Maria Madalena, empoderamento do feminino na visão do Papa Francisco

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24 Julho 2019

"A justa iniciativa do Papa Francisco de elevar Maria Madalena ao status de apóstola é uma leitura sensível e coerente do papel dessa personagem, registrado pelo Evangelho. É uma atitude histórica de reconhecimento da figura de Madalena, não como prostituta, mas como parte integral e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus e protótipo de libertação para os coletivos femininos, que estão dentro e fora da Igreja Católica", escreve José Cristiano Bento dos Santos, padre da Arquidiocese de Londrina, filósofo e teólogo.

Eis o artigo.

No dia 22 de julho de 2019, a Igreja celebrou o dia de Maria Madalena. Esta festa foi proclamada pelo Papa Francisco, em 2016. Para Francisco, a memória de Madalena deve ser celebrada como a primeira testemunha da Ressurreição, a apóstola dos apóstolos. Ela é parte essencial da jornada do mestre Jesus, escolhida para ser testemunha d´Ele, por isso ela vai e anuncia aos discípulos: “Eu vi o Senhor” [...] “E contou o que Jesus tinha dito” (Jo 20, 16-18).

O Evangelho de Lucas, no capítulo 8, 1-3 aponta Maria Madalena, entre os Doze Apóstolos e algumas mulheres que haviam sido curadas por Jesus de espíritos malignos e de enfermidades, e lhe serviam com os seus bens. Nesta narrativa, ela é descrita como aquela que possuía sete demônios. É preciso compreender biblicamente o sentido teológico dessa afirmação, pois o Demônio, na linguagem do Evangelho, reúne uma ampla gama de significados simbólicos, que mostra que esse ente não é somente a raiz de um mal moral, mas também físico, que pode permear a pessoa. O número “sete” é identificado simbolicamente como o número da plenitude. Lucas não descreve quais eram os demônios, tampouco a forma do exorcismo, por isso não define o tipo de mal que atingiu Maria Madalena e que foi eliminado por Jesus. Isso mostra que Madalena pertence, portanto, àquele povo da época, ferido de muitos modos e que Jesus alivia o desespero, restituindo-o à vida.

Mas a tradição mantida pelo senso comum, que perdurou até hoje, fez de Maria uma prostituta, e isso só por que, no capítulo 7, de Lucas, narra-se a história da conversão de uma mulher pecadora, conhecida naquela cidade, que havia derramado óleo perfumado sobre os pés de Jesus, lavando-os com as suas lágrimas e enxugando-os com os seus cabelos. Assim, sem nenhuma conexão literária, Maria Madalena foi identificada com aquela prostituta sem nome.

Essa imagem popular de Maria Madalena “está intrinsecamente ligada com uma política eclesiástica patriarcal de desempoderamento das mulheres”, segundo a teóloga Ivoni Richter Reimer.

O desempoderamento da mulher é visível na organização da pastoral da Igreja Católica, pois há um grande número de mulheres que assume os trabalhos religiosos da instituição, mas quando se trata de coordenação desses trabalhos, principalmente os conselhos pastorais paroquiais e diocesanos, constata-se uma pequena quantidade, quase imperceptível, da presença do feminino à frente dos mesmos, como sinal de mediação e decisão política.

A Igreja Católica, finalmente, através do Papa Francisco, dedicou-lhe um dia, declarando-a apóstola para os apóstolos. Essa tomada de decisão feita por Francisco é a expressão de uma revolução antropológica que toca a mulher e investe sobre toda a realidade cultural e eclesial. A instituição dessa festa, de fato, pode ser lida e interpretada como uma desnaturalização da cultura patriarcal e machista, que não aceita o protagonismo das mulheres no grupo dos discípulos de Jesus e nos espaços de decisão da própria Igreja Católica.

Quando revisitamos a história das lutas sociais que aconteceram no Brasil e em outros países, não há como negar, que os movimentos feministas abriram espaços no âmbito social para as mulheres, introduzindo-as no mesmo grau que os homens. Este é um dos objetivos desses movimentos.

Francisco é sensível às causas das mulheres e, por isso, abre as portas da Igreja para refletir sobre muitos temas, entre eles o feminino dentro e fora do catolicismo. Com o incentivo do papa, pode-se dizer que é um momento oportuno para a hierarquia do clero avaliar o papel da mulher na Igreja e na sociedade, observando, ao mesmo tempo, o número das mesmas em alguns espaços de representatividade social e de decisões políticas, como: na religião, na política, nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, entre outros.

A compreensão sobre Maria Madalena, sem manipulação da sua história, chama a atenção para uma verdadeira conscientização do desequilíbrio político na relação entre o masculino e o feminino, existente nas instituições tradicionais, principalmente na Igreja. Esse desequilíbrio é visibilizado institucionalmente, na afirmação do homem e negação da mulher, legitimado e perpetuado historicamente no imaginário cultural do catolicismo da sociedade ocidental.

Por último, a justa iniciativa do Papa Francisco de elevar Maria Madalena ao status de apóstola é uma leitura sensível e coerente do papel dessa personagem, registrado pelo Evangelho. É uma atitude histórica de reconhecimento da figura de Madalena, não como prostituta, mas como parte integral e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus e protótipo de libertação para os coletivos femininos, que estão dentro e fora da Igreja Católica.

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