Dom Ivo Lorscheiter e a conversão pelos perseguidos e injustiçados nos Anos de Chumbo. Entrevista especial com Thiago Alves Torres

Dom José Ivo Lorscheiter (à direita) recebendo dom Albino Luciani (ao centro), antes deste ser aclamado papa João Paulo I, em Santa Maria/RS, 1975. Foto: Diocese de Santa Maria

Por: Wagner Fernandes de Azevedo e João Vitor Santos | 03 Março 2019

As recentes notícias sobre a espionagem da Igreja Católica do Brasil pelo Palácio do Planalto relembraram o período ditatorial do país. O general Augusto Heleno manifestou que o governo Bolsonaro está “preocupado e quer neutralizar” o debate do Sínodo da Amazônia. Durante a ditadura militar, a Igreja se dividia entre apoio e oposição; essa ambivalência alarmava os militares sobre um possível inimigo, a ser vigiado e perseguido. Em 1971, quando as medidas mais repressivas dos Anos de Chumbo estavam instauradas, José Ivo Lorscheiter foi eleito o secretário-geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB. O então bispo-auxiliar de Porto Alegre assumiu a função de articular entre grupos de dentro e de fora da Igreja que se opunham ou se alinhavam ao regime. É nessa dialética entre o político e o eclesial que dom Ivo “experimentou a Conversão”, segundo o historiador Thiago Alves Torres.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o historiador destaca que a formação de dom Ivo como padre e bispo perpassa contradições que podem existir em alguém que se coloca entre o repressivo e o libertador. Durante sua trajetória episcopal, reviu a sua concepção de Igreja, construída durante seus estudos em Roma. “Como estudante de Teologia, aprofundou-se nos ensinamentos do Concílio Vaticano I, se opôs aos pensadores da Nova Teologia; depois do Concílio Vaticano II, sem perder o essencial (as “coisas velhas”), desafiou-se ao ‘novo’ ”, destaca Thiago.

Esse processo que o historiador chama de “Conversão”, está ligado a um dom Ivo que “optou claramente por um lado e definiu sua atuação: escolheu ficar com Jesus e com seu povo”. Entre os desafios de seu episcopado, Thiago destaca que “diante de um governo autoritário, de uma nação amplamente católica, de pessoas cristãs que concordavam com as torturas e violações dos direitos humanos, dom Ivo precisou ser oposição, resistência”. O historiador aponta, ainda, que seus movimentos como secretário-geral o tornaram visado tanto para aqueles que viam nele um “porto-seguro” contra a ditadura, como para os militares que viam nele um opositor. “Apoiar as causas dos pobres, dos perseguidos, dos injustiçados, dos violados e violentados”, foi a insistente ação pastoral do bispo.

 

Quem foi D. Ivo?

José Ivo Lorscheiter nasceu, em São José do Hortêncio, RS, numa família simples e religiosa de origem alemã. Seus pais eram Francisco Lorscheiter e Maria Mohr. Tinhe um irmão padre (Vendelino Lorscheiter, SJ) e vários familiares religiosos, dentre os quais seu primo Dom Aloísio Cardeal Lorscheider.

O Instituto Humanitas Unisinos entrevistou, pessoalmente, duas vezes, D. Aloisio Lorscheider. A primeira vez, em 22-11-2004, quando esteve na Unisinos participando de um IHU ideias sobre os 40 anos da Lumen Gentium. A entrevista pode ser lida aqui. A segunda vez, em 18-04-2005, na véspera do conclave que elegeu Bento XVI. A ampla entrevista pode ser lida aqui.

Dom Ivo foi o último bispo brasileiro nomeado pelo papa Paulo VI no decorrer do Concílio Vaticano II, em 1965. Foi Secretário-Geral e depois Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB durante o período mais obscuro do Regime Militar Brasileiro, entre 1971 e meados da década de 1980. Nesse período abrigou na Igreja brasileira vários defensores da Teologia da Libertação, além de bispos e sacerdotes de tendências pouco conservadoras, entre eles o seu próprio primo, o cardeal Aloísio Lorscheider, que faleceu no dia 23 de dezembro de 2007.

