Este é o tempo de redescobrir a confissão. Artigo de Vito Mancuso

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29 Junho 2016

"Um mundo justo nunca existiu. A figura geométrica da história não é a reta, nem que ela seja lida para o alto, como um incontestável progresso, nem que ela seja lida para baixo, como incontestável decadência. Também não é o círculo do eterno retorno do igual. É, em vez disso, a espiral de um processo que vai se fazendo, não sem tragédias e contradições. O ponto específico do nosso tempo é outro: é a dificuldade, talvez até a impossibilidade, de confessar o próprio mal, declarando-o publicamente como tal e encontrando percursos de reforma e de expiação".

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 27-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "todos, hoje, denunciam o mal social do qual a humanidade ocidental é presa; poucos indicam os seus possíveis remédios. Eu constato que a alma contemporânea tem sede de reencontrar uma conexão orgânica com a ordem do mundo, uma autêntica espiritualidade que é new age apenas por ser, muito antes, old age, isto é, retorno à religião universal da humanidade".

Eis o texto.

"O mundo vai de mal a pior: eis um lamento tão antigo quanto a história; ou, melhor, tão antigo quanto a poesia, mais antiga do que a história; tão antigo, enfim, quanto a mais antiga de todas as lendas poéticas, a religião dos padres": assim escrevia Kant em 1792, no início do ensaio sobre o mal radical da natureza humana.

É a convicção dominante também nos nossos dias, atravessados por uma sensação de contínua decadência, às vezes pelo medo de uma iminente catástrofe. A crise (econômica, política, social, cultural) estende os seus tentáculos por toda parte.

O declínio aparece a partir do perfil dos políticos expressado pela sociedade contemporânea, em sua maior parte incapazes de raciocinar em termos de justiça e de bem comum, e ainda mais pelo fato de que, quando alguém hoje se atreve a raciocínios baseados nesses ideais, recebe logo o antipático rótulo de moralista, que, no máximo, o filósofo ou o padre podem ser, mas certamente não o político e, menos ainda, o economista.

Mas há um sinal ainda mais preocupante: é a anestesia da mente juvenil, cada vez mais indiferente ao estado do mundo, supremamente desinteressada a tudo aquilo que não passa pela mediação do seu incontroverso dominador, o chamado smartphone, que se tornou uma smartprison, uma prisão eletrônica da mente.

Mas, para além das formas particulares de prisão, a questão de fundo é a evocada por Kant: estamos assistindo uma progressiva decadência ou sempre foi assim?

Basta ler os antigos textos da humanidade para compreender que, mudadas as formas de prisão, a humanidade como um todo sempre foi prisioneira. Seria possível citar a esse respeito muitas páginas de Isaías, Jeremias, Amós e dos outros profetas, mas é a Bíblia inteira que afirma que o mal dos nossos dias está enraizado nas próprias origens da sociedade e da economia: o Gênesis remete a fundação da primeira cidade ao primeiro assassino, Caim, e o nascimento da economia e da arte aos seus descendentes diretos.

No mesmo período, na Grécia, Hesíodo descreve o início da história como idade do ouro, mas dizendo que, depois, houve uma progressiva decadência que levou, primeiro, à idade da prata, depois à idade do bronze, em seguida, à idade dos heróis e, enfim, à idade do ferro.

Muitos séculos antes, o antigo Egito tinha produzido aquele extraordinário texto que é "O diálogo do desesperado com a sua alma", em que se constata amargamente que "os corações são aves de rapina, a gentileza desapareceu, estamos satisfeitos com o mal, o bem é jogado no chão por toda a parte". São palavras de 4.000 anos atrás.

Essa conscientização nos preserva de um olhar obscuro e ressentido em relação ao nosso tempo como pior do que outros, colocando-nos em proteção de uma filosofia da história sob a insígnia de uma progressiva decadência ética e espiritual da humanidade.

