Catolicismo francês e a ruptura do Vaticano II

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16 Fevereiro 2018

Um livro recém-lançado pelo historiador francês Guillaume Cuchet deverá suscitar um debate não só na “filha mais velha” da Igreja como também em outros países. A obra explora a ideia de se o Vaticano II é ou não a causa da atual crise do catolicismo e das práticas religiosas minguantes de seus membros.

A resenha do livro Comment notre monde a cessé d’être chrétien (Como o nosso mundo cessou de ser cristão, em tradução livre) é de Isabelle de Gaulmyn, publicada por La Croix International, 09-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a resenha.

Capa do livro | Divulgação

Como os católicos praticantes franceses se transformaram numa minoria tão rapidamente, com um declínio de 30% na frequência à missa igreja aos domingos, considerando o período entre 1955 e 1975?

Essa questão não é nova. Nos últimos trinta anos, duas espécies de resposta foram propostas.

Algumas delas, em particular as da direita católica, tendem a culpar os eventos de maio de 1968. Outros acreditam se tratar de um resultado da encíclica Humanae Vitae, que, ao proibir o uso de anticoncepcionais, acabou desencorajando toda uma geração de fiéis.

Como historiador, Guillaume Cuchet tenta responder exatamente a essa pergunta com base numa série de pesquisas conduzidas por um padre e sociólogo francês, o Cônego Fernand Boulard.

Com apoio dos bispos franceses da época, o olhar audacioso de Boulard assumiu um aspecto sociológico sobre a prática do catolicismo nas dioceses francesas entre 1955 e 1965.

Embora certamente tenha percebido a ruptura do catolicismo no país, ele não antecipou plenamente a sua extensão, especialmente com respeito ao declínio massivo na prática religiosa  entre os jovens com idade entre 12 e 24 anos.

O Vaticano II como a causa da ruptura

Fazendo uso destas estatísticas e comparando-as com outras pesquisas da década de 1970, Cuchet consegue mostrar que esta ruptura ocorreu exatamente no final do Vaticano II, em 1965, e, portanto, antes dos eventos de Maio de 1968.

A questão é entender o que há com o Concílio que poderia ter causado uma tal ruptura.

“A priori, o Concílio em si não tem muito a ver, independentemente do que os fundamentalistas e tradicionalistas digam”, escreve Cuchet.

Por outro lado, o autor suscita dúvidas concernentes à prática pós-conciliar na França, que frequentemente foi “elitista” e pobremente adaptada para uma forma mais cultural de prática.

Sem dúvida, os padres daquela época concluíram, de um modo extremamente rápido, que o marco que enquadrava esta prática, incluindo a obrigação dominical, as orações populares, as comunhões solenes, etc., era meramente sociológico, sem valor algum mais profundo.

Um discurso pastoral completo, que nada tem a ver com o conteúdo dos documentos conciliares, começou a estabelecer uma nova hierarquia de obrigações para os fiéis.

Nesta hierarquia, a frequência diligente à missa não mais tinha a mesma importância que o envolvimento na vida social e comunitária ou que o respeito pela liberdade de consciência.

Este “afastamento coletivo da prática obrigatória sob a ameaça de pecado mortal”, como caracteriza Cuchet, teve um efeito desastroso na frequência à igreja.

Esse efeito ampliou-se com o fato de ter ocorrido dentro de uma mudança mais generalizada nas formas de autoridade, tanto na família quanto no campo da educação.

Corroborando o seu argumento, Cuchet examina a prática do sacramento da Reconciliação, que teve uma queda enorme por volta de 1965, e as mudanças na pregação concernentes aos fins dos tempos e à Salvação.

Apesar disso, o livro não é uma acusação do Vaticano II. Pelo contrário, ao se recusar a permitir que o tema continue sendo um tabu, Cuchet faz com que estes eventos sejam postos dentro de um contexto mais amplo da história no longo prazo, a começar com a Revolução Francesa, e que evolução geral da sociedade como um todo, a partir de 1968, ampliou-se e multiplicou-se.

Uma crise inevitável

Como observa Cuchet, a crise era inevitável. O Concílio não causou a ruptura, que teria acontecido de qualquer forma. No entanto, ele a desencadeou e acresceu uma intensidade particular ao evento.

Não foi tanto a mudança, mas a forma como foi acompanhada pastoralmente que está em causa.

Não há dúvidas de que o quase desaparecimento do catolicismo popular em nosso país pode ser, hoje, explicado, pelo menos em parte, pela implementação de uma forma de prática pastoral restringida a uma elite ultraeducada, ultraconsciente.

Isso deixou de lado os fiéis menos compromissados, que praticavam a sua religiosidade por meio de um marco baseado em sacramentos mais acessíveis. As necessidades destes fiéis não foram suficientemente sanadas.

Por outro lado, teria sido difícil escrever este livro tempos atrás por causa da “santuarização do Concílio Vaticano II” e por causa dos medos em apresentar argumentos aos fundamentalistas.

Sem dúvida, este livro terá um impacto na historiografia do catolicismo na França e deverá levar a um debate apaixonado.

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