Fez seus estudos primários na localidade de São José do Hortêncio. Realizou seus estudos iniciais no Seminário Menor São José de Gravataí, no período de 1939 a 1945. Estudou Filosofia no Seminário Central de São Leopoldo (1946-1948). Fez seus estudos teológicos na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, (1949-1953), onde doutourou-se em 1955. Sua tese versou sobre a tradição e o magistério na Igreja.

Foi ordenado sacerdote no dia 20 de dezembro de 1952 em Roma.

Foi professor e reitor do Seminário Menor de Gravataí. Foi professor e diretor na Faculdade de Filosofia do Seminário Maior de Viamão, do qual foi vice-reitor, em 1957. Foi professor de Cultura Religiosa em diversas faculdades da PUCRS durante os anos 60. Em 1958 foi reitor do Seminário Maior de Viamão, hoje Campus Viamão da PUCRS. Estando em Roma, em 1965 foi convidado por Dom Vicente Scherer para participar do encerramento do Concílio Vaticano II.

Episcopado

No dia 12 de novembro de 1965, o Papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Porto Alegre, com a sé titular de Tamada. Recebeu a ordenação episcopal no dia 6 de março de 1966, em Porto Alegre, das mãos de Dom Vicente Scherer, Dom Aloísio Lorscheider e Dom Edmundo Luís Kunz. Seu lema era "Nova et Vetera".  Foi nomeado pelo arcebispo de Porto Alegre como Vigário-Geral. Assumiu a coordenação do Regional Sul 3 da CNBB e da pastoral arquidiocesana.

Aos 26 de fevereiro de 1971 foi eleito Secretário-Geral da CNBB, passando a residir no Rio de Janeiro, mas continuando a ser bispo auxiliar de Porto Alegre. Ele foi secretário-geral da CNBB de 1971-1974 e 1975-1978. Ou seja por dois mandatos, quando era presidente da CNBB, D. Aloisio Lorscheiter.

No dia 5 de fevereiro de 1974, o Papa Paulo VI nomeou Dom Ivo como sexto bispo diocesano de Santa Maria.

Foi Presidente da CNBB durante dois quadriênios: 1979-1982 e 1983-1986.

Dom Ivo destacou-se por suas críticas ao regime militar no Brasil e pela sua defesa dos direitos humanos. Em 24 de março de 2004 o Papa João Paulo aceita sua renúncia ao cargo de bispo diocesano, por limite de idade

D. Ivo Lorscheiter faleceu no dia 05 de março de 2007. Seu corpo está sepultado no Santuário N. S. Medianeira, em Santa Maria.

 

Thiago Alves Torres | Foto: Arquivo Pessoal

 

 

Thiago Alves Torres é graduado em Filosofia pela Faculdade Palotina de Santa Maria - FAPAS e licenciado e mestre em História pela Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Sua dissertação de mestrado é intitulada A atuação de dom José Ivo Lorscheiter durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Atualmente Thiago é coordenador pedagógico da Escola Municipal Casemiro de Abreu, em Júlio de Castilhos, RS.

 

Eis a entrevista.

 

IHU On-Line — Por que a história de dom José Ivo Lorscheiter é importante para compreender a ditadura civil-militar no Brasil?

Thiago Alves Torres — Primeiramente, penso que antes mesmo de buscarmos entender a importância da história de dom José Ivo Lorscheiter para uma tentativa de compreensão dos anos sombrios de ditadura civil-militar brasileira, é significativo olhar as origens do bispo, pois somos, em grande medida, resultado de nossas vivências. Dom José Ivo teve uma rica história de vida, experiências profícuas em sua infância e juventude que contribuíram para que se tornasse o grande homem que fora.

