Lutero, homem arcaico que funda a Idade Moderna

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30 Outubro 2017

“A biografia de Lutero escrita por Adriano Prosperi sobrevoa os últimos anos da vida, ao mesmo tempo que repassa, com grande cuidado e lúcida inteligência, a juventude e a maturidade, isto é, propondo-se ‘um reconhecimento sobre as fontes do percurso intelectual e religioso que levou Lutero à polêmica com o papado sobre a questão das indulgências e à definitiva fratura da unidade do mundo cristão europeu’”.

A opinião é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, membro do Comitê Italiano de Bioética e professora da Universidade de Roma “La Sapienza”. O artigo foi publicado por L’Osservatore Romano, 28-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nestes dias, celebra-se o quinto centenário das teses de Wittenberg, que, curiosamente, coincide também com outro aniversário, o do início da religião laica dos centenários. De fato, foi justamente por ocasião da celebração luterana do centenário em 1617, pouco antes do início da Guerra dos Trinta Anos, que teve origem esse novo costume destinado a uma crescente sorte.

Quem recorda isso é Adriano Prosperi, na introdução da sua bela biografia do reformador (Lutero. Gli anni della fede e della libertà. Milão: Mondadori, 2017, 580 páginas), na qual ele sublinha que essa data marca, aos olhos dos mais renomados pensadores, o ato de nascimento da história moderna, uma história que se funda na fratura da unidade religiosa e na consequente conscientização da inédita necessidade de lutar pela liberdade de consciência.

Nas mesmas páginas, o historiador também aborda o problema, sobre o qual muito se escreveu, da relação decisiva que se criou entre Lutero e o nascimento do espírito alemão como poderosa reivindicação de identidade. Espírito muitas vezes identificado pelos críticos como origem de uma forma mentis que leva a fazer do indivíduo um súdito, e não um cidadão. Um problema que se relaciona, porém, com o último Lutero, sobretudo, quando o reformador toma uma posição fortemente contrária às revoltas camponesas, mesmo que inspiradas – ao menos em parte – nas suas próprias palavras, até desposar a forte e dura repressão estatal.

A biografia de Prosperi sobrevoa os últimos anos da vida, ao mesmo tempo que repassa, com grande cuidado e lúcida inteligência, a juventude e a maturidade, isto é, propondo-se “um reconhecimento sobre as fontes do percurso intelectual e religioso que levou Lutero à polêmica com o papado sobre a questão das indulgências e à definitiva fratura da unidade do mundo cristão europeu”.

Um percurso muito bem aprofundado, junto com a leitura dos seus textos, e baseado no conhecimento vasto e exaustivo por parte do autor do período histórico em análise, particularmente da história da instituição eclesiástica e, mais em geral, da religiosidade europeia. Essa vasta cultura de partida dá ao livro um fôlego inigualável, enquanto uma escrita fluida, acessível também aos não adeptos aos trabalhos, torna a leitura agradável.

Surge daí o retrato de um homem caracterizado por uma profunda honestidade interior, cuja principal característica é levar todo o ensinamento cristão tremendamente a sério. A sua preparação para o ingresso na ordem agostiniana e para a ordenação sacerdotal se baseou em uma leitura lenta e meditada dos textos sagrados e em uma convicção da presença real de Cristo na Eucaristia, que nunca desapareceu dele.

Mas o seu olhar sobre a teologia, no rastro da leitura de Agostinho, foi radicalmente novo: o objeto da sua investigação não era mais Deus, mas sim o homem, “um homem sob o peso do pecado, a quem Deus oferece a forma para se tornar justos”. Nesse sentido, escreve Prosperi, “Lutero marcou a passagem da Idade Média para a Idade Moderna”.

O historiador certamente não subestima a importância, no caso de Lutero, do apoio de Frederico III, o Sábio, o eleitor da Saxônia, que “logo amadureceu em relação a ele (…) sentimentos de respeito e devoção”.

A propósito da famosa viagem a Roma do jovem monge, Prosperi ressalta que o que provocou a sua reação não foi tanto o horror diante da corrupção e da necessidade de moralizar os comportamentos, mas sim o problema teológico levantado pela venda das indulgências. A Igreja podia ter jurisdição sobre o além? Eram justificadas as teorias da salvação da alma que ela propunha?

Imerso nesses pensamentos, o jovem Lutero não prestou atenção à beleza das obras de arte recém-finalizadas ou em vias de realização, mas apreciou apenas a assistência oferecida pelos hospitais italianos, sobretudo em Florença.

Desde os primeiros anos, as suas tarefas de ensino e de pregação o enraizaram em um diálogo com os simples, central na sua elaboração intelectual, na sua escolha de usar sempre nos seus escritos a língua alemã: um dos aspectos de modernidade que o distinguem, embora não se tratasse de um personagem moderno.

Prosperi denuncia um paradoxo: de fato, se “nada podia ser mais remoto da mente do doutor Lutero do que a vontade de atribuir à consciência individual a função de guia inapelável da conduta moral”, justamente a sua herança contribuiu eficazmente para “dar à liberdade de consciência um lugar fundamental”. Evidenciando, assim, a contradição que habitava um homem arcaico, em muitos aspectos, mas que deu origem a uma incrível perturbação nas ideias religiosas e na cultura moderna.

Lutero certamente não se sentia um místico, nem um profeta, mas sim um cristão dilacerado pelo sofrimento do pecado, que tem a coragem e a inteligência de fazer perguntas novas às Sagradas Escrituras. Com um olhar livre daquela lente à qual todos os teólogos da época já recorriam, a escolástica: “Eu me baseio nos Padres da Igreja e na Bíblia – escreve –, não nos doutores escolares, o que enlouquece os meus inimigos (... ) Eu leio os escolásticos, mas com juízo, não de olhos fechados”.

O fato de ele nunca falar da sua obra como de uma reforma da Igreja, mas sim como do restabelecimento da verdade evangélica, é considerado por Prosperi como a prova de que a fratura com Roma não era nem desejada, nem, muito menos, programada. Substancialmente, o reformador “considera que não é lícito resistir à Igreja romana, mas sim à Cúria Romana”.

Lutero sentia que combatia não pela própria sorte, “mas pelo plano divino de salvação”, e não captava na sociedade europeia os sinais de violência que logo desembocariam nas guerras religiosas. Sinais compreendidos e previstos, ao contrário, por Erasmo, que, justamente por isso, escreve Prosperi, evitou entrar nas fileiras dos apoiadores de Lutero.

A relação entre os dois grandes está bem traçada, desde o início, como um confronto entre personagens muito diferentes: “Habituado a dominar nos ambientes cultos com as armas da elegância do estilo e de uma inteligência velada de sábia ironia, Erasmo sempre advertiu no trato pessoal do monge agostiniano uma radicalidade que o assustou e lhe sugeriu manter distância”.

O profundo conhecimento do contexto cultural e religioso que foi mencionado, e dos próprios escritos de Lutero, faz dessa biografia um livro que, embora não apresente grandes novidades interpretativas, ajuda, de modo admirável, a compreender a personalidade do reformador e o seu papel histórico.

A única crítica que pode ser feita ao autor é de ter se envolvido demais, quase até a identificação com Lutero. E, talvez, seja justamente esse envolvimento que lhe sugeriu a não continuar, de modo aprofundado, a segunda parte da vida do reformador, aquela em que os seus limites – o primeiro de todos, os laços de dependência com o poder político – tornam-se evidentes. Os camponeses alemães, os judeus... são alvos das suas iras, difíceis de serem compartilhadas por um bom cristão, mesmo que do século XVI. E Prosperi sabe muito bem disso.

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