Sínodo da Amazônia. Grupo católico reacionário busca aumentar sua influência no evento

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27 Setembro 2019

Linhas de batalha foram traçadas para a muito esperada assembleia dos bispos no Vaticano sobre a região amazônica, onde a proposta de dar a comunidades isoladas acesso aos sacramentos via ordenação de homens casados levou a um alvoroço – frustrando alguns dos organizadores do evento por ignorarem outras preocupações pastorais em jogo também na região.

A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux, 25-09-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Michael Czerny, padre jesuíta e que há tempos trabalha no Vaticano e que será criado cardeal pelo Papa Francisco um dia antes da abertura do Sínodo dos Bispos, emitiu recentemente um apelo para que a Igreja perceba a urgência de uma maior atenção à região amazônica e não se distraia por “equívocos contemporâneos e práticas perniciosas” com respeito a essa vasta área geográfica.

Czerny, que será o secretário especial do Sínodo para a Amazônia, advertiu que “o social e o natural, o meio ambiente e o cuidado pastoral não podem e não devem ser separados”, provavelmente uma resposta indireta ao cardeal alemão Walter Brandmüller, que disse que o documento de trabalho do sínodo era “herético” e deveria ser rejeitado.

Brandmüller se perguntou: “O que a ecologia, a economia e a política têm que tem a ver com o mandato e a missão da Igreja?”

“As compartimentalizações redutivas – intelectuais e espirituais, empreendedoras e políticas – puseram em perigo a vida humana na Terra, a casa comum da humanidade”, contrapôs Czerny.

Desacordos desse tipo não são novidade, e há quase quatro décadas a região da Amazônia vem sendo politicamente contenciosa e teologicamente divisora.

Mas na dianteira da assembleia especial dos bispos do próximo mês, uma rede de grupos de extrema-direita no Brasil, liderada por um tradicionalista polêmico com uma longa história de oposição ao Vaticano II, parece ávida a capitalizar os eventos do próximo mês para ganhar um novo impulso.

O “Pan-Amazon Synod Watch”

Um dos principais centros de resistência do sínodo de outubro é o “Pan-Amazon Synod Watch”, observatório criado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira – IPCO e suas “organizações coirmãs”, as Sociedades de Defesa de Tradição, Família e Propriedade – TFP.

Plinio Corrêa de Oliveira fundou a TFP em 1960 como um baluarte contra as influências “comunistas” na sociedade e na Igreja. Morreu em 1995, mas permanece um totem poderoso entre os católicos tradicionalistas que defendem uma visão ao estilo Ancien Régime de Igreja e uma nobreza hereditária em funcionamento, principalmente na América Latina e em partes da Europa.

A organização, que alega ser a “maior coalizão de associações em defesa da civilização cristã”, há tempos busca aumentar a sua visibilidade realizando campanhas para atrair um número maior de católicos, incluindo o programa “America Needs Fatima”, nos EUA.

O Sínodo para a Amazônia está dando à TFP uma nova campanha com a qual a entidade espera difundir a sua mensagem.

 “Baseado na sólida doutrina milenar da Igreja e em estudos científicos sérios, este site tem por objetivo alertar todos aqueles que estão legitimamente preocupados com as notícias que circulam a respeito do Sínodo da Amazônia, marcado para outubro de 2019”, lê-se no sítio da Pan-amazon Synod Watch.

Em Roma, na véspera do sínodo, a organização promoverá uma oficina sobre “A verdade da Amazônia”, coordenada por uma série de pensadores tradicionalistas céticos dos principais temas focalizados pelo sínodo, entre eles o historiador italiano Roberto de Mattei, autor de uma biografia de Plinio Corrêa.

O sítio do Pan-Amazon Synod Watch adverte: “Para a Igreja, noticia-se uma mudança eclesiológica profunda, tornando-a pneumática e, no fundo, tribal, em clara oposição a vinte séculos de cristianismo”.

Segundo dizem também, “a teologia indigenista que está sendo promovida nada mais é que a radicalização da já condenada Teologia da Libertação, sob a máscara ecológica”.

Entre os editoriais publicados no sítio, defende-se que as propostas do sínodo transformariam os padres em “pastores protestantes” e que a assembleia será marcada por uma “pauta neopagã”. O livro de 1977 de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado

Tribalismo indígena: ideal comuno-missionário para o Brasil do século XXI”, é também promovido como um recurso para se compreender o que está em jogo neste processo sinodal.