Com isso, não pretendo defender o status quo. Estou ciente de como o mundo atual está permeado de iniquidade. Eu só desejo observar que um mundo justo nunca existiu. A figura geométrica da história não é a reta, nem que ela seja lida para o alto, como um incontestável progresso, nem que ela seja lida para baixo, como incontestável decadência. Também não é o círculo do eterno retorno do igual. É, em vez disso, a espiral de um processo que vai se fazendo, não sem tragédias e contradições.

O ponto específico do nosso tempo é outro: é a dificuldade, talvez até a impossibilidade, de confessar o próprio mal, declarando-o publicamente como tal e encontrando percursos de reforma e de expiação.

A condição da confissão é o arrependimento, mas, ainda em 1892, Oscar Wilde escrevia que "o arrependimento está decisivamente fora de moda" ("O leque de Lady Windermere", ato IV).

Por quê? Porque podemos nos arrepender e, portanto, confessar (mesmo prescindindo do sacramento) apenas se entrevermos um horizonte de bem maior com base no qual as próprias pareçam negativas. Se, em vez disso, esse horizonte faltar, as próprias trevas interiores poderão muito bem ser confundidas com luzes.

As mais célebres Confissões da história ocidental, escritas por Santo Agostinho no fim do século IV, se abrem com esta célebre frase: "Tu nos fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti" (I, 1).

É do confronto com o Tu divino (ou com o ideal do bem e da justiça, ou com o princípio-responsabilidade, ou com outras instâncias éticas e espirituais) que nasce a inquietação do coração e, portanto, o desejo da confissão.

Faltando esse horizonte maior, o ego se justifica da sua conduta, até mesmo da mais mesquinha. Para que haja uma confissão, portanto, é preciso primeiro uma conversão. Mas justamente aqui aparece a pobreza do nosso tempo.

O específico da nossa época é a decadência espiritual que aparece a partir da progressiva perda de fascínio da religião, ao ponto de poder levantar a hipótese de que, pela primeira vez na história, o homo sapiens, ao menos no Ocidente, não será mais homo religiosus.

Mas atenção: tudo isso não se deve à humanidade ocidental que se tornou ímpia e relativista, mas à sua religião que não soube acompanhar a sua evolução espiritual e ética.

A modernidade apresentou inúmeras pesquisas sobre a verdadeira identidade de Jesus e sobre a verdadeira essência do cristianismo. Por quê? Por causa da convicção geral assim expressada por Albert Einstein: "Se expurgarmos o cristianismo como Jesus Cristo o ensinou de todos os acréscimos subsequentes, especialmente os dos padres, ficamos com um ensinamento capaz de curar todos os males sociais da humanidade" (de "Como vejo o mundo").

Hoje também as pessoas mais sensíveis sentem uma grande necessidade de restaurar e redescobrir as formas originais, de remover da espiritualidade os encargos impostos pelo poder para controlar as almas e os corpos dos fiéis.

Todos, hoje, denunciam o mal social do qual a humanidade ocidental é presa; poucos indicam os seus possíveis remédios. Eu constato que a alma contemporânea tem sede de reencontrar uma conexão orgânica com a ordem do mundo, uma autêntica espiritualidade que é new age apenas por ser, muito antes, old age, isto é, retorno à religião universal da humanidade.

É somente a partir da conexão orgânica e confiante com o mundo natural que os seres humanos podem reencontrar a coragem de serem livres: livres do poder econômico e político, livres do invasivo erotismo mercantil que aprisiona os corpos tornando-os mercadorias, livres das obsessivas conexões à rede que os enreda, de novo felizes por estarem algumas vezes sozinhos, por ficarem em silêncio, por respirarem, por serem.

Dizia o grande teólogo jesuíta Karl Rahner que a religião do terceiro milênio ou será mística ou não será. Ele tinha razão, mas talvez nós devemos acrescentar que a humanidade como um todo ou será mística (isto é, capaz de não se deixar roubar o silêncio e a solidão interior) ou não será.

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