A vocação de Dom Ivo

Ainda menino, deixou a casa de seus pais, localizada no interior do, hoje, município de São José do Hortêncio, para residir na casa paroquial, na companhia do padre João Miguel Royer, sendo “sacristão”, e possibilitando-se a dar continuidade aos seus estudos, visto que a casa paterna ficava longe do educandário. Sua região de origem era marcada pela presença de grande número de cristãos luteranos, imigrantes e descendentes de alemães, o que possibilitou que, desde os primeiros anos de vida, despertasse em seu coração o respeito à diversidade religiosa. Ainda não se falava ou teorizava a respeito de Ecumenismo, tal qual se faz na atualidade. Apenas se vivia ecumenicamente, na fraternidade, no respeito, tolerância e diálogo. Teve um irmão mais velho, Vendelino Lorscheiter, que primeiramente ingressou no seminário. Suas histórias cativavam o garoto José Ivo, que sentiu o mesmo desejo de seguir os passos do mano. Como eram filhos de descendentes alemães, a língua alemã era muito valorizada, o que, certamente, dificultou seus estudos. Contudo, José Ivo dedicou-se com afinco em ler, estudar, superando-se a si mesmo. Fez isso, tanto no período em que viveu na casa paroquial quanto posteriormente, ao ingressar no seminário de Gravataí, dirigido pelos padres jesuítas, homens exímios de estudo e reflexão.

Dom José Ivo Lorscheiter, em 1971. Foto: Correio da Manhã

Seu gosto pelo saber foi tomado por um novo impulso ao ingressar no curso de filosofia, a “amiga do conhecimento", em São Leopoldo, também sob a orientação dos jesuítas. Vale ressaltar que José Ivo não pretendia ser um padre da Companhia de Jesus, mas um sacerdote paroquial a exemplo de seu amigo padre Royer. Contudo, a Arquidiocese de Porto Alegre havia designado a esta congregação a condução da formação intelectual de seus futuros presbíteros. Como continuidade de seus estudos seminarísticos, o arcebispo metropolitano dom Alfredo Vicente Scherer o enviou para cursar Teologia em Roma, na Universidade Gregoriana. Por morar na Itália, precisou aprender o italiano e, em virtude das aulas acadêmicas serem ministradas em latim, precisou também desvendar os mistérios desta língua. Na Europa, foi ordenado padre e também obteve o doutorado em Teologia.

Enfim, considero relevante para entender a missão e atuação pastoral e social de dom José Ivo, o reconhecimento desses momentos de sua vida: a experiência familiar, a vivência comunitária ecumênica e a busca pelo conhecimento!

Não considero que a história de dom José Ivo nos ajude a compreender a ditadura vivenciada no Brasil. Procuro reconfigurar essa perspectiva, isto é, sua vida e atuação eclesiástica, política e social são elementos fundamentais para a compreensão das estratégias de articulação da superação das opressões do período ditatorial. Ou seja, dom José Ivo não é um personagem religioso decisivo para o entendimento da aceitação católica ao Golpe de 1964 e a ditadura civil-militar instalada, até porque, nesse período, o mesmo exercia as funções de Reitor do Seminário Maior de Viamão e professor de Cultura Religiosa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Não era bispo, não participava de grandes e decisivos momentos, em âmbito nacional e de CNBB, de reflexões sobre a conjuntura político-nacional, ainda que regionalmente, já estivesse adquirindo notoriedade e reconhecimento, pelo papel desempenhado na formação dos futuros padres. O Seminário de Viamão acolhia jovens de todo o estado do Rio Grande do Sul e fora dele, recebia a visita de bispos, superiores provinciais e demais eclesiásticos, que passaram a ver no padre José Ivo um homem de reconhecida cultura e inteligência. Era questão de tempo sua nomeação ao episcopado. Portanto, pessoalmente, entendo a força profética de dom José Ivo na busca pela superação das restrições humanas e institucionais impostas pela ditadura civil-militar.

IHU On-Line — Qual era a compreensão inicial que dom Ivo teve sobre a tomada do poder governamental do Brasil pelos militares?