O poderoso chefão da resistência ao sínodo

Em vários sentidos, Plinio Corrêa é o poderoso chefão da resistência ao sínodo amazônico; ele criticou tanto o trabalho feito pelo Papa João Paulo II junto às comunidades indígenas da região quanto o faz a sua organização, hoje, ao Papa Francisco.

Aos 24 anos, Plinio Corrêa se tornou o congressista mais jovem na história do Brasil. Depois de criar a Liga Eleitoral Católica para mobilizar católicos tradicionalistas, foi crítico perspicaz da organização pan-continental dos bispos criada na década de 1950, o Conselho Episcopal Latino-Americana – CELAM.

Plinio Corrêa esteve em Roma nos anos 60 durante o Concílio Vaticano II e o descreveu como “um ponto na história tão triste como a Morte do Nosso Senhor”. Em 1985, os bispos brasileiros rejeitaram o movimento pela sua “falta de comunhão (...) com a Igreja no Brasil, sua hierarquia e o Santo Padre”.

O Pe. Dário Bossi, superior provincial dos Missionários Combonianos no Brasil, que por mais de uma década trabalhou na região amazônica brasileira do Maranhão, disse ao Crux que Plinio Corrêa tem uma “ideologia fascista” e que a TFP é “um movimento de elite, que nunca esteve em comunhão com o episcopado brasileiro”.

Em particular, Plinio Corrêa não escondia o seu desdenho pelos católicos indígenas, os quais via como pagãos incompletamente convertidos.

Plinio descreveu a cultura indígena como uma cultura que colocava em risco a vida da família e a propriedade privada.

“Nessa perspectiva, o índio não podia ser equiparado ao ‘civilizado’, que conhece a propriedade privada, a família monogâmica e indissolúvel”, escreve ele em “Tribalismo indígena”.

Em outro ensaio, Plinio Corrêa sustenta que “o ideal ulterior do movimento verde é destruir o nosso modo de vida, inclusive o sistema econômico atual das três Américas, que é o capitalismo, e voltar a um estilo de vida tribal”.

Um dos primeiros céticos da mudança climática, Plinio descrevia-a como um mito defendido pelos “principais meios de comunicação e pelas elites mais prestigiadas”.

Ao comentar a história de Plinio Corrêa e a influência da TFP, o padre jesuíta Aloir Pacini, vigário-geral da Arquidiocese de Cuiabá e especialista em comunidades indígenas, disse que eles “não apoiam uma igreja que pensa em uma sociedade justa e fraterna, porque estão mais interessados em (...) arrecadar dinheiro para apoiar as elites”.

“Quando a elite se sente ameaçada, eles criminalizam os negros, os índios, os líderes sindicais, a política de esquerda e o Estado quando se atreve a controlar o mercado ou não permite a corrupção”, disse o religioso.

“E essa é a maneira tradicional de fazer política no Brasil. Assim, o direito dos índios ao território tradicional não é considerado, e pior: eles os escravizavam para acumular riqueza, porque as elites não podiam trabalhar. Era feio ter calos nas mãos!”, disse Pacini.

O historiador Rodrigo Coppe Caldeira explicou ao Crux que, embora a TFP há tempos se envolva nos debates religiosos, em particular nos que dizem respeito à Igreja Católica, seus membros têm, na verdade, preocupações políticas.

“A ideia de criar redes internacionais contra o que chamam de o ‘inimigo dos cristãos’ continua muito presente nos grupos tradicionalistas, e as suas redes, hoje, tomam novas formas, com novos personagens, especialmente com a ascensão de governos populistas de direita”, disse Caldeira, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Caldeira falou ainda que os adeptos da TFP entendem o sínodo como uma “ferramenta da esquerda”, o que também está em harmonia com o pensamento do recém-eleito presidente Jair Bolsonaro, e que a influência destas pessoas tem aumentado.

“Grupos de direita vêm crescendo e suas vozes estão se difundindo, particularmente depois da vitória de Bolsonaro, que também ajudou a criar este amálgama entre grupos religiosos de direita e grupos políticos”, comentou o professor.

Nos EUA, membros da TFP apoiam ativamente o presidente Donald Trump e, mais recentemente, estiveram envolvidos na defesa do juiz da Suprema Corte Brett Kavanaugh contra as acusações de que tivera uma conduta sexual imprópria com mulheres em seus anos de ensino médio e faculdade.

