Homilia de Paulo VI na primeira missa em italiano depois do Concílio

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06 Março 2015

Neste sábado, 7 de março, às 18 horas, o Papa Francisco vai celebrar a Eucaristia na paróquia romana de Todos os Santos, para recordar a primeira missa em italiano celebrada na mesma igreja pelo Papa Paulo VI, no dia 7 de março de 1965.

Publicamos aqui o texto integral da homilia do Papa Montini (1º Domingo da Quaresma).

O texto está publicado no sítio da Santa Sé. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que estamos fazendo? Este é o momento das reflexões e se insere no sagrado rito para suscitar os pensamentos que devem acompanhá-lo. Nós estamos implementando uma realidade, que, por si só, apresenta-se solene e tem dois aspectos: um extraordinário; o outro, habitual e ordinário.

Extraordinária é a atual nova maneira de rezar, de celebrar a Santa Missa. Inaugura-se, hoje, a nova forma da Liturgia em todas as paróquias e igrejas do mundo, para todas as Missas seguidas pelo povo. É um grande acontecimento que deverá ser recordado como princípio de florescente vida espiritual, como um compromisso novo para corresponder ao grande diálogo entre Deus e o homem.

"O Senhor esteja convosco"

A norma fundamental é, de agora em diante, a de rezar compreendendo as frases e palavras individuais, de complementá-las com os nossos sentimentos pessoais e de uniformizá-los à alma da comunidade, que faz coro conosco.

Há, depois, outra circunstância que torna singular a atual solenidade: a presença do papa, o que, por si só, autoriza a ressaltar tudo o que pode se tornar útil para a nossa vida cristã.

Além disso, também querendo considerar o segundo aspecto, isto é, aquilo que é costumeiro nestas reuniões, tudo – sabemo-lo – apresenta um caráter precioso e digno da nossa reflexão.

E em primeiro lugar: o que é o Rito que estamos celebrando? É um encontro de quem oferece o Divino Sacrifício com o povo que o assiste. Tal encontro deve ser, por isso, pleno e cordial. Portanto, não é fora de lugar que o celebrante – neste caso, o papa – dirija muitas vezes aos presentes a saudação característica: o Senhor esteja convosco!

Eis: o papa repete o grande desejo não só se dirigindo, com gesto afetuoso, aos presentes, mas também expressando o propósito de alcançar toda a população cristã desta cidade, da santa Diocese de Pedro e Paulo, a Diocese de Roma. Por isso, com todo o coração, com toda a força que Deus põe na sua voz, no seu ministério, o Santo Padre exclama ao povo romano: que Deus esteja contigo!

Ao mesmo tempo, Ele espera que cada um responda de bom grado: "E com o teu espírito!" ["Ele está no meio de nós", na liturgia em português]. Desse modo, inicia-se esse estupendo e fervoroso diálogo entre quem tem responsabilidade de ofício como Ministro de Deus e o povo cristão; entre o Sacerdote e o fiel individual, que recebe essas graças; comenta-as, enriquece-se com elas e as oferece, por sua vez, a toda a comunidade.

Todos chamados à redenção e à salvação

Como é óbvio, porém, os participantes da Ação Litúrgica recebem a saudação de maneira especial. Portanto, que o Senhor esteja com a dileta comunidade de sacerdotes, clérigos, estudantes, que habitam na antiga casa de Dom Orione; com o Pároco, que tem a responsabilidade pastoral por esta parte do rebanho diocesano; com todos os fiéis confiados às suas solicitações. Que o Senhor esteja com as comunidades religiosas saudadas pouco antes; com os caríssimos enfermos que, por um adivinhado pensamento, estão no primeiro lugar na assembleia, e tanto obtêm mercê as suas orações e sofrimentos oferecidos em benefício de todos os outros; com as crianças do pequeno clero, que adornam o altar e representam todos os seus coetâneos, esperanças da família, da Igreja e da sociedade; esteja com as várias Associações, masculinas e femininas, da Ação Católica e de caráter religioso; e chegue, enfim, a saudação bendizente a cada casa, levando a ela a graça e a paz do Senhor!

