Fraternidade São Pio X, a 30 anos da ruptura com Roma. Entrevista com Bernard Fellay

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04 Julho 2018

No dia 29 de junho, completaram-se 30 anos desde que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre, separou-se de Roma.

A reportagem é de Regina Einig, publicada em Tagespost e republicada em Settimana News, 01-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De acordo com os dados fornecidos pela própria fraternidade (em 1º de janeiro de 2018), hoje ela está assim constituída:

- 1 casa generalícia;
- 6 seminários;
- 6 casas de formação;
- 14 distritos;
- 4 casas autônomas;
- 167 priorados;
- 772 igrejas, capelas e centros de missa;
- 2 institutos universitários;
- mais de 100 escolas;
- 7 casas de repouso;
- 4 (-1) bispos;
- 637 sacerdotes;
- 204 seminaristas;
- 56 pré-seminaristas;
- 123 frades;
- 195 freiras;
- 79 oblatos;
- 4 carmelitas;
- 19 irmãs missionárias no Quênia.

A Fraternidade está presente em 37 países e atende a 35 outros, desempenhando seu apostolado, no total, em 72 países ao redor do mundo. Inúmeras ordens de rito latino e de rito oriental estão conectadas a ela.

Desde 1994, quem está à frente da Fraternidade é Dom Bernard Fellay, que espera poder chegar a uma reconciliação com Roma. Mas com quais condições?

Sobre essa questão e sobre os fatos dos 30 anos de separação, o jornal semanal católico alemão Tagespost, na quinta-feira passada, 28 de junho, publicou a seguinte entrevista.

Eis a entrevista.

Excelência Dom Fellay, como o senhor entendeu, há 30 anos, a consagração episcopal? Para o senhor, foi uma separação definitiva por parte da Fraternidade São Pio X em relação a Roma, ou uma etapa intermediária do conflito em vista de uma reconciliação?

Se tivesse se tratado de uma separação de Roma, eu não estaria aqui hoje. O arcebispo (Lefebvre) não teria me consagrado por essa razão, e eu também a teria rejeitado. De fato, não se tratava de uma separação da Igreja, mas sim de um afastamento do espírito moderno, dos frutos do Concílio. Agora, também há outros que admitem que se tratou de algo que se desenvolveu de maneira equivocada. Muitas considerações e muitos aspectos que combatemos no passado e que combatemos hoje também são confirmados por outros atualmente. Nunca dissemos que o Concílio afirmou diretamente heresias. Mas sim que foi removido o muro de defesa contra o erro, e, desse modo, permitiu-se que ele entrasse. Os fiéis precisam de proteção. Nisso consiste a luta constante da Igreja para defender a fé.

Mas nem todos aqueles que criticam o “Concílio das mídias”, incluindo o Papa Emérito Bento XVI, pensam em um conflito até a excomunhão. Por que vocês não fortaleceram as fileiras daqueles que são fiéis à tradição na Igreja e combatem pela verdade em união com Roma?

Isso se deveu em parte à história da França. A partir da Revolução Francesa, uma boa parte dos católicos franceses combate contra o erro do liberalismo. Por isso, aqui, os acontecimentos, durante e após o Concílio, foram percebidos de maneira muito mais sensível e atenta do que na Alemanha. Não se tratava de erros evidentes, mas sim de tendências, de abertura de portas e janelas. As reformas que se seguiram demonstraram isso mais claramente do que o próprio Concílio. O problema se condensou sobre a nova missa. Em Roma, disse-se ao arcebispo Lefebvre aut aut: “Se o senhor celebrar a nova missa, está tudo bem”. Os nossos argumentos contra a nova missa não importavam nada. Enquanto isso, o missal de Paulo VI foi composto com a colaboração de teólogos protestantes. Se somos forçados a celebrar essa missa, então realmente surge um problema. E nós fomos levados a fazer isso.

A recusa de vocês em relação à nova missa reforçou no senhor e também no arcebispo Lefebvre a convicção de que a separação de Roma é vontade de Deus?

Insisto em dizer: nós nunca nos separamos da Igreja.

Mas o fato da excomunhão fala por si só. Por que o Papa Bento XVI teria que removê-la?

No direito católico de 1917, a consagração episcopal sem mandato do papa não é considerada um cisma, mas apenas um abuso de poder e sem excomunhão. Toda a história da Igreja tem outra visão do problema da consagração episcopal sem mandato do papa. Isso é muito importante.

Por que é tão importante? Em 1988, já estava em vigor o novo código da Igreja – e o Código de Direito Canônico de 1917 também obriga o bispo à fidelidade à Santa Sé.

