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13 Outubro 2018

O processo de conversão de Dom Óscar Arnulfo Romero. “A conversão de Romero foi um grande e complicado jogo de dominó de Deus-Pai com ele”, escreve Edgard R. Beltrán, secretário-executivo do Departamento de Pastoral de Conjunto do CELAM, entre os anos 1966-73, em artigo publicado por Religión Digital, 11-10-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Dom Luis Chávez, arcebispo de San Salvador, El Salvador, na América Central, havia participado do Concílio Vaticano II. Voava de volta à sua igreja particular, e seu coração e sua cabeça estavam em efervescência. Em 8 de dezembro de 1965 concluiu-se o Concílio. Seu irmão, Paulo VI, foi muito claro ao no encerramento. "Este Concílio deve, sem dúvidas, ser considerado como um dos maiores acontecimentos da Igreja... foi o maior pelo número de padres... o mais rico pelos temas que foram tratados cuidadosa e profundamente... o mais oportuno, ao levar em conta as necessidades da época atual”.

Dom Luis aprovou os Documentos Conciliares com plena consciência e corresponsabilidade. Mas... mas.... intuía que havia que penetrar mais nessa mina preciosa. Antes do Concílio, colaborou na fundação de um sindicato de taxistas que padecia de muitas necessidades que prejudicavam suas famílias e a sociedade. A Santa Madre Igreja devia atender a esses assuntos temporais? Consultava muito com os sacerdotes e com homens e mulheres sensíveis sobre alguns assuntos delicados da Arquidiocese. Estava, assim, faltando ao seu dever de pastor supremo e sabe-tudo?

Tinha dois bispos auxiliares. Um, Rivera que estava presente sempre em problemas do cotidiano do povo. O outro, Óscar Arnulfo Romero, que fugia de toda a dura e crua realidade. Piedoso e tímido, não se untava com o bairro sujo do povo humilde. Pareciam de igrejas distintas! Este Concílio ajudaria a clarificar caminhos? O avião aterrissou e dom Luís seguiu com seus desejos. A urgência do momento era o esclarecimento crescente do Concílio e a aplicação nos processos pastorais.

Como dom Luís, eram muitos, muitíssimos os bispos que estavam no mesmo. Os bispos tinham um organismo a seu serviço, a nível continental de toda a América Latina, o CELAM, Conselho Episcopal Latino-americano. América Latina era o continente pobre e crente, crente e pobre, e por isso enfrentava fortes desafios.


Paulo VI e Dom Óscar Arnulfo Romero. Fonte: Religión Digital

Que tipo de Deus ou Deus tem esse pobre? Mais grave ainda, qual é o Deus ou Deus da Igreja Católica nesse continente, e que responde Esta em nome d’Aquele, à essa massa, milionária em número de crentes que acodem à “Fração do Pão”, à Eucaristia, porém aos quais a fração do pão de trigo e de milho, o do sustento diário, fracionaram tão mal, que, aqueles cujos se apoderaram da mesa abundante para poucos, nem as migalhas permitem colher? Como podemos entoar com esses milhões de famintos e sem casa o salmo bíblico que clama ao Senhor, que diz Pai de todos “Se Tu me guias, NADA ME FALTARÁ”? Lhes falta tudo! Lhes tiraram tudo!

O CELAM, como organismo de serviço, foi agrupando cristãos que estavam se deixando golpear por essas desafiantes indagações, pessoas estudiosas do Concílio, mulheres e homens, leigos e não-leigos, teólogos, estudiosos da Bíblia, historiadores, antropólogos, cientistas sociais, cientistas políticos, sociólogos, educadores, experts em pastoral, em liturgia, em catequese, no desenvolvimento da comunidade. Essas equipes de reflexão iam se aproximando do pobre, do empobrecido, ouviam suas indagações que eram como clamores e escutavam suas incipientes e proféticas repostas, que eram como luzes. Tomavam os textos do Vaticano e comparavam. Era um mundo imenso. O que fazer?

Reunamo-nos e compartilhemos o que milhões de pobres nos dizem e o que o Concílio nos ilumina, e assim mãos à obra! E o Continente pobre e crente , crente e pobre, começa, a poucos meses depois de terminado o Concílio – que se encerrou em 8 de dezembro de 1965 – esse processo de reflexão e compromisso já em janeiro de 1966.