Thiago Alves Torres — Considero esse ponto um tanto delicado, pois, para abordá-lo, preciso fazer um distanciamento ainda maior do personagem José Ivo Lorscheiter. Por quê? Porque o mesmo era clérigo, vinculado a uma instituição que teve um posicionamento bem definido para aquele momento, aquele evento. Inicialmente, não podemos perder de vista que os anos de maior aprofundamento teológico e eclesiológico de dom José Ivo se deram em Roma, sede do catolicismo mundial, sob o pontificado de Pio XII, bebendo das fontes do Concílio Vaticano I e na busca de combater a crescente onda denominada de Secularismo e em oposição aos teólogos de um movimento que passou a ser chamado de Nova Teologia. Não por acaso, sua tese de doutorado versou sobre a relação da Tradição e do Magistério e suas relações com a doutrina e os tempos modernos. Ao mesmo tempo que dom José Ivo, na Academia, preocupava-se com uma compreensão de mundo, com todos os seus movimentos e contradições, estava incumbido de preservar a memória, a Tradição, os Dogmas.

A Igreja e o medo do comunismo no Brasil

Diante desse contexto, após seu regresso ao Brasil, na metade da década de 1950, o ainda padre José Ivo Lorscheiter aprofundou-se nesses temas. Quando ocorreu o golpe, e como já nos referimos anteriormente, José Ivo ainda não era bispo, mas acompanhava o que se passava na Igreja do Brasil. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1964, passou por um momento de transição em sua presidência, deixando o cargo dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, e assumindo dom Agnelo Rossi, arcebispo de São Paulo. Além disso, saía da função de secretário geral dom Helder Câmara que, ainda como padre, foi um dos idealizadores da referida entidade. Esta nova presidência, por sua vez, teve um caráter e postura eclesial e política mais conservadora, também porque boa parte do episcopado compactuou com a tomada do poder da nação por meio dos militares, sustentando o discurso de que era necessário evitar que no Brasil fosse instalado o modelo comunista, como já havia ocorrido, por exemplo, em Cuba, que era necessário lutar contra a corrupção e a subversão.

Sobre o temor acerca do comunismo, dom Rossi era especialista, dedicando alguns anos de sua vida a pesquisar e produzir textos contrários, pois entendia, consolidando-se nas instruções católicas, que o comunismo era o que favorecia o crescimento do ateísmo. Vale a leitura do Livro “A filosofia do Comunismo”, de dom Agnelo Rossi, publicada em 1946, quando ele ainda era padre, e reeditada em 1958, já como bispo e com edição ampliada. Assim, poucos dias após a tomada de poder pelos militares, a CNBB emitiu uma nota de apoio, “agradecendo aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação”.

Dom José Ivo, em várias ocasiões e publicações, expressou que também fora favorável, naquele momento, a uma mudança de governo, até porque, sustentava-se que seria um governo transitório, que tão logo as coisas se abrandassem, a normalidade seria retomada. Entretanto, não foi isso que aconteceu e o Brasil foi submetido a vinte e um anos de governos militares ditatoriais. Assim como outros eclesiásticos, dom José Ivo afirmou que foi favorável à saída de João Goulart da presidência do Brasil e entendeu que a ordem no país seria restabelecida plenamente pelos militares. Porém, o que se sucedeu, enquanto país, e as novas orientações religiosas da Igreja Católica, foram fazendo com que dom José Ivo experimentasse, o que me atrevo chamar, de Conversão.

IHU On-Line — Para dom Ivo qual deveria ser o papel da Igreja durante a ditadura militar?

Thiago Alves Torres A experiência pessoal-pastoral-social de Conversão experimentada por dom José Ivo faz com que ele tome posição, opte claramente por um lado e defina sua atuação. Ele escolheu ficar com Jesus e com seu povo. Mas, o que isso significa? Que sua vida, principalmente nestes anos sombrios e difíceis para o povo brasileiro, apropriou-se da mensagem evangélica: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizeste” (Mt 25, 40).