Estávamos em um estado de necessidade, porque Roma havia nomeado um bispo para nós. No encontro entre o cardeal Ratzinger e o arcebispo Lefebvre, em 5 de maio de 1988, havia-se falado da data da consagração. O arcebispo Lefebvre e o cardeal Ratzinger não conseguiram chegar a um acordo. O arcebispo Lefebvre tinha uma proposta. Tenho certeza de que se, na época, o cardeal Ratzinger tivesse confirmado o dia 15 de agosto como data, sem mudar o candidato, o arcebispo teria aceitado. Mas a data permaneceu em aberto. Quando o arcebispo perguntou ao cardeal: “Por que não no fim do ano?”, ele recebeu esta resposta: “Não sei, não posso dizer”. O arcebispo pensou que estavam brincando com ele. Certamente, foi um ponto de desconfiança. E a desconfiança permaneceu até hoje como uma palavra-chave da nossa história. Nós trabalhamos para superá-la, e então sempre surge algo – é realmente cansativo.

(Nota da redação do Tagespost: o papa emérito informou a redação do Tagespost que não se lembra mais dos detalhes, mas que tem certeza de que os problemas pessoais desempenharam apenas um papel secundário. João Paulo II tinha consentido claramente com uma consagração episcopal. Mas, acrescentou o então cardeal Ratzinger, definir uma data não era tarefa sua. Ao término do colóquio, o arcebispo Lefebvre tinha assinado o protocolo que – se tivesse permanecido no “sim” – teria significado o acordo. Um colaborador da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia seguinte, como combinado, tinha ido ao encontro de Lefebvre em Albano para retirar o documento. Para o pânico de todos, Lefebvre declarou que não havia dormido toda a noite e que tinha chegado à conclusão de que queriam se usar do acordo para destruir a sua obra.)

Por que o cardeal Ratzinger, grande especialista e defensor da Tradição católica e amigo da missa tradicional, não conseguiu tranquilizar a desconfiança do arcebispo?

Ele não entendeu como eram profundas as razões do arcebispo e a desorientação dos fiéis e dos padres. Muitos não aguentavam mais escândalos e desconfortos pós-conciliares, e também o modo em que a nova missa era celebrada. Se o cardeal Ratzinger tivesse nos compreendido, ele não teria agido isso. E acho que ele se arrependeu. Por isso, como papa, tentou reparar os danos com o motu proprio e remover a excomunhão. Somos-lhe realmente gratos pelas suas tentativas de reconciliação.

Mas o cardeal Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também teve que ter em mente as reações dos outros fiéis. Por exemplo, irritava que os membros da Fraternidade São Pio X contradissessem pontos tão importantes quanto o problema da validade da missa. Muitos de seus membros pensam que, ao participar da nova missa, considerada por eles como “herética”, não cumprem a obrigação dominical.

Eu nego isso decisivamente. Nós já falamos da invalidez de muitas missas. Mas dizer que todas as missas são inválidas não corresponde à linha da Fraternidade. É algo que nunca dissemos. Na discussão com Roma, sempre enfatizamos que reconhecemos a validade da nova missa, se for celebrada de acordo com os livros e a intenção de fazer aquilo que a Igreja tem o mandato de cumprir. A esse respeito, é preciso distinguir entre válido e bom.

Onde está a diferença na sua opinião?

A nova missa tem lacunas e esconde perigos. Naturalmente, nem toda nova missa constitui diretamente um escândalo, mas a celebração repetida da nova missa leva a uma fé fraca e até à sua perda. Vemos como todos os dias são cada vez menos os padres que ainda acreditam na presença real. Na velha missa, a liturgia alimenta a fé. Vamos à rocha, somos fortalecidos nessa fé. Algumas ações nos levam ainda mais à fé, por exemplo, a fé na presença real, no sacrifício – somente ajoelhando-nos, através do silêncio, a atitude do padre. Na nova missa, a pessoa precisa levar a fé consigo, ela não a recebe diretamente do rito. O rito é insípido.

Mas, mesmo antes da reforma litúrgica, havia padres com uma fé fraca, modernistas e heréticos. Aqueles a quem o senhor chama de Padres conciliares liberais cresceram todos com a velha missa e foram consagrados de acordo com o velho rito. O senhor acha que as conversões que ocorrem hoje, mesmo através da nova missa – pense nos Nightfevers –, são um autoengano?

Não, não digo isso. Digo apenas isto: se você recebe o presidente de um Estado, na escolha entre um trompete de prata e um de latão, pega o de latão? Seria uma ofensa: uma coisa que não se faz. E as melhores novas missas também são como um trompete de latão em comparação com a velha liturgia. Pelo bom Deus, é preciso escolher o melhor.

