 95% são indígenas que representam 23 etnias. É também o lugar onde tem quatro línguas oficiais indígenas: tukano, baniwa, yanomami, nheengatu, além do português.

No total, mais de 250 bispos, religiosos, pesquisadores e representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) participarão do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que discutirá questões sociais e ambientais dos noves países que integram a bacia amazônica: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

Dom Edson aponta que São Gabriel da Cachoeira, inclusive devido à sua localização fronteiriça, está sujeita a problemas como exploração de crianças e adolescentes e o tráfico de drogas, questões que serão discutidas durante o Sínodo. Ainda assim, considera que as dificuldades de acesso acabam protegendo a região que, segundo o religioso, é uma das menos atingidas por desmatamento.

Presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde maio deste ano, Dom Edson embarca para Roma na próxima semana (em 3 de outubro), levando como presente para o Papa Francisco: um cálice e um cibório, objetos usados na celebração da Eucaristia, feitos em madeira da árvore pau-brasil. E a viagem coincide com os 10 anos de Dom Edson em São Gabriel, que está como bispo da Diocese de São Gabriel desde 2009.

Natural de Jaguari, no Rio Grande do Sul, Dom Edson Damian é membro da Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, que segue a espiritualidade de Charles Foucauld. É também o primeiro bispo não salesiano a assumir a Diocese de São Gabriel, fundada em 1941.

Filósofo formado pela Universidade Federal de Santa Maria e teólogo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ele foi ordenado padre em 1975 por Dom Ivo Lorscheiter (1927-2007). Em entrevista ao Amazônia Real, o bispo disse que o Sínodo pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à Amazônia e aos povos indígenas. E afirma: “A Igreja não terá medo de dizer a verdade”. Leia abaixo a entrevista com o bispo Dom Edson Damian.

Eis a entrevista.

Como foram elaboradas as questões a serem discutidas durante o Sínodo da Amazônia?

 O Papa Francisco, quando convocou o Sínodo, em 15 de outubro de 2017, disse que é um Sínodo especial para a Pan-Amazônia, com dois objetivos: buscar novos caminhos para a Igreja e novos caminhos para uma ecologia integral. Os principais interlocutores desse Sínodo serão os povos indígenas, os povos originários da Amazônia. Ele disse que, nunca como hoje, os direitos dos povos indígenas estiveram tão ameaçados. Ali, então, o Papa delineou o que ele deseja com esse Sínodo. Além dos indígenas, os ribeirinhos, caboclos, habitantes das periferias das grandes cidades deverão ser os principais interlocutores.

O Conselho Pré-Sinodal teve diante de si 1.200 páginas de propostas da escuta que foi feita das comunidades cristãs de toda parte. Nas comunidades indígenas e nas cidades. Essa equipe escreveu o instrumento de trabalho, que ficou pronto em 13 de junho. E do conselho faz parte o padre Justino Tuyuka, único padre indígena do grupo.

É um caminho sinodal, que envolve toda a igreja, a partir das comunidades de base. Dos 390 povos indígenas da Pan-Amazônia, 179 participaram. Aqui em São Gabriel, representantes de todas as 23 etnias participaram.

Quais as principais questões levantadas?

As comunidades que habitam a região amazônica identificaram os seguintes problemas como questões de importância crucial para o Sínodo, por meio de amplo processo de consulta e escuta: a criminalização e assassinato de líderes e ativistas, que defendem territórios e povos indígenas; as práticas predatórias de caça e pesca; as concessões de abate ilegal de árvores; os megaprojetos infraestruturais; concessões de hidrelétricas, monoculturas, projetos mineiros e petrolíferos. A poluição provocada por todas as indústrias, que causa problemas e doenças, em particular a crianças e jovens; o narcotráfico.

Os problemas sociais, como alcoolismo, violência contra a mulher, a exploração sexual; o tráfico de seres humanos; a perda da cultura e identidade. Depois a falta de demarcação de territórios indígenas, a falta de reconhecimento de seu direito a terra. A rápida perda da biodiversidade e as consequências para o planeta, uma vez que a floresta amazônica representa um pulmão vital para a atmosfera. A vida humana e o ambiente estão sofrendo uma séria e, talvez, irreversível destruição.

Dessas questões, quais atingem mais a região de São Gabriel da Cachoeira?

Em São Gabriel, a violência contra mulheres, contra crianças, abusos sexuais contra menores, o problema do alcoolismo, das drogas. Estamos aqui muito perto da fronteira. E sabemos que muitos indígenas, para sobreviver, colaboram para transportar drogas dos países vizinhos para cá. E, claro, que daqui da nossa região surgiu também esse grito: queremos mais padres e diáconos para atender a nossa comunidade.