Após tornar-se bispo, já no período ditatorial, ao assumir funções de destaque junto à CNBB (duas vezes secretário geral e, por igual período, presidente) e quando tomou posse como titular da diocese de Santa Maria, sua vida passou a ser mais visada, tanto por pessoas, individualmente, ou grupos sociais, que percebiam nele um “porto seguro”. Não podemos deixar de fazer referência ao Ato Institucional nº 5, de 1968, que aprimorou maleficamente os atos repressivos dos ditadores e impulsionou a perseguição aos opositores do governo, incluindo membros do clero, religiosos e religiosas, bem como leigos, que ganhavam um impulso de protagonismo, principalmente após o Concílio Ecumênico Vaticano II. Sendo assim, o papel da Igreja exigia coragem, determinação e defesa da vida.

IHU On-Line — Como foi, em geral, a relação do bispo com os militares e, especificamente, com os grupos militares de Santa Maria?

Thiago Alves TorresDom José Ivo Lorscheiter tomou posse da diocese de Santa Maria em 21 de abril de 1974. Contudo, desde 1971, já exercia o cargo de secretário geral da CNBB. Tal cargo exigiu de dom José Ivo constantes viagens para o Rio de Janeiro, sede da Conferência, à época, e às mais diversas dioceses do Brasil e para outros países. Pelo fato de os militares estarem ocupando a chefia da Nação e em decorrência de seus compromissos, não somente em Santa Maria, mas em todo o território nacional, dom José Ivo precisava manter contato com os militares.

Contudo, sempre procurou ser respeitoso, mas isso não deve ser sinônimo de subserviência. Ainda que respeitoso, dom José Ivo era firme em suas convicções e normalmente mantinha-se afinado ao que a Igreja apontava. Mesmo que dom José Ivo, em algumas ocasiões, tenha discordado da definição que ele e outros bispos, como dom Helder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom José Maria Pires, etc, receberam, como bispos progressistas, ele assim o era, pela forma como se posicionava e atuava. O pesquisador Kenneth Serbin, autor de “Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura”, uma excelente obra para entender as relações e oposições entre a Igreja Católica brasileira e os militares, dispensa muitas linhas sobre dom José Ivo, e é enfático em afirmar que “as ideias progressistas de dom Ivo não eram bem recebidas pelo exército”. Sendo assim, alguns grupos mais radicais procuravam meios de intimidar as ações da Igreja e, particularmente, dos bispos progressistas, como dom Ivo.

A complexa relação com os militares

Em 1975, montagens grosseiras passaram a ser enviadas para paróquias, palácios episcopais e, até mesmo, coladas em postes. Nelas, dom José Ivo estaria em uma situação constrangedora com uma mulher. Esse fato foi noticiado, também, no mesmo período, pela revista Veja, de circulação nacional, bem como publicado no livro do jornalista, agora falecido, Walter Clark, em 1991, que por mais de duas décadas trabalhou da TV Globo.

Além desses fatos, se voltarmos nosso olhar para o contexto da diocese de Santa Maria, particularmente a cidade que leva o mesmo nome, encontraremos, desde muito tempo, um significativo número de regimentos militares, estrategicamente ali instalados, visto que Santa Maria está localizada no centro geográfico do Rio Grande do Sul e, por isso, é conhecida pela alcunha de “Coração do Rio Grande”. Pelo fato de dom José Ivo ter vivido nesta cidade por muitos anos, poderíamos relatar diversos encontros e desencontros dele com os militares.

Contudo, me deterei apenas a citar um documentado e disponível no site do Arquivo Nacional, no setor específico sobre a ditadura. O mesmo se deu em novembro de 1976, durante a realização da Romaria de Nossa Senhora Medianeira, padroeira do Rio Grande do Sul, maior evento religioso do estado. Durante o percurso de caminhada dos fiéis, pessoas estariam distribuindo cópias do Editorial do Jornal do Brasil que destacava a necessidade do crescimento das Comunidades Eclesiais de Base. O governador do estado, acompanhado de secretários e generais, participaram da caminhada. Porém, após o ocorrido, as autoridades não foram participar de um almoço de confraternização, do qual eram convidadas, como forma de descontentamento. Esse documento foi elaborado pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), agência de Porto Alegre, e está para acesso livre no site.