O auspício também não se limita às pessoas: ele se estende também às atividades temporais: ao estudo, ao trabalho, à fadiga, às profissões, de modo que o conjunto da vida material, o ganhar o pão cotidiano também recebam um sólido elemento de paz, de harmonia, de prosperidade.

E aqueles que estão longe? Há alguém que aqui falta ao apelo? Pois bem, eu teria o direito de chamar um por um os cristãos desta paróquia e de lhes perguntar se são fiéis. Deveria recordar, a cada um deles, o caráter que trazem impresso na sua alma para conhecer, amar e servir a Cristo. E se alguém fosse ou esquecido ou estivesse inerte, acolha hoje, de mim, o convite mais cordial e paterno: tu que não compreendes as coisas da Igreja, tu que não sabes mais rezar, que te acreditas distante, que te consideras talvez excluído da grande Família e olhado com maus olhos, saibas, ao contrário, que a Igreja te procura, te chama, te exorta, te espera. Por quê? Mas porque em ti também resplandece o direito dos filhos de Deus; portanto, tu tens o dever de responder ao grande apelo da tua salvação. Todos, de fato, temos por vocação suprema o destino de compartilhar a grande história da nossa Redenção.

Cristo presente na oração e com a palavra

Segundo pensamento. Além do encontro, embora tão indicativo e promissor, nós estamos aqui para celebrar o grande Rito sacrificial, eucarístico: a Santa Missa; o que significa dizer a presença de Cristo no meio de nós. Agora, o papa, antes ainda de mencionar essa presença sacramental e real, deseja repropor aos diletos ouvintes outra grande verdade. Pelo simples fato de nos encontrarmos juntos, congregados no nome de Cristo, unidos para pensar n'Ele e rezar para Ele, nós já possuímos a Sua presença. Jesus mesmo assegurou isso: "Todas as vezes em que mesmo dois ou três indivíduos se reunirem em Meu nome – eis o mistério da presença mística de Cristo – Eu estarei no meio deles". Portanto, nós podemos nos dar conta dessa suave e misteriosa presença de Jesus entre nós, hoje, justamente concentrando-nos sobre tal realidade e precisamente porque o Seu Nome nos reúne, a 1.965 anos do seu nascimento; porque n'Ele acreditamos; e em breve celebraremos os seus Mistérios sacramentais.

Cristo está aqui: a paróquia implementa a sua presença no meio dos fiéis, e, desse modo, o próprio povo cristão se torna, por assim dizer, sacramento, ou seja, sinal sagrado da presença do Senhor. E isso não é tudo. Estamos gozando de outra presença do Senhor: a sua palavra; o seu Evangelho.

Existe uma coincidência entre a vida de Jesus e a Sua palavra, pois Ele é o Verbo, é a Palavra. Quando repetimos as Suas palavras, tornamos, de certo modo, Jesus presente conosco. Entre um mestre e aquilo que ele ensina, existe uma certa distância; entre Jesus e a Sua palavra, há coincidência. Enquanto nós queremos que o Senhor esteja conosco, a Sua palavra já O traz. Desse modo – embora misterioso, mas quase mais perto da nossa capacidade de aprender – essa Sua presença vive nas nossas almas, a Sua voz ecoa nos nossos corações, o Seu pensamento se torna nosso, o Seu ensinamento circula no nosso ser. Resumindo: nós entramos em comunhão com Cristo se escutamos bem a palavra de Deus.

Encontramo-nos, assim, bem preparados para o grande e misterioso Rito da Ceia sacrificial: a Santa Missa.

Tornou-se costume, neste ponto, comentar a palavra do Senhor. É evidente que desejamos adquiri-la, introduzi-la das orelhas ao coração, escutá-la interiormente, fixá-la em nós, torná-la como uma provisão de energia para o intelecto e o coração, observá-la sempre na prática, vivê-la.

