Acordo do Vaticano com a China irá reorganizar a unidade da Igreja?

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19 Março 2019

O padre jesuíta Antonio Spadaro publicou um novo livro sobre a Igreja e a China, seu segundo volume, fruto de uma colaboração entre a revista La Civiltà Cattolica, que Spadaro edita, e a Universidade de Georgetown. O prefácio foi escrito pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 18-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há muitos aspectos interessantes no prefácio de Parolin, mas o mais impressionante é o fato de ele situar o novo livro e, de fato, a aproximação entre a Santa Sé e a própria República Popular da China no contexto da encíclica do Papa Bento XV sobre as missões, Maximum illud, emitida exatamente há 100 anos. Parolin escreve que Bento XV pedia em seus dias aquilo que o Papa Francisco chamaria nos nossos dias de uma “conversão pastoral”.

Parolin escreve:

“A Maximum illud refletia, acima de tudo, o grande compromisso de Bento XV com a paz no quadro dramático da Primeira Guerra Mundial, por ele justamente definida como ‘inútil massacre’. Mas também estava permeada por uma projeção do anúncio evangélico global, que, reconhecendo o heroísmo de tantos missionários, também constatava realistamente os limites da obra realizada para levar o Evangelho a todos e pedia que se voltasse às fontes espirituais e pastorais da missão ad gentes.”

O Papa Bento XV estava muito preocupado com os impulsos nacionalistas que haviam acabado de convulsionar a Europa, com certeza, mas também estava preocupado com o modo pelo qual as ambições nacionalistas haviam infectado os esforços para pregar o Evangelho, inclusive na China. “A Carta Apostólica continha uma mensagem forte e precisa: as missões não são uma extensão da cristandade ocidental, mas sim a expressão de uma Igreja que quer ser verdadeiramente universal”, escreve o cardeal. A Igreja pagou um alto preço, reconhece Parolin, quando sua proclamação do Evangelho foi feita vestindo trajes ocidentais e se aproximando das terras missionárias com uma mentalidade colonizadora.

As palavras de Parolin são importantes porque grande parte das críticas ao acordo do ano passado entre a República Popular da China e o Vaticano se baseavam precisamente nesse tipo de categorias políticas e eclesiais. Quem liderou o caminho foi George Weigel – grande surpresa... – comparou a abordagem à China com o modo como São João Paulo II lidou com os regimes comunistas na Europa Oriental. “Um catolicismo que se identificou com um regime comunista descartado, porque o Vaticano já concedeu aos comunistas um papel significativo na vida interna da Igreja, estará em grave desvantagem evangélica na China pós-comunista do futuro, onde protestantes evangélicos e mórmons serão muito, muito ativos”, bufou Weigel.

“E essa preocupação evangélica – eu lembraria respeitosamente ao cardeal Parolin – tem sido o núcleo do meu argumento contra a concessão ao regime comunista chinês de um papel significativo na escolha dos bispos.” O mantra perene de Weigel é: “Faça-se do jeito de João Paulo II ou não se faça”. Ele levantou críticas semelhantes contra o Papa Bento XVI depois de sua viagem a Cuba.

Outro crítico da política de Parolin não ficará aliviado. Escrevendo na National Review no ano passado, Michael Brendan Dougherty expressou uma preocupação compreensível sobre se alguém pode confiar nas autoridades do governo chinês. Eu acrescentaria: ou em quaisquer autoridades governamentais. Como o diz Salmista: “Não ponha sua confiança nos príncipes”.

Mas Dougherty expressa uma segunda preocupação, a da “sinização” [ou “chinesização”], uma Igreja Católica na China livre de influências estrangeiras. Você não precisa saber muito de história da China para entender por que isso é importante para os chineses. Mas, como o cardeal Parolin explica, era também aquilo que o Papa Bento XV estava falando sobre as missões: é claro que a Igreja na China e em todo o mundo deve ser inculturada.

Eu não sou especialista em China, mas parece óbvio que ninguém sabe precisamente como a sociedade chinesa mudará nos próximos anos, como seus sistemas políticos e econômicos se desenvolverão, quais liberdades serão concedidas ao seu povo. Mas é tolice pensar que só porque algo funcionou na Europa Oriental isso deve se tornar o modelo em todos os lugares.

Além disso, um dos principais impedimentos para a evangelização na China era a existência de duas Igrejas lado a lado, uma em comunhão com Roma e a outra, não. O principal impulso para o acordo do Vaticano com o governo era, em grande parte, começar a curar essa divisão, “tecer novamente a unidade da Igreja”, na feliz frase de Parolin.

Esse papa fez do diálogo um leitmotiv do seu papado, e, por isso, não deveria surpreender a ninguém que ele também esteja comprometido com o diálogo tanto no sentido de curar as divisões dentro da Igreja chinesa, quanto no de proclamar o Evangelho naquele país. O diálogo é necessário porque, no mínimo, uma Igreja universal é composta de muitas Igrejas locais onde, se for verdadeiramente vivo, o Evangelho está inculturado.

A universalidade da própria Igreja torna normativo o diálogo. Parolin escreve que “tal universalidade [da Igreja] leva a Santa Sé a não nutrir desconfiança ou hostilidade em relação a qualquer país, mas a percorrer a via do diálogo para superar as distâncias, vencer as incompreensões e evitar novas contraposições. O anúncio do Evangelho na China não pode estar separado de uma atitude de respeito, de estima e de confiança para com o Povo chinês e as suas legítimas Autoridades”.

Os católicos conservadores abordam o mundo em termos maniqueístas: existem forças da bondade e da luz combatendo perpetuamente as forças do mal e da escuridão. As linhas são sempre claras. Eles tendem a esquecer a insistência do Senhor de que amemos os nossos inimigos e rezemos pelos nossos perseguidores.

O Papa Francisco, claramente, não vê o mundo como os Weigels do mundo. O cardeal Parolin afirma que a Santa Sé espera que o acordo ajude a “superar a lógica das fáceis contraposições, a captar a real complexidade do desafio cultural, social e religioso da China de hoje e a desfazer progressivamente os nós que ainda impedem a alegria do encontro fecundo”.

Eu não tenho a pretensão de saber se o acordo do Vaticano com a China, daqui a 100 ou 200 anos, terá sido uma conquista seminal que levará à evangelização daquele grande país, sem falar de uma maior colaboração em questões de interesse comum como a proteção do ambiente. Ou, talvez, as pessoas olharão para trás e o verão como um passo em falso, algo que levou a consequências infelizes. Não é dado a nenhum de nós prever o futuro.

Eu sei que, se ele for bem-sucedido ou não, será em seus próprios termos, não porque divergiu das visões geopolíticas dos neoconservadores norte-americanos ou dos precedentes da Europa Oriental dos anos 1980.

Parolin e o papa ao qual ele serve são claros ao afirmar que não compartilham a posição rejeicionista que os neo-cons norte-americanos exigem. E eles estão certos em desconfiar dos conselhos de pessoas que pediram desculpas pela Guerra do Iraque, negam a urgência de combater as mudanças climáticas e fizeram carreira reduzindo a religião à ética e daí à política, disseminando “a lógica das fáceis contraposições”.

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