Em agosto de 1968, com dois anos e meio de intensa preparação, o irmão de todos os bispos, o mesmo que encerrou o Concílio Vaticano II, Paulo VI, inaugura em Bogotá, Colômbia, ao fim do Congresso Eucarístico Internacional, a Conferência da Igreja na América Latina. Seu título, objetivo e conteúdo não poderiam ser outros. A realidade examinada em si mesma e agora vista à luz do Concílio Vaticano II, com o Deus do Reino desde o pobre, desse único Deus que pode ter a Igreja: América Latina à luz do Concílio Vaticano II.


Dom Óscar Arnulfo Romero. Fonte: Religión Digital

Inaugurada em Bogotá, Colômbia, por Paulo VI, onde também benzeu o prédio do CELAM e ocasionalmente entrou no escritório, a reunião se realizou na cidade da eterna primavera, Medellín, onde viajaram os bispos delegados e os assessores. Esse não foi um ponto de chegada. Não. Foi só um momento intenso no novo caminhar da Igreja no continente. E, sem hesitar, um modelo mundial.

O CELAM continuou este processo tanto de abrir as janelas ao mundo real, o de aqui e de agora, como processo de soprar o pó que com comodidade de assenta nas páginas do Evangelho, segundo exemplificou João XXIII.

Depois de Medellín, os bispos começaram a semear essas sementes em suas igrejas particulares. As semanas pastorais se foram multiplicando. Algumas para umas dioceses, outras para um conjunto de dioceses, outras a nível nacional.

Algo admirável, houve bispos que pediram a esse Departamento de Pastoral de Conjunto do CELAM que organizasse um Curso para Bispos em Exercício para aprofundar as luzes do Concílio Vaticano II. O Departamento organizou dois cursos, um em Medellín de um mês completo ao que assistiram 58 bispos. O outro para bispos da América Central, também durou um mês, na Antiga Guatemala, ao qual assistiram 39 bispos. Uma equipe de 22 professores acompanhou os bispos todo o mês.

Ao Departamento da Pastoral de Conjunto foi pedido a elaboração das semanas pastorais. Se preparava a semana, se realizava e se assessorava a continuidade. Facilitavam-nas este Departamento de Pastoral de Conjunto em união com pessoas da Equipe de Reflexão, várias vezes, alguns do mesmo país. Como presidente do Departamento sempre foi um bispo em conjunto com 507 bispos de vários países.

Por muito tempo foi Dom Leonidas Proaño, de Riobamba, Equador, e depois Dom Vicente Zazpe, de Santa Fé, Argentina, o sucedeu.


Dom Leonidas Proaño. Fonte: Religión Digital

Dom Manuel Larraín, do Chile, durante sua presidência do CELAM, me chamou em 1966 para organizar o Departamento e fui o Secretário-Executivo. Benção para mim, pois sou testemunha direta de muitas maravilhas.

Dom Luís, arcebispo de San Salvador, de quem falamos no começo, me disse que queria uma Semana Pastoral para a sua arquidiocese. Preparamos as datas, equipe facilitadora com pessoas locais, entre estas os jesuítas Ellacuría (martirizado anos depois) e Jon Sobrino, e se realizou no Seminário Maior. Inesquecível semana.

Dom Luis, sempre estava na primeira fila, comprometido. O bispo auxiliar Rivera e Damas, sempre em meio a todos. Ao outro bispo auxiliar, Romero, o conheci na hora do almoço, ao meio-dia. Nunca foi às sessões. Tranquilo, calado, “inofensivo”.

Na última das três portas do imenso salão, eu sempre via um padrezinho, alto, cara de boa pessoa, aparecia e desaparecia. Poderia ser um “escuta” (espião) do governo, como era frequente naqueles tempos, ainda entre o clero. Conhecemos Ernesto Cardenal, estivemos na Nicarágua de Somoza, nas duas semanas pastorais dali.

Em algum momento o tal padrezinho se aproximou de mim e acredito que leu meu pensamento. "Escute, Edgard", me disse, com essa paz que todos gostariam de desfrutar: “Não creia que isso não me agrada, e por isso entro e saio”. E com uma risada amigável, acrescentou: “tampouco creia que sou um "escuta’”. Me tranquilizei. “Olhe, Edgard, eu sou jesuíta, o padre ministro, isso é, eu faço o rancho semanal, não estou na pastoral, e assim não fui convidado. Eu estudei na Europa. Mas...mas... dessas coisas, estou pelos galhos. Eu não posso seguir assim. Para onde você me aconselha a ir algum tempo para entrar plenamente nisso? Todos os cristãos têm que ouvir e pensar nisso, e então fazer os caminhos onde se tem que andar, isso é urgente!”.

