A ''santa esposa'' de Lutero. Artigo de Gianfranco Ravasi

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30 Outubro 2017

“Relutante a se casar, Lutero, no fim, cedeu e, no dia 13 de junho de 1525, unia-se a Katharina. A leitura das cartas – dirigidas à mulher de características maciças, semelhantes às do seu esposo – é deliciosa em nível humano e relevante no plano histórico-documental.”

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 29-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na próxima terça-feira, terão passado cinco séculos desde aquela quarta-feira, 31 de outubro de 1517, véspera de Todos os Santos, quando – de acordo com uma tradição de contornos talvez lendários – Martinho Lutero afixou na porta da capela do Castelo de Wittenberg as célebres 95 teses, consideradas como a matriz da Reforma protestante.

Neste ano “luterano”, várias vezes selecionamos textos relacionados à virada que a cristandade viveu naquele século, aliás, exaltante do ponto de vista da cultura humanista. Desta vez, optamos por propor uma trilogia bibliográfica bastante original, a partir do primeiro texto que oferece as 21 cartas que chegaram até nós do mais denso epistolário que Lutero dirigiu à sua amada Katharina von Bora, uma monja cisterciense que fugiu às escondidas com outras 11 coirmãs do convento, fascinada com a mensagem desse frade agostiniano rebelde.

Relutante a se casar, Lutero, no fim, cedeu e, no dia 13 de junho de 1525, unia-se a Katharina, que, então, tinha 26 anos, 16 a menos do que o seu esposo, com o qual teve três filhas (Elizabeth, Magdalene, Margarete) e três meninos (Hans, Martin, Paul).

A leitura das cartas – dirigidas à mulher de características maciças, semelhantes às do seu esposo, ambos imortalizadas pelo retrato do grande Lucas Cranach em 1529 (ver acima) – é deliciosa em nível humano e relevante no plano histórico-documental.

O amor apaixonado, mas também a admiração intelectual pela sua Käthe já emerge na sugestiva sequência de vocativos usados, que vão do “Senhor” (sic!) acompanhado pelo epíteto mais solene “doutora, pregadora”, até “minha dileta senhora da casa”, “esposa santa e preocupada” com a saúde do marido (como aparece na última carta, quatro dias antes da morte de Lutero, datada de 14 de fevereiro de 1546).

Mas, ao lado de outros adjetivos tenros como “amável, cara, gentil, doutíssima”, há alguns vocativos surpreendentes como “cervejeira”, porque era hábil em preparar essa bebida de acordo com um método aprendido provavelmente no mosteiro, no rastro das antigas tradições que, muitas vezes, permanecem ainda hoje em vários conventos.

Ou ele a interpela como “jardineira”, porque cultivava hortas e jardins, e até mesmo como “rica senhora”, por causa da propriedade de Zühlsdorf adquirida para ela pelo próprio Lutero de um cunhado da esposa.

Pode parecer desconcertante o vocativo de “Senhora do mercado das porcas”, por causa de um pomar que Martinho tinha dado a Katharina e que era conhecido, justamente, como “o jardim do mercado das porcas”...

Naturalmente, deixamos que o leitor deguste a intimidade desse diálogo epistolar que entrelaça espiritualidade e concretude cotidiana (“Não se esqueça das amoras na amoreira... faça o vinho decantar... fazer as janelas no novo telhado e nas paredes... mando-te as trutas...” e assim por diante).

Acima de tudo, são importantes as notas históricas, os frêmitos de ternura pelos filhos (Elisabeth morreria aos oito meses, e Magdalene, aos 13 anos), aversão humorística pelos judeus e as polêmicas teológicas. Sobre este último aspecto, deve-se assinalar, na primeira carta de 1529, um ataque contra Zuínglio, o reformador suíço que negava a presença real de Cristo na Eucaristia, de acordo com outro teólogo, Oekolampad, que a considerava apenas “sinal do corpo de Cristo”.

Lutero, que, nisso, revela-se ainda “católico”, não tem hesitações: “Acho que Deus os tornou cegos”. Essa nota nos permite passar ao segundo volume da nossa trilogia. A editora Claudiana, de fato, decidiu inaugurar uma coleção de “obras escolhidas” de Huldrych Zwingli, nascido na Suíça oriental em 1484, pároco católico que se aproximou da Reforma depois de uma profunda crise espiritual em 1519.