Reação negativa e as linhas de batalha sobre o documento de trabalho do sínodo

Na dianteira do sínodo, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira tem buscado destacar o legado e as ideias de seu fundador através do Pan-Amazonian Synod Watch, que serve como uma câmara de compensação para artigos críticos do sínodo.

Embora conservador, o cardeal alemão Gerhard Müller está muito distante teologicamente do pensamento pré-conciliar de Plinio Corrêa.

O cardeal é um amigo de longa data do teólogo de esquerda peruano Gustavo Gutiérrez, com quem escreveu “Ao lado dos pobres: Teologia da Libertação” (Paulinas, 2014).

Entretanto, artigos seus recebem destaque no sítio do Pan-Amazonian Synod Watch, e depois da publicação do documento de trabalho do sínodo, chamado Instrumentum Laboris, suas críticas empregaram uma linguagem semelhante à de Plinio Corrêa.

O ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão doutrinal vaticano, chamou a “teologia indígena” de uma “invenção dos românticos sociais”.

“Uma cosmovisão com os seus mitos e o ritual mágico da Mãe Natureza, ou de seus sacrifícios aos deuses e espíritos que nos causam grande temor, ou que nos seduzem com falsas promessas, não pode ser uma abordagem adequada para a vinda do Deus Trino em Seu Verbo e em Seu Espírito Santo”, escreveu.

O documento preparatório para o Sínodo sobre a Amazônia, advertiu Müller, possui uma “visão ideológica que nada tem a ver com o cristianismo”.

Ainda que o cardeal alemão não estivesse citando Plinio Corrêa, a TFP ficou feliz em destacar estes os seus comentários, que se assemelham aos do falecido reacionário brasileiro.

Mais recentemente, o cardeal Raymond Burke manifestou preocupações parecidas com as de Brandmüller e Müller, urgindo os católicos a rezarem e jejuarem na dianteira do sínodo e advertindo dos “graves erros teológicos e heresias” no documento de trabalho.

Há tempos Burke colabora com Mattei, que tem ajudado na coordenação da resistência ao sínodo e recentemente publicou um novo livro, “Amor pelo papado e resistência filial ao papa na história da Igreja”, para o qual Burke escreveu o prefácio.

Sínodo amazônico acontece enquanto a atenção mundial se volta ao “pulmão do mundo”

O documento Instrumentum Laboris fundamenta-se na encíclica de 2015 do Papa Francisco e convida a uma conversão ecológica mundial, destacando os desafios especiais que enfrentam Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Na medida em que se o sínodo se aproxima, as preocupações com a Amazônia novamente viraram notícia depois que uma série de incêndios florestais destruiu mais de dois milhões de acres da floresta, com líderes mundiais pedindo ações sérias no combate à crise ambiental iminente. Junto do pedido de proteção às florestas e rios que servem como um pulmão para grande parte do mundo, o documento preparatório convida à criação de “novos ministérios para responder com mais eficiência às necessidades do povo amazônico”.

Pacini disse que “o processo de escuta aos povros tradicionais deste bioma já é a maior vitória deste sínodo. Em Puerto Maldonado, os indígenas e as comunidades da Amazônia puderam falar e ser ouvidos pelas lideranças eclesiais e da sociedade”.

Bossi falou que tem rezado para que “a Igreja na Amazônia realmente assuma um rosto amazônico a partir da liderança indígena e do modo deles de encarnar e celebrar a fé, e que o Espírito Santo seja o protagonista deste sínodo e que os padres sinodais se permitam ser guiados por eles e por uma escuta dócil ao clamor das comunidades que coletivamente eles representam”.

Pacini concorda, dizendo que somente se essa escuta acontecer é que poderemos dizer que o Sínodo para a Amazônia terá sido um sucesso.

“O denso território da Amazônia é um símbolo que vai a Roma para que nós também possamos aprender a cuidar de outros biomas ameaçados no planeta e para que vivamos de um modo mais harmonioso”, disse ele ao Crux.

E completou: “Podemos viver bem e feliz na simplicidade de forma que este planeta terra se torne o nosso grande templo, onde vivemos o amor de Deus, com o próximo e nós mesmos, na Casa Comum no sentido de uma ecologia integral conforme proposta pelo papa em Laudato Si’”.

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