O senhor está aberto à proposta de que homens casados possam celebrar missas?

A gente vai propor nesse Sínodo, sem abolir o celibato, a possibilidade de ordenar homens casados. Homens casados que vivam de seu trabalho, com famílias bem constituídas. E, claro, que tenham uma preparação adequada para que possam celebrar a eucaristia nos finais de semana. Estou aberto a essa proposta e vou defendê-la.

As mulheres pedem que tenham espaço maior de participação, que estejam mais presentes não só para executar tarefas, mas nos momentos de decisão. Que elas possam ter ministérios próprios. A gente vai pedir que as mulheres possam receber a ordenação diaconal.

E tudo isso tem um princípio que apareceu nessa consulta para o Sínodo, que é preciso passar de uma Igreja que visita para uma Igreja que permanece. Aqui na nossa região, devido às longas distâncias, os custos de transporte e combustível, os padres visitam quatro vezes por ano as comunidades. Então é uma pastoral de visita. Passar para uma pastoral de presença com as comunidades podendo ter seus ministros ordenados, as mulheres diáconas, os homens presbíteros, celebrando a eucaristia.

Essa é uma forma de fazer frente ao avanço da Igreja Evangélica?

Em algumas regiões, sim. Aqui nem tanto. Temos paróquias aqui, como Taracuá, Pari-Cachoeira e Yauaretê, que são 100% católicas. São acompanhados pela Igreja Católica há mais de 100 anos.

Qual a relação do Papa Francisco com a Amazônia?

O Papa Francisco (ainda como cardeal arcebispo de Buenos Aires) conheceu sobre a Amazônia em 2007, quando houve a V Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe. Ficaram três semanas em Aparecida (SP) para analisar a situação da Igreja aqui. E ele ficou impressionado diante dos bispos da Amazônia que descreveram uma realidade dramática, pedindo que a Igreja abrisse novos caminhos, que mandasse novos missionários.

E é por isso que o primeiro documento que ele escreveu foi Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) e tem toda a proposta de uma conversão pastoral. A Igreja em saída, que deve ir às periferias geográficas e existenciais. Definiu a igreja como um hospital de campanha, que vai juntar os feridos. É um novo modelo. Isso foi no fim de 2013.

E esse Sínodo vai para a Amazônia, a periferia do Brasil, considerada a despensa, o lugar onde tem reservas intermináveis, onde cada um se julga no direito de vir aqui derrubar quanto quer e com essa economia predatória.

Em 2015 o Papa escreveu o Laudato Si', o documento ecológico mais completo da Igreja. Esse documento deu um peso muito grande. É o cuidado da Casa Comum. Então esse Sínodo é um novo caminho para a Igreja e para uma ecologia integral.

Em seu discurso na ONU, há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro disse que as atuais queimadas na Amazônia são um incidente favorecido pelo clima seco e por práticas da cultura local. Voltou a afirmar que a população indígena pede desenvolvimento. Reforçou que não vai demarcar mais terras. A fala foi duramente criticada por lideranças dos povos indígenas. O que o senhor considera sobre essas posições?

Isso é lamentável. A figura que o presidente fez na ONU é algo que nos envergonha a todos. Disse coisas, mas aqui é o contrário que está acontecendo. A Igreja não terá medo de dizer a verdade. Nessas três semanas que vai acontecer o Sínodo, em Roma, a Amazônia estará na vitrine do mundo, com jornalistas do mundo inteiro. E são 58 bispos. Iremos para lá, a gente conhece a realidade. Nós moramos aqui. Não somos visitantes e nem viemos aqui para explorar. Viemos para defender. Defender a verdade do evangelho, que deve chegar ao coração de todos, e os direitos humanos, principalmente daqueles mais fragilizados e que são oprimidos e maltratados.

O governo Bolsonaro também criticou o Sínodo da Amazônia. Os bispos da Pan-Amazônia divulgaram carta lamentando que, em vez de serem apoiadas, as lideranças estão sendo criminalizadas como inimigos da pátria. O senhor vem sentindo essa tensão no dia a dia?

Não. Aqui temos um bom diálogo, numa localidade onde 90% da população é formada por povos indígenas. As instituições que estão aqui têm sensibilidade pela situação do povo, tão desassistido e abandonado. Como criticar e falar mal?

E sobre os posicionamentos do Governo Bolsonaro, que propõe um modelo desenvolvimentista? Há alguma pressão?