Se, neste momento, o papa perguntasse às crianças do pequeno clero o que escutaram há pouco na leitura do Santo Evangelho, elas logo responderiam: ouvimos o relato da tentação de Jesus. A resposta é precisa.

O duelo entre o bem e o mal

Trata-se de uma página grande, arcana, do Evangelho. Depois de 30 anos de vida escondida e operosa em Nazaré, Jesus está prestes a iniciar a Sua pregação; mas, antes, dirige-se ao sul da Judeia, ao Jordão, onde quer receber o Batismo de penitência do Precursor, João Batista. Depois, sobe aos montes circundantes que constituem uma paisagem desprovida de vegetação, hórrida, sem vida, e, em uma solidão certamente não repousante, mas de assustador silêncio, Jesus jejua por 40 dias e 40 noites.

E eis que aparece um personagem espiritual, mas terrível e mau: é o demônio; e ousa tentar o Salvador. Não nos deteremos nas três propostas individuais feitas pelo maligno; bastará pensar no simples quadro que nos retrata o choque entre o espírito do mal e o Filho de Deus feito Homem. O Evangelho nos apresenta, precisamente, esse drama, esse duelo entre Jesus e Satanás. Jesus é tentado. Isto é, Ele também quer conhecer o combate entre a alma que pretende permanecer fiel a Deus e o invasor que a ilude para desviá-la e induzi-la ao mal. Aqui se deve recordar que o que se refere a Jesus também toca a nós. A vida de Jesus se configura à nossa: o que acontece com Ele se reflete em nós.

Jesus foi tentado? Tanto mais nós podemos e devemos sê-lo. Parece lógica, de fato, a pergunta, já que nós vivemos em um mundo totalmente assediado e perturbado por essa inimizade escondida daqueles que São Paulo chama de "rectores tenebrarum harum". Estamos como que rodeados por algo de funesto, malvado, perverso, que excita as nossas paixões, aproveita-se das nossas fraquezas, insinua-se nos nossos hábitos, vem por trás dos nossos passos e nos sugere o mal. A tentação, portanto, é o encontro entre a boa consciência e a atratividade do mal; e na forma mais insidiosa de todas. O mal, de fato, não se apresenta a nós com o seu rosto real que é inimigo, horrível e assustador. Acontece justamente o contrário. A tentação é a simulação do bem; é o engano pelo qual o mal assume a máscara do bem; é a confusão entre o bem e o mal. Esse equívoco, que pode estar continuamente diante de nós, tende a nos fazer considerar o bem lá onde, ao contrário, está o mal.

Falhas, renúncias e egoísmos do homem moderno

E aqui entramos não mais na cena evangélica, mas na nossa vida e experiência, no mundo em que nos encontramos. É de todos os momentos e horas; é de todas as espécies essa confusão. É própria, dir-se-ia, do homem moderno, que perdeu o justo critério do bem e do mal. Perdeu o senso do pecado, como explicam os mestres de vida espiritual.

O homem moderno se adapta a todas as coisas; é capaz de se fazer advogado das coisas más, a fim de sustentar a liberdade do próprio prazer, e que tudo pode e deve se manifestar, sem nenhum impedimento em relação ao mal; uma liberdade indiscriminada para aquilo que é ilícito.

Acaba-se, assim, por autorizar todas as expressões da vida inferior; o instinto prevalece sobre a razão, o interesse sobre o dever, a vantagem pessoal sobre o bem comum. O egoísmo torna-se, por isso, soberano na vida do indivíduo e da social. Por quê? Porque se esqueceu e não se tem mais o senso da distinção: isto é bom, isto é mau. Não se conhece mais a norma absoluta para tal distinção, ou seja, a lei de Deus. Quem não leva mais em conta a lei do Senhor, dos seus Mandamentos e Preceitos, e não os sente mais refletidos na própria consciência, vive em uma grande confusão e torna-se inimigo de si mesmo. É inegável, de fato, que muitos e muitos males nossos são adquiridos pelas nossas próprias mãos, pela tola maldade, obstinada a buscar não aquilo que ajuda, mas aquilo que é nocivo para a existência.

