Lutero e Erasmo, a gênese de um diálogo fracassado

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07 Agosto 2017

Os três últimos pontífices o reabilitaram amplamente, reconhecendo o seu desejo de renovar a Igreja e não de dividi-la (Bergoglio), a sua espiritualidade cristocêntrica (Ratzinger) e a redescoberta da Palavra, essencial para os cristãos (Wojtyla). Martinho Lutero é recordado este ano com livros e celebrações nos 500 anos do início da Reforma protestante, um evento que marcou profundamente não só o cristianismo, mas também toda a modernidade.

A reportagem é de Roberto Righetto, publicada por L’Osservatore Romano, 04-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o que teria acontecido se o monge agostiniano tivesse se encontrado com outro grande reformador do seu tempo, Erasmo de Rotterdam, que acompanhou passo a passo o protesto que levou ao cisma, mas nunca quis abandonar a Igreja de Roma?

Erasmo pôs os ovos que Lutero chocou”, sentenciou o estudioso britânico Percy Stafford Allen, que organizou a edição das cartas do grande humanista.

De fato, em 1516 – como escreveu o historiador belga Léon E. Halkin – “Erasmo e Lutero estão suficientemente próximos para que as suas causas estejam ligadas”. Quem testemunha isso é uma carta enviada a Erasmo por Giorgio Spalatin, capelão de Frederico da Saxônia, em favor de Lutero.

A viagem a Roma feita há alguns anos pelo autor do “Elogio à loucura” decepcionou grandemente: sinceramente apegado à verdade da fé, ele foge da pompa romana, do luxo e do mundanismo. A visão de um papado triunfante, mas exangue, no entanto, não o levam à rebelião, mas a projetar uma reforma para uma Igreja sem compromissos, alheia aos anseios do mundo, inteiramente dedicada à pregação do Evangelho. Não são essas as premissas da revolta de Lutero?

Mas o protesto ganha corpo: primeiro com as teses de Wittenberg, depois com a disputa de Heidelberg. É Lutero que dá o primeiro passo na direção de Erasmo e, em 18 de março de 1519, envia-lhe a primeira carta. “Muitas vezes eu converso contigo, e tu comigo, Erasmo, nosso decoro e nossa esperança, embora ainda não tenhamos nos encontrado. Quem é aquele cujo santuário íntimo não é ocupado por Erasmo, que não é instruído por Erasmo, sobre cujo espírito Erasmo não reina?”

Passam-se dois meses, e, em 30 de maio, chega a resposta, que não esconde o clamor suscitado pelos escritos luteranos. “De minha parte, enquanto puder, permanecerei neutro. Enquanto isso, é preciso cuidar para que o nosso coração não se corrompa por ressentimento, ou por ódio, ou pela sede de glória. Esta última nos ameaça também no meio do nosso zelo feito de piedade.”

Em suma, Erasmo se recusa a ser considerado como porta-bandeira do partido de Lutero, mas, alguns meses mais tarde, em 19 de outubro, quando o conflito com Roma se aprofunda, ele toma em mãos a pena e, ao arcebispo de Mainz, Albert de Brandenburgo, esclarece a sua posição. “Eu não sou nem acusador de Lutero, nem o seu protetor, nem o seu juiz. É cristão, creio eu, tratar Lutero de modo a impedir, se for inocente, que facções desonestas o aniquilem. Se estiver no erro, espero o seu arrependimento, não a sua condenação. Isto concorda melhor com o exemplo de Cristo.”

Diante daqueles que o acusam de não tomar partido com a Igreja de Roma, ele repete que é equivocado rejeitar as razões de Lutero sem tentar entendê-las e que não escreverá nem a favor do monge nem contra. “Um dia – escreve ele a Martino Lipsio – se entenderá que eu não defendo Lutero, mas sim a paz da cristandade.”

Mas as posições se endurecem ainda mais: em 1520, Leão X acusa Lutero de heresia, e, em 1521, Carlos V emite o Édito de Worms, que faz dele um fora da lei. Erasmo, que também deplora a falta de moderação de Lutero, escreve a Pedro Barbier: “Queimando os seus livros, talvez se expulse Lutero das bibliotecas, mas não sei se será possível expulsá-lo das almas”.

E, quando o novo papa, Adriano VI, seu amigo e também ele holandês, solicita um posicionamento dele, Erasmo reitera que se opõe ao cisma, mas critica a repressão usada contra Lutero. Também desta vez, como sempre, ele é contrário ao uso da força em matéria de fé.

Assim, em 1523, ele responde ao papa: “O mundo precisava ser despertado para a verdade evangélica, porque estava entorpecido pelas opiniões escolásticas, pelos bens humanos e pelas indulgências pontifícias”.

Um ano depois, ele publica “O livre arbítrio”, quase uma tentativa extrema de conciliação entre as partes: a obra encontra boa acolhida entre os católicos, que também o repreendem por uma excessiva abertura a Lutero, mas é rejeitada pelos protestantes. Em 1525, é publicado o De servo arbitrio, do próprio Lutero, que acusa Erasmo de ser hipócrita e sofista.

Os dois já estão divididos. A dilaceração da cristandade está completa, e o sonho de uma recomposição desaparece.

Assista abaixo ao documentário “San Ignacio de Loyola vs Martín Lutero”, em espanhol:

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