Aqui a gente está num lugar privilegiado, pois quase 90% das terras do município de São Gabriel da Cachoeira foram demarcadas e homologadas. Foi uma conquista do povo. A gente pode dizer que nessa região menos de 3% da floresta foi derrubada. É a mais preservada de toda a Amazônia. Porque os povos indígenas estão aqui. Não chegaram madeireiros, nem agronegócio, nem mineradoras. Essas últimas estiveram aqui, mas foram mandadas embora por pressão dos povos indígenas, que perceberam que só traziam malefícios e doenças.

Também há dificuldades. As longas distâncias – são 1.200 km de Manaus até aqui -, o transporte difícil e caro. Depois também a terra da região é arenosa, ácida, não produz muita coisa.

E sobre as demarcações especificamente?

Poucos brancos protestam contra a demarcação. Isso vai se acentuar com o governo que está abrindo campo para esse pessoal. Sentem-se apoiados para fazer isso. A Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), presidida por Marivelton Baré, está bem organizada e está acompanhando.

O tema da Sínodo é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Quais os caminhos os povos indígenas podem indicar quanto à ecologia integral?

O indígena tem uma relação profunda com a natureza. Com a floresta, com os rios, com os peixes, os animais, as aves. Ecologia integral é um dar-se conta que somos terra, somos água, tudo está interligado. Tudo está interligado nessa casa comum. Os povos têm ligação com a mãe terra. Os rios são as veias. Como vamos poluir o sangue da mãe terra, que é nossa vida.

Sobre qual tema o senhor falará durante o Sínodo?

Cada bispo tem direito a duas falas de 4 minutos cada uma. Como estou aqui, na diocese mais indígena do Brasil, eu vou defender dois pontos. A inculturação na liturgia, na catequese, nos ministérios da Igreja; e a Igreja Índia Amazônica. São valores dos povos indígenas, suas músicas suas danças, seus ritos que devem entrar nas nossas celebrações.

E no fim do ano, em 14 de dezembro, eu vou ordenar um padre Tukano, em Taracuá. No dia 15, ele vai celebrar a missa totalmente em tucano. E o Sínodo abre esses caminhos. E temos outro padre do povo Baniwa preparando a missa em [na língua] baniwa.

Os valores dos povos indígenas são evidentes. A integração com o meio ambiente, o cuidado de não destruir mais do que precisa para sobreviver, a vida comunitária, a partilha dos alimentos.

Não existe celebração nessas comunidades ribeirinhas onde depois da missa não se faça a partilha dos alimentos, da quinhanpira [prato indígena do Alto Rio Negro]. Já durante a missa eles fazem o dabucuri: eles trazem os seus presentes e fazem questão que o padre leve a farinha, o beiju, a tapioca, banana, abacaxi, frutas da época. A missa que continua na refeição comum. São valores cristãos que os povos indígenas viveram desde sempre.

Além da visibilidade dada à Amazônia pelo Sínodo, quais os ganhos os povos indígenas podem ter após o encontro no Vaticano?

O Sínodo abre novos caminhos para evangelização. O Papa insiste que devemos apresentar propostas criativas e corajosas. Virão propostas para serem aplicadas imediatamente, outras de médio e longo prazo. E o Sínodo tem caráter consultivo. Apresenta-se uma proposta e depois o Papa escreve, colocando coisas novas. Mas o Papa informou que, se houver unanimidade nas propostas, o Sínodo será deliberativo. Ele assina com as propostas dos bispos. Isso é uma novidade.

E também há a conscientização para o cuidado que devemos ter por esse bioma com benefícios para a humanidade e que não podemos destruir com megaprojetos, economia predatória e incêndios, com projetos que vêm de fora, sem consulta aos habitantes daqui, que acabam prejudicados por devastação.

Cientistas dizem que já foram derrubados 20% da Floresta Amazônica. Em algumas regiões, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, 90% da floresta já não existem mais. Se destruir mais 5%, será irreversível. E há todos os benefícios que a Amazônia traz para o Brasil inteiro, como os rios voadores. As chuvas vão da Amazônia para o Sudeste. Vai até o Cone Sul.

Logo após os incêndios do mês de agosto, inclusive como 10 de agosto como o Dia do Fogo, com o pessoal das madeireiras, do agronegócio que combinaram botar fogo junto. O que aconteceu? Ao invés da chuva, uma fumaça densa escureceu São Paulo às 15h.

O Sínodo para a Amazônia pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à região?

É um movimento de resistência. Basta! O que se destruiu foi demais. Vamos parar por aqui em nome do equilibro ecológico. Tem um movimento de resistência e é crescente. Os povos indígenas são os primeiros a se manifestar, mesmo com a sociedade brasileira bastante apática. São os primeiros que levantam a voz e, quando vão a Brasília, sabem o que dizer.

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