Portanto, é preciso renovar, revigorar a nossa capacidade de julgar, de discernir o bem do mal. Em consequência, quando o mal – isto é, tudo o que é proibido, contrário à lei de Deus, aos bons costumes e ao juízo sadio da razão – se apresenta atraente, lisonjeiro, sedutor, útil, fácil, agradável, nós devemos demonstrar energia e sabedoria, para dizer sem rodeios e resolutamente: não. Esse é o modo para repelir e superar a tentação.

Além disso, o fim do trecho do Evangelho deste primeiro Domingo da Quaresma dá à vida cristã justamente um conceito militante. Um cristão verdadeiro pode ser fraco, medroso, vil, traidor do próprio nome, da própria consciência, do próprio dever? Não, de fato. O autêntico cristão é forte, corajoso, leal, coerente, heroico, se necessário: o cristão – sabemo-lo da nossa Crisma – é militante, miles Christi: soldado de Cristo.

A vida cristã é combate: nós devemos estar alerta continuamente; devemos sempre ser capazes de separar, distinguir o bem do mal, e decidir: eu estou pelo bem; pela virtude; pelo meu dever; pelas promessas feitas. Tentarei, portanto, estar verdadeiramente pronto para superar toda atração que poderia me reduzir a fraco e vil diante da apresentação do mal camuflado de bem.

Fica claro, então, que a grande lição de vida cristã com que se inicia a Quaresma exige de nós duas recordações explícitas e grandes. Acima de tudo, devemos ser sábios, dispostos a um bom juízo, isto é, prontos para refletir e manter a lâmpada da nossa consciência e do nosso pensamento sempre acesa diante de nós. Não devemos caminhar no escuro, mas portando alto esse esplendor que Deus depositou nas nossas almas e que se chama nossa consciência. Não enganemos a nós mesmos, não apaguemos a voz da consciência, não tentemos nunca deformar a sua retidão de juízo. Sejamos simples e lineares: "Est, est; non, non". Sim, sim; não, não. É preciso ser verdadeiramente conscientes dessa necessária clareza de juízo e de conduta.

Sempre na luz e na defesa, o "miles Christi"

O segundo ensinamento é o de ser forte. E como agrada, e como é consolador, filhinhos meus, que o santo ministério me autorize ou, melhor, me comande a dizer àqueles que eu considero filhos e irmãos: devemos ser fortes! Se a minha pregação tivesse que dizer: "É preferível ser esperto, fraco, possibilista, acomodado, inclinado ao compromisso; e mascarar a nossa vilania com elogios, com hipocrisias", como seria feia a minha palavra dirigida a vocês, como trairia a sua dignidade humana, tentando diminuir a beleza da sua estatura cristã!

Mas, ao contrário, a minha voz – mesmo que a fraqueza não conforte, como deveria, esse testemunho do Evangelho do Senhor – lhes diz: filhos meus, se quisermos ser cristãos, hoje especialmente, devemos ser fortes. Jovens que me escutam, vocês, de modo particular, devem acolher esta clara voz, esta mensagem do Evangelho: é preciso viver o Cristianismo com fortaleza, com consciência militante; é necessário suportar também alguns sacrifícios, para conservar intacta a própria fé e para manter o empenho assumido com Cristo, com a comunidade cristã, com a Igreja.

E o Senhor, graças ao ensinamento desse drama das suas tentações, indica um luminoso epílogo: a tentação, a malvadeza permanente que espreita os nossos passos e a nossa incolumidade pode ser vencida. Com o quê? Sempre com a palavra de Deus, com a Sua graça, que nunca falta a quem a deseja e a busca.

Filhinhos, não tenham medo de ser fortes. Terão Cristo com vocês; e terão o senso da dignidade da vida cristã; terão exata a percepção dos seus destinos, que são ótimos neste mundo; felizes e eternos na vida do Céu.

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