IHU On-Line – Qual foi a adesão da Igreja do Brasil às ideias e práticas de dom Ivo durante seu serviço na secretaria geral e presidência da CNBB?

Thiago Alves Torres — Com relação a esta questão, não gostaria de apenas trazer a atuação do personagem dom José Ivo, mas de vários homens e mulheres que, juntamente com ele, foram vozes de resistência às arbitrariedades e opressões da ditadura. Essas lideranças, não somente religiosas, contribuíram decisivamente para que o Brasil pudesse superar os anos sombrios e desafiadores.

Contudo, pelo fato de dom José Ivo ter estado à frente do episcopado brasileiro, isso contribuiu para que pautas como reforma agrária, orientações acerca da atuação política (principalmente por meio dos documentos 08 e 10 da CNBB), organizações populares, CEBs, Teologia da Libertação, entre outros, pautassem os diálogos institucionais. Como é de se esperar, entre as relações interpessoais, normalmente não há pleno consenso. Entre o episcopado, isso é muito comum. Entretanto, um bom número de bispos, principalmente da região nordeste, apropriavam-se destes assuntos e tinham dom José Ivo como um referencial.

Em 2015, entrevistei, o agora falecido, dom José Maria Pires, sobre dom José Ivo, e ele me dizia que “dom Ivo era um homem muito franco, um homem muito prudente. O que era para dizer, ele dizia diretamente, seja você, seja o presidente da República, mas ele dizia diretamente. Agora, era muito prudente porque ele não dizia as coisas sem antes ter estudado, ter pensado, ter procurado saber. Então, dava pra gente uma segurança muito grande”.

IHU On-Line – Como dom Ivo percebia a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base? Diante disso, como era a sua relação com o Vaticano?

Thiago Alves Torres — Essas perguntas são muito complexas e eu precisaria de um espaço maior para tentar aprofundar e elencar alguns elementos que considero relevantes. Porém, irei me atrever a apontar alguns aspectos, resultado das minhas investigações até o presente momento. Dom José Ivo apropriou-se verdadeiramente de seu lema episcopal: “Nova et Vetera”, isto é, “Coisas novas e Velhas”, passagem bíblica extraída de Mateus 13,52. Ou seja, se enquanto estudante de teologia aprofundou-se nos ensinamentos do Concílio Vaticano I, se opôs aos pensadores da Nova Teologia; depois do Concílio Vaticano II, sem perder o essencial (as “coisas velhas”), desafiou-se ao “novo”, particularmente por meio das inspirações florescidas com a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965) e, também, por meio das conclusões da Conferência de Medellín (1968), que teve um caráter de ser uma releitura para a realidade latino-americana das conclusões conciliares.

Neste sentido, as Comunidades Eclesiais de Base, que passam a se estruturar na segunda metade do século XX, inspiradas pela Teologia da Libertação, são vistas por dom José Ivo como elementos importantes para o momento do país e da Igreja. As pequenas comunidades não poderiam se limitar apenas à celebração da Eucaristia, que é um dos elementos essenciais para a vida da Igreja, mas deveriam se abrir à vida das pessoas, com suas dores e alegrias, para assim bem celebrar o mistério eucarístico. Não por acaso, os documentos conciliares e da conferência de Medellín trazem tantos apontamentos sobre a importância e o papel de protagonismo do Povo de Deus.