Pois bem, a primeira obra dessa coleção é o ensaio teológico Amica exegesis, que Zuínglio compôs em 1527: trata-se, precisamente, de uma réplica “amigável” que ele dirige a Lutero, que o havia atacado veementemente sobre a questão eucarística. A sua argumentação é substancialmente bíblica, baseada em uma minuciosa exegese do Novo Testamento e, especialmente, do Evangelho de João, porque, nele, lê-se – dentro do discurso proferido por Jesus na sinagoga de Cafarnaum sobre o “pão da vida” – que “o Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (6, 63). A conclusão geral que Zuínglio extrai é radicalmente diferente da doutrina católica e luterana: Cristo não está presente no pão e no vinho da ceia eucarística, mas sim na assembleia dos fiéis, que são o seu verdadeiro “corpo” vivo no tempo. O ditado é muito caloroso e interpela Lutero diretamente, do qual se intui o ardor polêmico que Zuínglio rebate de modo pungente, às vezes tingido de ironia, mas também respeitoso ao gênio do adversário “doutíssimo”, mas invencível na sua obstinação.

Em 1523, Zuínglio havia convencido os magistrados de Zurique a adotarem 67 textos (Schlussreden) para uma reforma religiosa que superava em radicalismo a de Lutero, promovendo um cristianismo austero, essencial e despojado de elementos sagrados.

Berna, Basileia e Schaffhausen o seguiram, enquanto a dura reação dos cantões católicos gerou um confronto bélico em que o reformador encontrou a morte em 11 de outubro de 1531. A sua bandeira ideal seria recolhida pelo calvinismo, que, no fim, absorveu o movimento zuingliano.

Falávamos de radicalidade e essencialidade espiritual. Em certo sentido, também podemos atribuir essas características ao terceiro sujeito que introduzimos: são as chamadas Assembleias de Deus, que encarnam um “pentecostalismo” de gênese americana, mas que se expandiu para outros continentes e, portanto, também para a Itália.

Ele é considerado uma espécie de “redespertar” dentro do protestantismo histórico, um “avivamento” espiritual que, agora, três autores estudam na sua manifestação histórica, especialmente na história republicana da Itália.

Surgidas em 1914 em Hot Springs como uma rede, as Assembleias de Deus, depois, se tornaram uma “denominação” com uma identidade própria, que se ramifica em diversas comunidades nacionais autônomas com um total de 67 milhões de fiéis.

Na Itália, depois da perseguição fascista, elas se constituíram com um reconhecimento jurídico e com um entendimento de Estado, dotando-se de várias sedes, de um instituto de formação, de obras de assistência e associando cerca de 150.000 fiéis.

Um livro reconstrói agora a sua história, com base também na documentação de arquivo das comunidades individuais espalhadas na Itália, especialmente no Sul, recompondo também a rede de relações internacionais e com o Estado italiano a partir da Constituinte.

Sobre esse último ponto, é significativa a introdução da noção de liberdade de culto que permitiu que o movimento pentecostal saísse à luz do sol. Foi relevante a obra de um deputado que atravessaria longamente a história republicana, Luigi Preti (1914-2009): foi ele que faria com que se suprimisse a referência às limitações para o exercício do culto não católico.

Uma história, certamente, de minorias, mas que têm uma presença espiritual e social viva no mosaico da comunidade nacional italiana.

  • Martinho Lutero. Lettere a Katharina von Bora, editado por Reinhard Dithmar. Turim: Claudiana, 72 páginas.
  • Huldrych Zwingli. Amica esegesi, editado por Ermanno Genre, tradução do latim por Marco Zambon. Turim: Claudiana, 451 páginas.
  • Dayana Di Iorio, Salvatore Esposito, Alessandro Iovino. Liberi per servire. Le Assemblee di Dio nella storia repubblicana. Marchirolo (Varese): EUN (Editrice Uomini Nuovi), 238 páginas.
  • Veja-se também: Lutero. Opere scelte. 16. Da monaco a marito. Due scritti sul matrimonio (1522 e 1530), editado por Paolo Ricca. Turim: Claudiana, 284 páginas.

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