Dez anos de ‘Summorum Pontificum’: Tradição x tradicionalismo

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28 Junho 2017

“É um dos atos do Papa Bento que deverá ter um impacto profundo e de longo prazo na vida da Igreja”.

O comentário é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicado por La Croix International, 26-06-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “o pontificado de Bento XVI precisa ser analisado em sua complexidade, isto é, por meio de seus discursos, decisões políticas e nomeações em geral. Não faz sentido interpretar a teologia de seu pontificado inteiro unicamente com base em seu discurso sobre as “duas hermenêuticas” do Vaticano II ou em suas encíclicas”.

E continua:

“Há pouca dúvida de que Bento XVI expressou e incorporou uma mudança clara: de um magistério que via o Vaticano II como parte da tradição da Igreja para um magistério que via a tradição e o Vaticano II em termos muito mais complicados. Certas questões, como a reforma litúrgica, foram vistas em tensão e oposição”.


Eis o artigo.

O próximo dia 7 de julho marcará o décimo aniversário do motu proprio de Bento XVI nominado Summorum Pontificum, ldocumento que liberou o uso da liturgia romana conforme era celebrada antes das reformas que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1962-1965).

É um dos atos do Papa Bento que deverá ter um impacto profundo e de longo prazo na vida da Igreja.

Este motu proprio, de 2007, abordou as preocupações de alguns grupos católicos tradicionalistas que eram bastante pequenos, marginais e quase invisíveis. O documento Summorum Pontificum e Joseph Ratzinger transformaram, de uma forma considerável, esta situação.

Parafraseando um dos discursos de guerra de Winston Churchill: “Nunca tão poucos deveram tanto a um único papa”.

Paulo VI e João Paulo II já tinham procurado acomodar os tradicionalistas litúrgicos emitindo indultos especiais para celebrarem a liturgia pré-Vaticano II, particularmente em 1984 e 1988. Mas jamais lançaram dúvida sobre a legitimidade e os bons frutos da reforma litúrgica conciliar, cuja estrutura teológica e eclesiológica se encontra na constituição “Sacrosanctum Concilium”.

Estes papas viam uma coerência fundamental entre a tradição da Igreja, a teologia do Vaticano II e a reforma litúrgica.

Mas este quadro mudou significativamente sob Bento XVI, cujo pontificado precisa ser analisado em sua complexidade, isto é, por meio de seus discursos, decisões políticas e nomeações em geral. Não faz sentido interpretar a teologia de seu pontificado inteiro unicamente com base em seu discurso sobre as “duas hermenêuticas” do Vaticano II ou em suas encíclicas.

Há pouca dúvida de que Bento expressou e incorporou uma mudança clara: de um magistério que via o Vaticano II como parte da tradição da Igreja para um magistério que via a tradição e o Vaticano II em termos muito mais complicados. Certas questões, como a reforma litúrgica, foram vistas em tensão e oposição.

Embora certamente seja cedo demais para avaliar os efeitos de longo prazo do documento Summorum Pontificum, é preciso começar a pensar nesse sentido. Por exemplo, dez anos depois, é surpreendente reler a tentativa precipitada, fracassada, de Bento em deter a tendência a interpretar o seu motu proprio como uma denúncia do Vaticano II, o que – na realidade – é generalizado nos círculos tradicionalistas católicos.

“Em primeiro lugar, há o temor de que seja aqui afetada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – seja posta em dúvida”, escreveu o papa em sua carta que acompanhava o Summorum Pontificum.

No entanto, em seguida declara: “Tal receio não tem fundamento”.

Além disso, Bento expressou o desejo de que “as duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente”.

Mas, em ambos os casos, a realidade destes últimos dez anos produziu algo bem diferente das intenções afirmadas por Bento. Na verdade, a reação negativa contra o Vaticano II tem sido um componente-chave do entusiasmo (e da nostalgia) por seu pontificado, enquanto a coexistência das duas formas do Rito Romano dentro de comunidades particulares permanece uma quimera.

Entretanto existem dois fenômenos que fazem parte da paisagem eclesial e teológica pós-Summorum Pontificum do catolicismo romano, que são difíceis de separar do pontificado de Bento XVI.

O primeiro é que Summorum Pontificum estimulou o mundo sociologicamente limitado pré-existente do tradicionalismo litúrgico e o projetou para dentro do mundo em geral da Igreja Católica, especialmente nos países de língua inglesa. Ele deu uma legitimidade teológica a visões tradicionalistas das reformas litúrgicas do Vaticano II. Aumentou a visibilidade da liturgia tradicionalista nos espaços virtuais da Igreja Católica.

Durante a última década, as mídias sociais se tornaram um fórum onde o Povo de Deus pode se fazer ouvir. Imagens de vestimentas elaboradas usadas nas celebrações litúrgicas pré-Vaticano II fazem parte da dieta diária dos que seguem a vida das igrejas locais e mesmo de lideranças eclesiásticas proeminentes.

Isso teve um impacto significativo em partes importantes do catolicismo romano contemporâneo e em seu futuro – especialmente sobre jovens católicos comprometidos e pessoas que recém se converteram, bem como em seminaristas e padres jovens.

O segundo fenômeno tem sido a redução da teologia de Joseph Ratzinger à teologia do tradicionalismo. Na verdade, Summorum Pontificum vem ajudando, e muito, a distorcer o legado teológico como um todo de um dos teólogos mais importantes do século XX.

Se a ênfase de Joseph Ratzinger estivesse sobre a tradição da Igreja (“continuidade e reforma”), o pontificado de Bento seria reduzido, especialmente nestes últimos anos, a um ícone do tradicionalismo (contra qualquer tipo de desenvolvimento teológico, visto como “descontinuidade”).

Este tradicionalismo litúrgico tem contribuído para uma compreensão tradicionalista do catolicismo a ponto de se tornar um problema e um desafio para o Papa Francisco. No ano passado (11-07-2016), o papa finalmente sentiu a necessidade de intervir. Em comunicado divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, ele repudiou a chamada “reforma da reforma litúrgica”, que o Cardeal Robert Sarah– prefeito da Congregação para o Culto Divino – promovera poucos dias antes numa palestra pública a padres em Londres.

A nota do Vaticano advertia que as noções de uma reforma da reforma “às vezes foi fonte de equívocos”, mas também esclarecia que Francisco não pretende erradicar o tradicionalismo litúrgico católico. Em vez disso, quer que permaneça no espaço limitado e específico que o seu antecessor lhe atribuiu.

“[…] A [forma] ‘extraordinária’, que foi permitida pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no Motu Proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar da ‘ordinária’”, lê-se no comunicado.

Então, quais as lições que tiramos em dez anos desde a publicação de Summorum Pontificum?

Primeiro, em um ato papal há uma lacuna entre os objetivos pretendidos/declarados e os não pretendidos/não declarados.

Segundo, às vezes há uma desconexão entre a mente de Bento XVI e como os ratizingerianos ultimamente vêm distorcendo o seu pensamento (embora não sem a ajuda do próprio Ratzinger).

Terceiro, parece haver um link entre o tradicionalismo litúrgico e a crise da globalização e do universalismo dentro do catolicismo.

Quarto, o ressurgimento do tradicionalismo é típico em todas as religiões na era pós-secular.

E, quinto, o tradicionalismo litúrgico entre os católicos teve um efeito negativo na aceitação de outros documentos do Vaticano II, como aqueles sobre o ecumenismo, o diálogo inter-religioso e a atividade missionária da Igreja.

No entanto, essa é apenas uma lista preliminar e bastante curta das consequências de Summorum Pontificum.

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