Dom Ivo e o Vaticano

No que diz respeito à relação de dom José Ivo com o Vaticano, vale lembrar que o bispo fora nomeado pelo papa Paulo VI. Conheceu e estimava dom Albino Luciani, o papa João Paulo I, que, ainda como Patriarca de Veneza, visitara a diocese de Santa Maria a seu convite, também acompanhou o papa João Paulo II pelo Brasil, em sua primeira Viagem Apostólica, na década de 1980, quando ainda exercia o cargo de presidente da CNBB e manteve diversos encontros com o cardeal Ratzinger, posteriormente, Bento XVI. Em virtude das suas funções junto a CNBB, precisou viajar muitas vezes para Roma, para encontrar-se com os papas, para reuniões nos dicastérios ou outras atividades. Por ser muito respeitador, procurou manter boas relações com as demais autoridades religiosas, mas isso não significa que foi omisso. A visão pastoral de João Paulo II, em muito, diferia da de dom José Ivo. Não por acaso, o próprio papa, com o cardeal Ratzinger, manifestaram-se contrários à Teologia da Libertação, sempre tentando aproximá-la com o marxismo. Dom José Ivo não via este jeito de fazer teologia desta forma. São da década de 1980 os conflitos entre Roma e o então frei Leonardo Boff. Corajosamente, dom José Ivo conversou com o papa, pedindo para deixar para a CNBB a resolução dos conflitos, principalmente causados pela publicação da obra “Igreja, Carisma e Poder”. Roma autorizou que a CNBB conduzisse a situação. Várias vezes dom José Ivo encontrou Leonardo Boff. Um dos últimos reencontros foi em Santa Maria, em 2005. Leonardo Boff veio dar uma palestra em um clube da cidade. Dom José Ivo já estava um tanto enfraquecido. Porém, fez questão de ir assisti-lo. Sentaram-se lado a lado.


Em 2005: Dom José Ivo Lorscheiter e Leonardo Boff, sentados, junto a lideranças da Pastoral da Juventude de Santa Maria, o entrevistado Thiago Torres, Vanessa Farenzena e Maria Carolina Bittencourt, em pé. Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line — Qual foi o impacto que o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín causaram para a atuação política e pastoral de dom Ivo?

Thiago Alves Torres — Penso que sobre estes aspectos já abordei alguns tópicos nas questões anteriores. Portanto, serei bem objetivo. No meu entendimento, dom José Ivo não só acolheu como buscou apropriar-se das conclusões conciliares e de Medellín, para transformar a sua própria vida, como sua prática pastoral, social, e a vida das pessoas, principalmente as que tinham sua dignidade desrespeitada.

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes inicia assim: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”. Este entendimento é corroborado por Medellín, quando este documento inicia afirmando que o encontro dos bispos latino-americanos “concentrou a atenção sobre o homem deste continente que vive um momento decisivo de seu processo histórico. [...] Não basta refletir, obter maior clareza e falar. É preciso agir. Esta não deixou de ser a hora da palavra, mas tornou-se, com dramática urgência, a hora da ação”. São estas e, evidentemente, outras interpelações, que impulsionaram a atuação pastoral-político-social de dom José Ivo.

IHU On-Line — Que pessoas foram importantes para a atuação de dom Ivo durante a ditadura?

Thiago Alves Torres Penso que todas aquelas pessoas que estavam com sua dignidade ameaçada, que eram vítimas de um modelo político opressor e aterrorizador, conhecidas ou desconhecidas, homens, mulheres, crianças, jovens cheios de sonhos, coragem e teimosia, foram estas as pessoas pelas quais dom José Ivo quis gastar sua vida. Claro, não posso deixar de fazer menção aos seus diocesanos. Porém, como a pergunta é bastante restritiva ao período ditatorial, preciso ser um tanto delimitador.

IHU On-Line — Como os relatos coletados na sua pesquisa, de história oral e em outras fontes documentais, caracterizam a personalidade de dom Ivo?

Thiago Alves Torres — De forma alguma quero desrespeitar dom José Ivo. Pelo contrário, para mim é uma grande alegria e um maior ainda desafio, tentar adentrar na vida, história e, porque não, personalidade deste grande homem-bispo-pastor. Mas penso que o trecho musicado por Raul Seixas vai bem ao encontro da personalidade de dom José Ivo: “Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante”. Do católico convicto, à liderança ecumênica; do estudante em Roma, ao peregrino das periferias urbanas e existenciais; do homem discreto, à liderança contundente; do presidente da CNBB ao bispo de Santa Maria/RS; do conhecedor de grandes Teologias, ao amante das teologias da(s) base(s); do bispo do diálogo respeitoso ao bispo do enfrentamento pela defesa da vida.