Tínhamos já uma boa caminhada o IPLA (sigla em espanhol), o Instituto de Pastoral para a América Latina, em Quito, Equador. Disse-lhe que o melhor era ir aí, eram seis bons meses, nada para correr, tínhamos os melhores professores do Continente que tornavam semana a semana. Eu ia 3 ou 4 vezes durante o semestre, ali nos veríamos, o IPLA dependia do nosso Departamento de Pastoral de Conjunto do CELAM.

Porém o melhor, o melhor, o mais que bom do IPLA, era que viajávamos todos os finais de semana, o quantos mais pudesse, a Riobamba, para conviver pessoalmente e pastoralmente com dom Leonidas Proaño, um cristão do Evangelho, claro em sua visão pastoral, comprometido com os índios, passou o que passou, até o Núncio havia o repreendido, sensível em sua pessoa, um verdadeiro Galileu. De verdade.

Este padre jesuíta era Rutílio Grande!


Painel para Dom Romero e Rutílio Grande. Fonte: Religión Digital

E sim, acreditou em mim. Foi ao IPLA de Quito, mas quase todos os 24 finais de semana do semestre foi conviver com Dom Leonidas Proãno. E aprendeu.

Voltou a San Salvador. As coisas estavam mudando e piorando. Dom Luís já deixava de ser arcebispo. O candidato de muitos, o bispo auxiliar Rivera, continuava como auxiliar. O arcebispo era... Romero. Pela convivência no seminário eram amigos. Mas a distância eclesial era... bastante sentida. Rutílio conseguiu ser enviado a uma paróquia pobre, estava no seu meio. No pastoral, ombro a ombro com o pobre. Sua visão bastante clara, evangélica e conciliar. O IPLA lhe ajudou muito. Agora tinha um amigo e modelo eclesial, o bispo Leonidas Proãno.

Ele tinha respeito e amor pelo seu arcebispo Romero, mas de longe melhor, muito perto de Ricardo Urioste e Gregório Rosa e outros padres e pessoas próximas à luz conciliar e que largavam à frente com sensibilidade no novo sulco. Grande em sua estatura – era bem alto –, grande em sua bondade, grande com o maior de idade – seu sacristão –, pequeno com o menino pequeno – seu acólito. Grande em sua visão do Reinado do Pai do Amor, pequeno e humilde no passo diário de semear em silêncio a terra desse Reino a cada dia. Assim o martírio o encontrou: Rutílio, com o ancião sacristão e o menino acólito, cristão no sulco do Reino.

E assim o viu Romero! Assim o descobriu Romero!
A conversão de São Romero não foi por um sopro, em uma terça-feira, às 2:21 da tarde!


Arte em homenagem a São Romero da América. Fonte: Religión Digital

Não. Foi um longe e complicado jogo de dominó de Deus-Pai com ele! O martírio de São Rutílio Grande foi muita luz! Romero, homem bom mas com outra visão, homem honesto mas com outro modelo de Igreja, homem com o poder de arcebispo mas tímido para romper os moldes dos séculos passados, homem letrado mas longe dos pobres, homem de comunhão diária mas sem comunhão com a comunidade de galileus, Romero já não pôde mais... Se rendeu, e o “dominó”, que Deus-Pai o havia convidado para jogar, terminou.

E ambos ganharam! Não foi empate. Ambos ganharam: Deus-Pai e São Romero, e ganhou o povo, e ganhou a Igreja, e ganhou a humanidade e todos seguimos ganhando com eles dois. E foi um “dominó” com muitas peças:

São RomeroSão Rutílio GrandeSemana Pastoral do CELAMBispo São Leonidas ProañoIPLAEquipes de Reflexão da América LatinaConferência de MedellínConcílio Vaticano II, o da igreja da Gaudium et Spes, fermento da humanidade no Reino de AmorA Boa NovaEvangelho de Jesus, o galileu – o Pai que tem desde a criação seu “Projeto do Reino do Amor” na força de seu Espírito.

Esse Deus da História continua jogando seu dominó. Agora é contigo, comigo, conosco! E Ele joga para ganhar, e para que ganhemos com ele. Sim, podemos! Como dizem os hispânicos nos Estados Unidos: pobres, crentes e galileus, aqui e hoje. E o Deus-Pai segue jogando com toda a América Latina, e com todos os crentes do mundo que se fazem pobres ao escolher ao Deus-Pai como seu Deus único.

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