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01 Julho 2019

"Carola-Antígona não tem dúvidas, não tem balanças sobre as quais pesar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso: ela entrará naquele porto quaisquer que sejam as consequências. A falsa “correção” dos homens é acreditar que um contrato social seja ferro temperado por Deus em pessoa. Pode bem ser, mas certamente o humanismo é diamante; de uma luz que transtorna e perturba quando você a percebe dentro de si mesmo", escreve Roberto Vecchioni, cantor e compositor italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 29-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Caro Editor, é verdade que não há nada de novo sob o sol, aquele hélios que brilha e ilumina como selênio. Qualquer história, enredo, episódio, qualquer acidente, jornada dolorosa, tormento ou triunfo que a vida nos apresente em suas infinitas variações, já foi visto, estava lá há 2500 anos na tragédia, na comédia, na ópera ou na épica, no romance e na epigrama da antiga Grécia.

Qualquer obra literária - diz Sepúlveda - nasce da Ilíada ou da Odisseia, são destroçadas almas competindo com si mesmas e todos os reis shakespearianos iguais aos heróis sob Ílio. Românticos se debatendo entre realidade e sonho, Goethe e companhia, como o Ulisses Robinson de Swift, o iluminista e Bloom de Joyce, peregrino da indefinível tragédia de um único dia.

Os gregos já haviam teorizado em ser ou tornar-se duas irreconciliáveis e antitéticas aparências da verdade. Tudo é duplo, é duplo no universo e o seria até Hegel, até nós. E também duplas entendiam as formas da vida social, do estar juntos, de governar uma polis, um estado. A primeira, "catabólica", tendia a apertar, fechar-se, amontoar, defender-se, não arriscar o desconhecido; a segunda, pelo contrário, abria, saia, investigava o diferente, acolhia, desafiava o desconhecido.

O medo do diferente, de fato, caracterizou todo o neolítico. Todo evento raro e desconhecido estava na lista: a menstruação, o retorno da guerra, o recém-nascido malformado, o granizo, o animal desconhecido, causavam um tilt em todo o clã. Os totens são símbolos de parentesco protetor: se eu estiver aparentado com a natureza, com os animais, pode ser que eu me dê bem. No fundo cada "direita" é uma sociedade de caçadores-coletores.

Quando no reino de Tebas dois irmãos celerados, filhos de Édipo, se enfrentam a pauladas pelo trono, acontece que o legítimo leva a melhor, mas morre e o outro, o ilegítimo, também morre e nem leva a melhor. E aqui que aparece Salvini, que então se chamava Creonte, irmão de Jocasta, reinante ad interim na expectativa esperançosa que os dois irmãos (as duas almas do PD) se matassem um ao outro, Creonte ordena que o bom "o branco" Etéocles seja enterrado com todas as honras, mas o vilão, "o negro", permaneça sem sepultura. A irmã dos dois, uma jovem maravilhosa e indômita, se opõe firmemente a tal decisão: Antígona. Seu desafio a Creonte é épico. Creonte não se move um centímetro: a lei estabelece isso e pronto, caso encerrado. Mas Antígona discute com ele, com um orgulho que a torna forte dentro de outra lei superior, mais universal do que as convicções humanas. Não.

Ela enterrará seu irmão a qualquer custo, a qualquer consequência que possa advir. É a mãe de todas as batalhas, o eterno conflito entre razão e coração. A lei é algo elevado, sagrado. Sócrates, que é inocente, nem se questiona, poderia perfeitamente evitá-la, desviá-la, tudo já está preparado pelos discípulos. Mas é outra história. Sócrates havia votado ele mesmo aquela lei e, para ele, a coerência é imprescindível.

Carola-Antígona não tem dúvidas, não tem balanças sobre as quais pesar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso: ela entrará naquele porto quaisquer que sejam as consequências. A falsa “correção” dos homens é acreditar que um contrato social seja ferro temperado por Deus em pessoa. Pode bem ser, mas certamente o humanismo é diamante; de uma luz que transtorna e perturba quando você a percebe dentro de si mesmo.

Eu vejo Carola, linda, em pé na ponte enquanto toma a decisão que para ela é apenas normal. Nenhuma hesitação, nenhum medo, um sorriso natural e convicto, os olhos semicerrados no sol ofuscante, na certeza de que todos os homens são diamantes. Ela não sabe, mas tem dentro de si as últimas palavras que Édipo havia dito à beira da morte a uma Antígona desesperada: "Não chore, minha filha, há apenas uma palavra que nos liberta das trevas, do mal do mundo. E essa palavra é amor".

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