IHU On-Line — Quais foram os maiores desafios que teve perante o governo dos militares?

Thiago Alves Torres — Primeiramente, penso que o maior desafio foi o de defender seus posicionamentos. Diante de um governo autoritário, de uma nação amplamente católica, de pessoas cristãs que concordavam com as torturas e violações dos direitos humanos, dom José Ivo precisou ser oposição, resistência.

Outro grande desafio foi ouvir, aceitar e respeitosamente opor-se aos seus irmãos bispos que divergiam de seu pensamento. Para alguns clérigos, era conveniente estar próximo do poder, pois durante muitos anos isso era normal. Basta aprofundar nossas investigações sobre o período do Padroado. Ter a coragem de dizer o que pensava, sem ofender, mas com a audácia profética, foi outro desafio. Não permitir que nenhuma Romaria da Medianeira fosse cancelada durante os anos que fora bispo de Santa Maria, por imposição dos militares, ainda que estes tivessem tentado, pelo menos em uma ocasião.

E por fim, apoiar as causas dos pobres, dos perseguidos, dos injustiçados, dos violados e violentados, desafios permanentes de um período recente da história do Brasil.

IHU On-Line — Na atual conjuntura, a atuação da CNBB e das diversas pastorais e movimentos da Igreja apresentam o legado de dom Ivo?

Thiago Alves Torres — Indiretamente, penso que o legado de dom José Ivo ainda repercute nas entranhas da CNBB, principalmente pelos reflexos que o pontificado de Francisco gera na instituição e as recentes nomeações episcopais que ele tem feito. Temos visto bispos sendo chamados não tanto das academias, mas do meio do povo, para serem “pastores com cheiro das ovelhas”. Avalio que, nos últimos anos, a CNBB diminuiu seu brado profético, principalmente no último período político vivido no Brasil, quando observamos crescer entre os cristãos católicos um discurso de ódio, intolerância e preconceitos. A CNBB precisa retomar sua audaciosa coragem, sem com isso perder a Caridade.

Ainda sobre o legado de dom José Ivo, penso que é relevante fazer menção ao Projeto Esperança/Cooesperança, vinculado ao Banco da Esperança, idealizados por dom José Ivo e que ainda resistem até a presente data. Sob a inspiração de “muita gente pequena, fazendo coisas pequenas, em lugares pequenos, transformarão a face da Terra” (ditado africano), vemos a organização das pessoas trabalhadoras, que aprendem a partilhar e resistir ao capitalismo que quer devorar a todos e todas.

Outra experiência que surgiu em Santa Maria e que foi sonhada e gestada por dom José Ivo é a Escola Cristã de Educação Política, que já proporcionou formação política e social às lideranças de várias comunidades. No ano de 2017 ocorreu a última etapa, durante todo o ano, e que preparou mais de 70 pessoas. Neste ano de 2019, novamente ocorrerá, em Santa Maria, e são esperadas 100 pessoas para, um sábado por mês, refletir sobre política, partindo da origem primeira da palavra.

IHU On-Line — Por que dom Ivo recebeu a alcunha de “Profeta da Esperança”? O que a sua história pode ensinar para a atuação da Igreja e dos movimentos sociais hoje?

Thiago Alves Torres — Dom José Ivo recebe tal denominação justamente porque sua vida se dividiu em Anunciar, Denunciar e Esperançar. Anunciou o Amor de Deus para todos e todas, denunciou as injustiças que o povo sofreu pelos ditadores e esperançou tempos de paz, solidariedade, fraternidade, vida digna. Esse tripé de Anúncio-Denúncia-Esperança são os mais célebres ensinamentos que dom José Ivo, mesmo depois de 12 anos de sua Páscoa definitiva, repercute ao mundo de hoje.

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