Recentemente, o senhor disse em um sermão: “Como vocês podem ousar celebrar uma missa tão pobre, tão vazia e insípida? Não se honra a Deus desse modo”. Mas a nova missa para os católicos é ainda hoje o tesouro mais precioso das suas vidas, e ainda hoje a Igreja gera mártires e santos. Por que o senhor não ressalta isso na pregação?

Concordo que, na discussão teológica, é preciso distinguir. Mas, em um sermão, não se pode apresentar tudo de forma tão teológica. Também é preciso um pouco de retórica para sacudir um pouco os ânimos e para abrir os olhos das pessoas.

O Papa Francisco quer estender a mão à Fraternidade Sacerdotal para uma reconciliação. O senhor ainda pensa em um acordo ou este kairós é uma oportunidade perdida?

Eu sou otimista. Mas não posso antecipar a hora de Deus. Se o Espírito Santo é capaz de influenciar o atual pontífice, então ele também fará o mesmo com o próximo. Foi o que efetivamente aconteceu. Também com o Papa Francisco. Quando ele foi eleito, pensei: agora chegará a excomunhão. Em vez disso, um caso contrário foi o cardeal Müller, que queria que a excomunhão chegasse, mas o Papa Francisco recusou. Ele me disse pessoalmente: “Não quero condená-lo”. A reconciliação chegará. A nossa Mãe Igreja está atualmente dilacerada de maneira incrível. Os conservadores nos querem e também disseram isso à Congregação para a Doutrina da Fé. Os bispos alemães, ao contrário, não nos querem de modo algum. Roma deve levar em conta todos esses elementos – podemos entender isso. Se nós fôssemos assim, simplesmente, haveria uma guerra na Igreja. Existe o medo de que possamos triunfar. O Papa Francisco disse aos jornalistas: “Cuidarei para que não haja nenhum triunfo”.

Mas as tensões e os medos também existem entre os membros da Fraternidade São Pio X. Na França, muitos padres e leigos se separaram da Fraternidade, porque as negociações com o Vaticano já suscitaram desconfiança. Como os irmãos de São Pio X poderiam aceitar uma reconciliação com Roma?

Isso dependerá do que Roma quiser de nós. Sigamos em frente assim e demo-nos garantias – então ninguém irá embora. A desconfiança está no medo de ter que acolher o novo. Se nos pedirem para percorrer estradas novas, então ninguém vai nos seguir.

O que lhe dá tanta certeza de que todos poderão lhes seguir? Bastou o anúncio dos diálogos para despertar uma forte inquietação e para provocar saídas significativas. Que conclusão poderia tranquilizar os seus membros? Mesmo depois de um acordo, a desconfiança não desapareceria.

É verdade. Existe uma atitude amigável, existe benevolência. Há anos, trabalhamos com Roma para restabelecer a confiança. E fizemos grandes progressos, apesar de todas as reações. Se chegarmos a um acordo razoável com condições normais, serão muito poucos os que irão embora. Eu não temo uma nova cisão na tradição, se for encontrada a solução justa com Roma. Nós devemos questionar certos pontos do Concílio. Os nossos interlocutores em Roma nos disseram: os pontos principais – liberdade de consciência, ecumenismo, nova missa – são problemas em aberto. Trata-se de um progresso incrível. Até agora se dizia: vocês devem obedecer. Agora, os colaboradores da Cúria dizem: vocês deveriam abrir um seminário em Roma, uma universidade para a defesa da tradição. Não é mais tudo preto e branco.

Como deveria ser uma solução razoável?

Uma prelazia pessoal.

Se a forma jurídica já foi encontrada e os diálogos com Roma correram bem, por que razão faltou o passo decisivo até agora?

No ano passado, o arcebispo Pozzo nos disse que a Congregação para a Doutrina da Fé havia aprovado o texto que deveríamos assinar. Devíamos estar de acordo com uma prelazia pessoal. Um mês e meio depois, o cardeal Müller decidiu rever o texto e pedir uma aceitação mais clara do Concílio e da legitimidade da santa missa. Primeiro, tinham aberto canais de discussão para nós. Depois, foram fechados. O que realmente se quer de nós? Aqui o diabo está no meio. É uma luta espiritual.

Pessoalmente, o senhor tem confiança no Papa Francisco?

Temos uma relação muito boa. Quando lhe informamos que nos encontramos em Roma, a sua porta está aberta. Ele sempre nos ajuda através de pequenos passos. Por exemplo, ele nos disse: “Tenho problemas quando faço algo de bom para vocês. Eu ajudo protestantes e anglicanos – por que não posso ajudar católicos?”. Existem vários que querem impedir o acordo. Nós somos um fator de perturbação na Igreja. E o papa se encontra no meio disso.

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